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Politica

O grito já não convence? Amaro Neto perde força, fica fora da Câmara e vê antigo fenômeno eleitoral desmoronar

Apresentador que transformou popularidade na televisão em uma poderosa máquina de votos termina 2026 derrotado


A ironia é inevitável.

Apresentador que transformou popularidade na televisão em uma poderosa máquina de votos termina 2026 derrotado nas urnas; resultado consolida uma trajetória de perda de força eleitoral

Durante anos, Amaro Neto soube transformar televisão em voto.

O apresentador popular, conhecido pelo estilo expansivo, pelas brincadeiras, bordões, gritos e pela comunicação direta com o público, saiu dos estúdios para se tornar um dos maiores fenômenos eleitorais da história recente do Espírito Santo.

Naquele ano, Amaro conquistou 181.813 votos para deputado federal, estabelecendo na época o recorde capixaba para o cargo.

Oito anos depois, a fotografia é completamente diferente.

Nas eleições deste domingo (4), Amaro Neto não conseguiu se reeleger deputado federal e ficará fora da próxima composição da Câmara dos Deputados. A bancada capixaba terá renovação de 70%, com apenas três dos atuais deputados conseguindo permanecer.

Mais do que uma derrota isolada, o resultado fecha — pelo menos por enquanto — uma trajetória de perda progressiva do enorme capital eleitoral que Amaro construiu.

Do fenômeno eleitoral à perda de protagonismo

Em 2018, os 181 mil votos transformaram Amaro no deputado federal mais votado daquele pleito no Espírito Santo.

A marca permaneceu como recorde estadual até este domingo, quando Lucas Polese alcançou 419.735 votos e assumiu o posto de maior votação da história capixaba para deputado federal.

Amaro, que um dia ocupou exatamente esse lugar, agora termina a eleição fora das dez cadeiras do Espírito Santo.

A queda não aconteceu de uma vez.

Ela veio eleição após eleição.

O apresentador que já arrastou multidões de votos foi gradativamente perdendo força até chegar ao resultado de 2026.

E onde esteve Amaro durante o mandato?

Essa talvez seja a pergunta política mais importante deixada pelas urnas.

Durante seu atual mandato, Amaro perdeu grande parte da exposição pública que caracterizou sua ascensão política.

Um dado oficial ajuda a dimensionar isso.

Em todo o ano de 2025, a Câmara dos Deputados não registra nenhum discurso de Amaro Neto em plenário.

Em 2026, aparece um discurso, realizado em março, quando apresentou um balanço de sua atuação parlamentar.

Isso não significa que Amaro não tenha trabalhado.

Os próprios dados da Câmara mostram atividade legislativa, participação em votações e comissões, apresentação de proposições e boa frequência. Em 2026, por exemplo, aparecem 26 propostas de sua autoria, sete relatadas e 125 votações nominais em plenário.

Mas existe uma diferença entre exercer um mandato e conseguir fazer o eleitor perceber esse mandato.

E talvez tenha sido exatamente aí que Amaro perdeu terreno.

O comunicador que sabia aparecer desapareceu politicamente?

Poucos políticos capixabas conhecem televisão como Amaro Neto.

Ele construiu sua carreira justamente sabendo chamar atenção, conversar com as massas e transformar comunicação popular em audiência.

Sua biografia oficial registra passagens como apresentador pelo Balanço Geral, TV Vitória e Band Minas antes da consolidação da carreira política.

Mas, durante boa parte do último mandato, essa enorme capacidade de comunicação parece não ter sido convertida em presença política percebida pelo eleitor.

Amaro continuava deputado.

Mas quanto de sua atuação chegava efetivamente ao cidadão comum?

As urnas de domingo talvez tenham dado parte dessa resposta.

Na campanha, o velho Amaro reapareceu

Quando chegou novamente a hora de pedir votos, reapareceu o personagem que o Espírito Santo conhece há anos.

O problema é que 2026 não era mais 2018.

O eleitorado mudou. As redes sociais mudaram. Novos comunicadores políticos surgiram. E uma nova geração de candidatos aprendeu a disputar atenção diretamente pelo celular, sem depender da televisão tradicional.

Nesse ambiente, apenas ser conhecido deixou de ser suficiente.

E existe outro ponto que merece registro: na página eleitoral consultada pela CNN Brasil durante a campanha, não constavam propostas cadastradas para Amaro Neto.

Isso não significa que o candidato não tenha defendido ideias durante a campanha, mas ajuda a alimentar uma questão que o resultado eleitoral tornou inevitável:

além do personagem conhecido pelo público, qual era a mensagem política que Amaro estava oferecendo ao eleitor em 2026?

O resultado deste domingo foi duro.

O Espírito Santo tinha apenas dez cadeiras disponíveis para deputado federal.

Entre os eleitos estão nomes novos, candidatos que cresceram nas redes e políticos que conseguiram construir ou preservar bases eleitorais mais competitivas.

Para alguém que já ocupou o topo da votação capixaba, ficar fora da Câmara representa muito mais do que perder uma eleição.

Representa uma mudança de ciclo.

É impossível afirmar que Amaro nunca mais voltará à política.

Ele continua sendo conhecido por grande parcela da população, possui experiência eleitoral e uma carreira construída durante décadas na comunicação.

Na política, decretar antecipadamente o fim de alguém costuma ser um erro.

Mas uma coisa as urnas permitem afirmar:

o Amaro Neto que simplesmente aparecia na televisão e transformava popularidade em uma avalanche de votos não existe mais eleitoralmente com a mesma força.

O antigo recorde de 181 mil votos caiu.

A cadeira em Brasília foi perdida.

E a estratégia baseada fortemente no personagem popular não conseguiu produzir o resultado esperado.

Amaro Neto termina 2026 diante de uma escolha.

Pode interpretar o resultado apenas como uma derrota circunstancial.

Ou pode olhar para a mensagem enviada pelas urnas e perceber que, para voltar a ocupar o espaço que um dia teve na política capixaba, talvez seja necessário oferecer ao eleitor muito mais do que aquilo que o tornou famoso na televisão.

Porque, desta vez, o grito não foi suficiente.

Jornalista, publicitário e estrategista de marketing político. Diretor do Consórcio de Notícias do Brasil, apresentador do CNBCAST e autor do livro “Manual do Candidato Vencedor”, referência em narrativas e estratégias eleitorais.

consorciodenoticias.com.br

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