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Formato do rosto pode indicar apneia do sono? Entenda a relação

Pesquisas indicam que características da mandíbula, do maxilar e das vias aéreas podem estar associadas à apneia

Por Redação em 15/10/2026 às 09:00:11
Imagem de wayhomestudio no Magnific

Imagem de wayhomestudio no Magnific

Olhe-se no espelho. O formato do seu rosto, a posição do queixo, a largura da face e até algumas características do pescoço podem fornecer pistas sobre a maneira como você respira, especialmente durante o sono, e pode estar associada a causa da apneia obstrutiva do sono.

Parece surpreendente, mas a relação entre anatomia craniofacial e apneia obstrutiva do sono é conhecida há décadas. Agora, com o avanço da inteligência artificial, pesquisadores estão tentando descobrir se uma simples fotografia do rosto poderá ajudar a identificar pessoas com maior risco de apresentar a doença.

Quais características do rosto podem estar relacionadas à apneia?

A apneia obstrutiva do sono ocorre quando a via aérea superior se estreita ou fecha repetidamente durante o sono, provocando redução ou interrupção temporária da passagem do ar. Como consequência, podem ocorrer quedas da oxigenação e despertares que fragmentam o sono, muitas vezes sem que a pessoa perceba.

Ronco intenso, pausas respiratórias observadas pelo companheiro, sensação de sufocamento durante a noite, sono não reparador, sonolência durante o dia e dificuldade de concentração, entre outros, são sinais que merecem atenção. Entretanto, nem todas as pessoas com apneia apresentam os mesmos sintomas ou as mesmas características anatômicas.

É justamente aí que o rosto começa a contar parte dessa história. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 na revista científica Sleep Medicine Reviews reuniu 32 estudos que compararam características dentofaciais e das vias aéreas de adultos com e sem apneia. Os pesquisadores identificaram diferenças anatômicas entre os grupos.

Pessoas com apneia apresentaram, com maior frequência, características como arco maxilar mais estreito, mandíbula menos desenvolvida e com rotação para baixo e para trás, maior crescimento vertical da face, osso hioide em posição mais inferior e menor espaço da via aérea atrás da língua e do palato.

Isso não significa que uma pessoa com queixo pequeno terá necessariamente apneia. Tampouco significa que alguém com uma mandíbula bem projetada esteja protegido contra a doença.

A apneia do sono é multifatorial. Obesidade, idade, distribuição de gordura ao redor das vias aéreas, tamanho e posição da língua, anatomia do palato, controle neuromuscular da faringe e características individuais da respiração durante o sono também participam do problema. Por isso, duas pessoas aparentemente semelhantes podem apresentar comportamentos respiratórios completamente diferentes enquanto dormem.

Como a inteligência artificial analisa o rosto?

O avanço tecnológico acrescentou uma nova possibilidade a essa investigação: ensinar computadores a reconhecer características faciais relacionadas à apneia.

Em uma meta-análise publicada em 2024, pesquisadores avaliaram estudos nos quais algoritmos de inteligência artificial analisavam fotografias craniofaciais de adultos. Foram incluídos seis estudos, com modelos treinados e testados em mais de dois mil participantes. Considerando os resultados agrupados, a inteligência artificial apresentou sensibilidade de aproximadamente 85% e especificidade de 71% para identificação da apneia. Alguns modelos de aprendizado profundo apresentaram desempenho ainda melhor.

Em termos simples, o computador aprende a procurar combinações de características que talvez sejam difíceis de perceber apenas olhando para uma pessoa. Em vez de avaliar somente se o queixo parece pequeno, por exemplo, o algoritmo pode analisar simultaneamente proporções, contornos e relações entre diferentes regiões da face.

Um estudo publicado em 2025 no Journal of Clinical Sleep Medicine avançou nessa direção ao combinar fotografias do rosto com informações de um questionário utilizado para rastreamento da apneia. Os pesquisadores estudaram pacientes que também haviam realizado polissonografia e desenvolveram modelos de aprendizado de máquina para identificar aqueles com maior risco de doença moderada ou grave.

Isso abre uma perspectiva fascinante: uma fotografia realizada com um telefone celular, combinada com algumas informações clínicas, poderá ajudar a selecionar quem deveria procurar investigação especializada.

Uma selfie pode diagnosticar apneia do sono?

Mas existe uma diferença fundamental entre rastrear e diagnosticar.

Entretanto, nem uma fotografia convencional nem uma análise realizada por inteligência artificial substituem atualmente os exames utilizados para estabelecer o diagnóstico da apneia, como a polissonografia ou, em pacientes selecionados, testes domiciliares específicos.

Também precisamos considerar que o rosto humano apresenta enorme diversidade. Sexo, idade, peso e ancestralidade influenciam a anatomia craniofacial. Uma revisão sistemática sobre fotografias faciais publicada em 2024 encontrou resultados promissores, mas ressaltou diferenças entre populações e a necessidade de validação em grupos étnicos mais diversos. Esse é um desafio importante antes que sistemas baseados em reconhecimento facial possam ser utilizados em larga escala.

O que esperar do diagnóstico da apneia no futuro?

O futuro pode ser ainda mais interessante quando diferentes informações forem combinadas. Fotografias do rosto, escaneamentos tridimensionais, tomografias, características das vias aéreas, dados de relógios inteligentes e informações sobre sono poderão ser analisados conjuntamente por algoritmos capazes de identificar diferentes perfis de pacientes.

Isso poderá ter implicações não apenas no diagnóstico, mas também na escolha do tratamento. Em alguns pacientes, a anatomia craniofacial exerce papel particularmente importante e tratamentos direcionados à estrutura da face e das vias aéreas podem ser considerados dentro de uma avaliação multidisciplinar.

Portanto, seu rosto pode, sim, fornecer pistas sobre como você respira enquanto dorme. A inteligência artificial está aprendendo a enxergar essas pistas com uma precisão cada vez maior. Mas ainda não chegamos ao momento em que uma selfie possa diagnosticar apneia.

Enquanto esse futuro não chega, uma regra continua válida: se você ronca intensamente, apresenta pausas respiratórias durante o sono ou acorda cansado apesar de dormir várias horas, não espere que o espelho dê a resposta. Seu rosto pode contar parte da história, mas o diagnóstico exige olhar para o que acontece enquanto você realmente está dormindo.

Fonte: Folha Vitória

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