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Economia

O impacto coletivo da casa própria: como a moradia transforma famílias e cidades

Ter uma casa própria pode representar mais do que patrimônio: significa estabilidade, segurança e melhores condições


Imagem: TV Vitória/TV Record

*Artigo escrito por Bartira Almeida, sócia da Morar Construtora e presidente do Instituto Ponte

Antes de sonhar com a universidade, uma criança precisa de um lugar seguro para dormir e estudar, sem medo de que a vida mude de endereço a cada aumento do valor do aluguel. É por isso que a casa própria nunca é uma conquista apenas individual.

Quando uma família recebe as chaves de um imóvel, não ganha apenas um registro em cartório; passa a ter também estabilidade e um ponto de partida para cuidar da saúde, educar os filhos e construir planos que antes pareciam distantes.

Vivo essa pauta por dois ângulos. Trabalhei durante 20 anos na Morar Construtora, empresa fundada pelos meus pais. Em 2014, criei o Instituto Ponte, que tem como propósito promover a ascensão social de jovens por meio da educação de qualidade. Consciente das oportunidades que tive, costumo dizer que fui “sorteada na loteria do CEP”. Nas duas experiências, cheguei à mesma conclusão: o lugar onde nascemos influencia as oportunidades que encontramos, mas não deveria determinar o tamanho do nosso futuro.

Essa transformação passa, inevitavelmente, pelo acesso à habitação, uma pauta que não pode ser tratada somente como um assunto do mercado imobiliário. O déficit habitacional dimensiona as necessidades de moradia da população a partir de diferentes situações de precariedade e dificuldade de acesso à habitação adequada. Segundo a Fundação João Pinheiro, esse número chegou a 5.773.983 no Brasil em 2024, o equivalente a 7,4% das moradias particulares ocupadas. No Espírito Santo, o dado mais recente disponível em nível estadual apontou que, em 2022, havia aproximadamente 92,3 mil casas nessa situação. Em 70% delas, o peso excessivo do aluguel era o principal fator.

Por trás dessas estatísticas, há um impacto direto na vida real. A Organização Mundial da Saúde reconhece a moradia como um importante determinante das condições de saúde e da qualidade de vida. Para crianças e adolescentes, em especial, uma casa adequada significa descanso, privacidade, segurança emocional e condições mais favoráveis para estudar.

À frente do Instituto Ponte há 12 anos, acompanho jovens de alto desempenho que transformam suas trajetórias quando encontram as condições necessárias para desenvolver seu potencial. Nesse período, conectamos 718 alunos à educação de qualidade e temos hoje 166 jovens cursando o ensino superior. Essa convivência reforça que oportunidade não é apenas abrir uma porta, mas oferecer estrutura para que alguém consiga atravessá-la, e a moradia faz parte disso.

Além disso, ampliar o acesso à casa própria vai muito além da entrega das chaves: exige planejamento urbano e infraestrutura para integrar as famílias à cidade. Afinal, quando quantidade e localização não caminham juntos, corre-se o risco de trocar a falta de moradia pela exclusão urbana. Ao mesmo tempo, esse movimento alavanca a construção civil, gera empregos e fortalece o comércio, criando um ciclo virtuoso que beneficia tanto a estabilidade da família quanto o crescimento planejado do município.

Se o lugar onde nascemos ainda influencia tanto as possibilidades que temos, a moradia digna não pode ser tratada como prêmio de uma “loteria do CEP”. Quanto mais famílias puderem dizer “este é o nosso lar”, mais perto estaremos de construir cidades menos desiguais e preparadas para o futuro.

Folha Vitoria

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