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Economia

Leonardo Boa: “Precisamos conceder crédito de forma segura”

O Banestes chegou ao primeiro semestre de 2026 com o melhor resultado de seus 89 anos. O banco registrou lucro líquido de R$ 226 milhões, crescimento de quase 17% sobre o mesmo período de


Leonardo Boa: Ampliação da presença do Banestes principalmente por meios digitais. Crédito: Reprodução de TV

O Banestes chegou ao primeiro semestre de 2026 com o melhor resultado de seus 89 anos. O banco registrou lucro líquido de R$ 226 milhões, crescimento de quase 17% sobre o mesmo período de 2025. O desempenho também reforçou a receita do Estado, controlador da instituição. Foram R$ 111 milhões em juros sobre capital próprio aos acionistas. Ou seja, desse total, cerca de R$ 103 milhões foram para o governo capixaba.

O resultado recorde ocorre em um momento de disputa cada vez maior pelo cliente bancário. Fintechs avançam no ambiente digital, cooperativas ampliam presença no interior e o próprio Banestes acelera investimentos em tecnologia sem abrir mão da rede física. Nesse sentido, o banco está nos 78 municípios capixabas e informou investimento de R$ 27 milhões em tecnologia no primeiro semestre.

Para Leonardo de Oliveira Boa, superintendente de Crédito do Banestes, a instituição precisa conhecer bem o cliente antes de conceder crédito. E essa é a principal vantagem na atuação de um banco regional. Além disso, ele afirma que a instituição acredita que a concorrência pode trazer benefícios.

Veja a entrevista com Leonardo Boa, superintendente de crédito do Banestes:

Como o resultado recorde do Banestes permite oferecer crédito mais barato ao cliente?

Quando pensamos em taxas mais atrativas, precisamos olhar para a eficiência operacional do banco. De um lado, temos a capacidade de captar recursos a custos menores. Do outro, precisamos conceder crédito de forma segura, com uma análise adequada do risco do cliente.

Às vezes, isso envolve garantia. Em outras situações, não. É preciso entender a necessidade específica de cada cliente. Como estamos presentes em todos os municípios do Espírito Santo, conhecemos as características de cada região e de cada praça. Ou seja, essa eficiência ajuda a fechar a conta e permite oferecer crédito a custos menores.

O Banestes está nos 78 municípios. Como essa capilaridade ajuda na concessão de crédito?

Nós temos 148 pontos ligados às agências, 725 pontos de atendimento em todo o Estado e duas agências fora do Espírito Santo, em São Paulo. Ao longo do tempo, aprendemos a enxergar cada região como uma praça com características próprias.

Conhecemos muitos clientes de perto. Do mesmo modo, há pessoas que valorizam esse atendimento mais humano e presencial. Ao mesmo tempo, investimos R$ 27 milhões em tecnologia no último semestre para manter todos os serviços também disponíveis pelo aplicativo e pelo Internet Banking.

Como o Banestes enfrenta a concorrência de fintechs e cooperativas de crédito?

Nós enxergamos a concorrência de forma muito tranquila. É saudável para o mercado. Mesmo com esse cenário de maior competição, nossa carteira de crédito, nossa base de clientes, bem como a quantidade de produtos disponíveis vêm crescendo.

Existe espaço para todo player que queira fazer um bom trabalho. Também temos contato com outras instituições. Conversamos, trocamos experiências e aprendemos com elas. Isso ajuda o sistema financeiro como um todo a evoluir.

E como o banco prepara as equipes para competir principalmente no atendimento presencial?

Temos treinamentos recorrentes. Recentemente, reunimos todos os gerentes para discutir a estratégia do banco para o segundo semestre.

Também temos um centro de treinamento e buscamos experiências fora. Visitamos instituições como BNDES e Banrisul, por exemplo. Depois, compartilhamos esses aprendizados com nossas equipes.

As fintechs nasceram no ambiente digital. Como o Banestes tenta acompanhar esse avanço?

No último semestre, fizemos mais de 50 milhões de operações pelo aplicativo, um recorde. Também batemos recordes de concessão de crédito pelo app, especialmente no consignado.

Nós queremos combinar duas coisas: atendimento humano e acesso digital. Para os clientes mais jovens, isso faz muita diferença. Aprendemos com o que o sistema financeiro oferece e incorporamos boas experiências.

Ao mesmo tempo, temos algo que consideramos muito importante: tradição e segurança. O nome Banestes tem muita força. Queremos usar a tecnologia sem abrir mão dessa confiança construída ao longo do tempo.

Como um banco público consegue trabalhar com juros menores que o mercado?

Isso volta à questão da eficiência operacional. Temos uma estrutura enxuta e uma mesa de operações eficiente na captação de recursos.

No primeiro semestre de 2026, nossas rendas de tesouraria cresceram 14% na comparação com o mesmo período de 2025. O dinheiro captado não fica parado. Parte vai para crédito a pessoas físicas e empresas e parte vai para operações no mercado de capitais.

A matemática é simples: se eu capto bem e tenho custo menor, consigo emprestar melhor para o cliente.

Qual é hoje o perfil de quem toma crédito no Banestes?

A pessoa física representa aproximadamente 63% das nossas operações. Temos grandes contas de empresas também, mas a relação fica próxima de 60% para pessoa física e 40% para pessoa jurídica.

Nas empresas, micro, pequenas e médias concentram grande parte das operações. Entre pessoas físicas, temos uma participação importante do crédito consignado para servidores estaduais e municipais.

O capixaba tem um perfil mais conservador quando toma crédito?

Eu prefiro analisar pelo momento da vida do cliente, e não exatamente pelo perfil.

Existe crédito para uma necessidade emergencial, como o cheque especial, que deve ser usado por pouco tempo. Há crédito para objetivos de longo prazo, como financiamento imobiliário, que pode chegar a 30 anos. Também existe o home equity, em que o cliente oferece um imóvel como garantia.

A primeira pergunta deve ser sempre: qual é o objetivo do crédito? O objetivo determina qual produto faz sentido.

O endividamento das famílias está elevado. Como o banco trata esse cenário?

O banco ajusta sua análise de risco. Avaliamos score, capacidade de pagamento e limite adequado para cada cliente.

Ao mesmo tempo, criamos ações de renegociação. Um exemplo é o Feirão Zera Dívida, que realizamos há cerca de quatro anos. Muitas vezes, existe um cliente que quer pagar, mas ainda não encontrou uma condição que caiba no orçamento.

O feirão permite renegociar, alongar dívidas e oferecer condições mais acessíveis. Costumamos dizer que isso ajuda a devolver a dignidade ao cliente, porque ele consegue regularizar a vida financeira e voltar ao mercado de crédito.

A educação financeira também entra nesse processo?

Faz muita diferença. Temos várias ações de educação financeira. Recentemente, fizemos um trabalho com a CDL Jovem para pessoas físicas e microempreendedores.

Falamos de crédito, investimento e até da importância de separar a conta da empresa da conta pessoal. Também visitamos escolas e realizamos ações em batalhões da Polícia Militar, por exemplo.

O crédito rural tem uma dinâmica diferente?

Tem. É um crédito voltado especificamente ao produtor rural.

Nós investimos em tecnologia e melhoria dos processos e alcançamos R$ 1,3 bilhão de carteira rural no primeiro semestre, com crescimento de aproximadamente 24% a 25% sobre o ano anterior.

No Plano Safra 2025/2026, concedemos mais de R$ 700 milhões. O crédito chegou praticamente a todo o Espírito Santo e o café tem um peso muito importante, até porque 74 dos 78 municípios capixabas produzem café.

E o crédito imobiliário? O Banestes pretende continuar ampliando essa carteira?

Sim. Crédito consignado, imobiliário, rural e pessoal são linhas muito importantes para nossa estratégia.

Recentemente, reduzimos a taxa para pessoas físicas no financiamento imobiliário e voltamos a trabalhar com uma das menores taxas do mercado. Em 2019 e 2020, chegamos a ter a menor taxa do Brasil.

Além disso, melhoramos os processos internos, reduzimos o tempo de entrega dos contratos e colocamos mais informações no aplicativo. O cliente consegue consultar dados do financiamento sem precisar procurar uma agência.

O crédito imobiliário continua dentro da estratégia do Banestes, com foco não apenas em juros competitivos, mas também em prazo e eficiência do processo.

Como a governança protege o Banestes, especialmente por ser um banco controlado pelo Estado?

Temos muito cuidado com todos os processos de crédito. Quando o cliente toma crédito no Banestes, ele passa por uma avaliação técnica, com participação de diferentes áreas do banco.

Também garantimos segurança das informações e cumprimento da LGPD. Uma vantagem nossa é que as diretorias e departamentos estão muito próximos fisicamente, o que facilita a comunicação e agiliza decisões.

Mas o fato de ser um banco público não aumenta o risco de interferência política?

O Banestes é uma companhia listada na Bolsa. O Estado não é o único acionista. Temos mais de 40 mil acionistas, inclusive investidores que estão fora do Brasil. Isso mostra confiança no nosso processo de governança.

Não existe ingerência nos processos do banco. Seguimos o rito técnico e as boas práticas bancárias.

Como você vê o futuro do Banestes?

Queremos trabalhar cada vez mais para que a instituição seja perene e sustentável.

Vamos continuar investindo na rede de agências, nos pontos de atendimento, na melhoria dos processos e na experiência do cliente. Queremos estar cada vez mais presentes tanto fisicamente quanto no ambiente digital e oferecer produtos e serviços melhores aos nossos clientes.

Folha Vitoria

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