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O que as canetas para emagrecer fazem além da perda de peso

Semaglutida, tirzepatida e retatrutida vão além do peso, com efeitos já comprovados e outros ainda em estudo

Por Redação em 26/09/2026 às 09:00:12
Sólido: provado em dose terapêutica, em pessoas que têm a doença, em estudos de larga escala.

Sólido: provado em dose terapêutica, em pessoas que têm a doença, em estudos de larga escala.

Ela usou a caneta por 6 meses. Emagreceu 4 quilos. Esperava 12. Parou. “Não funcionou para mim.”

O que ela não sabia: durante esses 6 meses, a semaglutida (Ozempic, Wegovy) estava fazendo outra coisa. Algo que não aparece na balança e que ela nunca foi informada que estava acontecendo.

A amiga dela, saudável, 42 anos, nenhum diagnóstico, ouviu de uma conhecida que “um pouquinho de caneta desinflama o corpo, rejuvenesce, é anti-inflamatório natural”. Comprou a ideia. Está procurando quem prescreva.

Duas frases. Dois mundos. Um é ciência. O outro é aposta.

Esta coluna vai separar os dois.

Antes de tudo: eu não vendo caneta

Preciso dizer isso agora, porque muda o peso do que vem a seguir.

A minha farmácia não trabalha com injetáveis estéreis. Eu não manipulo nem vendo semaglutida, tirzepatida (Mounjaro, Zepbound), liraglutida (Victoza, Saxenda), retatrutida, que ainda não tem marca aprovada, nem nenhum análogo de GLP-1. Não ganho um centavo com nenhuma dessas moléculas.

Estou aqui colocando 30 anos de farmácia magistral a seu serviço, porque as pessoas estão usando. Com receita ou sem, daqui, do Paraguai ou dos Estados Unidos. E quem usa merece informação, não sermão.

Esta coluna não é regulatória. É um mapa, com três baldes: o que está provado, o que é promissor e o que é areia movediça.

De onde vieram e para onde foram

Em 2016, a liraglutida mostrou algo inesperado num grande ensaio de segurança: ela não só tratava o diabetes como protegia o coração de pessoas com diabetes e alto risco cardiovascular.

Foram 13% menos infartos, AVCs e mortes cardiovasculares.

O resultado sacudiu a endocrinologia. Pela primeira vez, um medicamento para glicose mostrava que protegia órgãos além do pâncreas. E a pergunta seguinte foi óbvia: se a liraglutida faz isso, o que as versões mais novas e mais potentes fazem?

A semaglutida veio primeiro. Depois a tirzepatida, com ação sobre dois hormônios diferentes. E agora a retatrutida, com ação tripla, ainda sem aprovação regulatória em lugar nenhum, mas já circulando importada em alguns consultórios.

Nos últimos 2 anos, especialistas das principais sociedades de cardiologia, nefrologia e hepatologia passaram a usar uma expressão que você provavelmente nunca ouviu fora de um congresso médico: terapias modificadoras de doença. Não mais “remédios para emagrecer com um benefício cardiovascular extra”.

Medicamentos que mudam o curso de doenças graves, independentemente do quanto a balança se move.

Chão firme: o que cada molécula já provou

Semaglutida. O ensaio SELECT foi publicado no New England Journal of Medicine em 2023, com 17.604 pessoas, metade recebendo semaglutida e metade placebo. Todas tinham obesidade e doença cardiovascular estabelecida. Nenhuma tinha diabetes. O resultado: 20% menos infartos, AVCs e mortes cardiovasculares. E, num desfecho analisado no mesmo estudo, 22% menos eventos renais.

E depois veio o dado que muda tudo, publicado no Lancet em 2025, numa análise que já estava planejada antes de o estudo começar: a perda de peso nas primeiras 20 semanas não previu a proteção cardiovascular. Quem emagreceu pouco foi protegido tanto quanto quem emagreceu muito. Apenas um terço do efeito foi explicado pela redução de cintura. Os outros dois terços são a molécula agindo diretamente, por outros caminhos.

Os autores propuseram uma nova forma de enxergar a semaglutida: não como um remédio para peso com um bônus cardíaco, mas como um tratamento que modifica a doença cardiovascular e que também faz emagrecer.

Guarde isso, porque é a chave da coluna: para quem parou achando que “não funcionou”, a balança não era o único marcador.

Em 2024, o ensaio FLOW mostrou que a semaglutida reduz em 24% os eventos renais maiores em pessoas com diabetes e doença renal crônica, incluindo falência renal e morte cardiovascular. Foi a primeira aprovação da classe para doença renal.

Em 2025, o ensaio ESSENCE mostrou que a semaglutida trata a esteato-hepatite metabólica, a gordura inflamada do fígado que pode evoluir para cirrose. Não só reduz a gordura: melhora a fibrose do fígado.

O ensaio STEP 9, com 407 pessoas e 68 semanas, mostrou redução de 59% na dor de joelho por artrose, contra 39% no placebo, com melhora da função física, em pessoas com obesidade e artrose.

E o ensaio STEP HFpEF mostrou melhora de sintomas e de capacidade física em pessoas com insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada, o tipo mais comum e o que ainda tem menos opções de tratamento.

Liraglutida. A pioneira. O ensaio LEADER, de 2016, com 9.340 pessoas, foi o primeiro a mostrar que um GLP-1 protegia o coração: 13% menos infartos, AVCs e mortes cardiovasculares em pessoas com diabetes de alto risco. Abriu o caminho para tudo que veio depois.

Tirzepatida. Em dezembro de 2024, a agência americana aprovou a tirzepatida para uma indicação que nunca tinha existido na história da medicina: tratar a apneia obstrutiva do sono em pessoas com obesidade.

O ensaio SURMOUNT OSA mostrou redução de 25 a 29 eventos respiratórios por hora, que é a medida usada para graduar a gravidade da apneia. Quase metade das pessoas tratadas teve resolução dos sintomas.

O ensaio SUMMIT mostrou 38% menos mortes cardiovasculares ou piora de insuficiência cardíaca em pessoas com obesidade e o mesmo tipo de insuficiência cardíaca, a de fração de ejeção preservada.

Retatrutida. A mais potente da classe até agora, com ação tripla. O estudo inicial, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, mostrou perda de peso de até 24%. O estudo de larga escala, concluído em dezembro de 2025, chegou a 28,7%.

Mas não há aprovação regulatória em lugar nenhum, não há nome comercial aprovado, e não há dado de segurança de longo prazo.

Promessa real. Pressa perigosa.

Por que funciona além do peso

O receptor do GLP-1 não existe só no intestino e no pâncreas. Existe no coração, nos vasos sanguíneos, nos rins, no cérebro e no fígado.

Uma revisão publicada no Journal of Clinical Investigation em novembro de 2025 consolidou o que os ensaios vêm mostrando: essas moléculas reduzem a inflamação do organismo, medida pela proteína C reativa, um marcador de inflamação no sangue. E essa redução não é explicada só pelo peso e pela glicose. Em um dos ensaios analisados, a semaglutida reduziu esse marcador em 30%, enquanto outro medicamento que produziu a mesma perda de peso não reduziu nada.

O peso e a glicose explicam de 20 a 60% da queda desse marcador. O resto é a molécula agindo direto.

Guarde esta frase, porque ela é o alicerce e é também o limite: tudo isso foi demonstrado em dose terapêutica, em pessoas que tinham a doença.

Promissor: sinais reais, prova pendente

Promissor: a evidência aponta na direção certa, mas ainda falta o estudo de larga escala com resultado clínico.

Dependência de álcool. Um estudo controlado publicado no JAMA Psychiatry em 2025, com cerca de 48 pessoas, mostrou que a semaglutida reduziu o consumo de álcool em ambiente de laboratório. O acompanhamento de grandes grupos ao longo do tempo mostra menos internações por álcool entre usuários de GLP-1. A hipótese é forte. A prova em larga escala ainda não existe.

Dor crônica além do joelho. Há relatos em fibromialgia, enxaqueca e hipertensão intracraniana. Um estudo pequeno e acompanhamento de grupos de pacientes. Emergente, não provado.

Rim em pessoas sem diabetes. O SELECT mostrou desaceleração da perda de função renal em pessoas sem diabetes. Sinal claro. Mas a indicação formal, hoje, só existe para quem tem diabetes.

Preservação de músculo. Um dos efeitos indesejados do GLP-1 usado sem suporte é a perda de massa muscular junto com a gordura: sem proteína suficiente e sem exercício de resistência, de 25 a 40% do peso perdido pode ser músculo, não gordura.

Estudos estão testando combinações do GLP-1 com outras moléculas para reduzir essa perda. Resultados iniciais promissores, ainda sem aprovação.

Honestidade obrigatória: o que foi testado com rigor e não funcionou.

Alzheimer. Era a maior aposta neurológica da classe. Os estudos EVOKE e EVOKE+, com 3.808 pessoas entre 55 e 85 anos, todas em fase inicial da doença, não reduziram a progressão do Alzheimer. O resultado foi anunciado em novembro de 2025 e publicado no Lancet em 2026. Os marcadores biológicos até melhoraram, mas isso não se traduziu em menos declínio cognitivo.

Há um detalhe que merece ser dito: esses estudos usaram a semaglutida oral (Rybelsus), não a injetável. E a semaglutida oral tem um obstáculo farmacológico conhecido: a absorção pelo intestino é baixa e muito sensível às condições do momento, como o alimento no estômago, o horário e a velocidade com que o estômago esvazia.

Na prática, boa parte da molécula não chega à circulação de forma consistente. Já está demonstrado que a semaglutida oral entrega resultados menores que a injetável para diabetes e para perda de peso. Pedir que essa mesma molécula, por essa mesma via, chegasse íntegra ao cérebro em quantidade suficiente era uma aposta com obstáculo grande desde o começo.

Talvez a pergunta que falta responder não seja “o GLP-1 funciona no Alzheimer”, e sim: Qual molécula, por qual via, chegaria lá em quantidade suficiente? Essa pergunta ainda não foi testada.

Se fosse panaceia, teria funcionado por qualquer via. Não é panaceia. É medicamento com indicações específicas, e a lista é a que a ciência prova, não a que o marketing deseja.

Areia movediça: a microdose e os usos fora da indicação aprovada

Areia movediça: a plausibilidade biológica existe, a prova humana não.

Nos Estados Unidos, e com crescimento no Brasil, uma prática está se espalhando: usar essas moléculas em doses muito abaixo das aprovadas, por tempo longo, não para emagrecer, mas pelo efeito anti-inflamatório, por “longevidade”, por “manutenção”. A lógica vem de tudo que está acima: se a molécula age direto nos vasos e na inflamação, um pouquinho por muito tempo deveria fazer algo bom.

A plausibilidade biológica existe. A prova humana: zero ensaios concluídos. Os primeiros estudos sobre microdose estão em andamento, e são financiados por quem vende a prática.

Em agosto de 2026, o Cedars Sinai publicou uma nota direta: não há evidência de benefício em dose baixa ou intermitente, e não é estratégia aprovada. Os mesmos especialistas que estão entusiasmados com os efeitos cardiovasculares e renais da classe são os que dizem não à microdose. Órgãos de defesa do consumidor nos Estados Unidos alertaram sobre risco de erro de dose quando a caneta é fracionada fora de um serviço farmacêutico.

Para o lipedema, o cenário é o mesmo: hipótese biológica plausível, uma série de 5 pacientes sem grupo de comparação, um relato de caso. Uma revisão de 2026 concluiu que os GLP-1 não provaram efeito direto na progressão do lipedema. Nenhum ensaio. Todo uso é experimental.

Usar um medicamento fora da indicação aprovada não é ilegal. É responsabilidade do médico que prescreve, com consentimento informado de quem usa. Esta coluna não julga o médico que faz isso. Ela diz que é território experimental, e que quem usa precisa saber disso e ser acompanhado como tal.

Fracionar a caneta em casa, ou usar produto sem rastreabilidade, adiciona risco de dose errada e de contaminação por cima da aposta.

Os riscos que acompanham o sólido

Nenhum dado favorável dispensa o outro lado.

A perda de massa muscular é o risco mais silencioso. O reganho ao parar é documentado: dois terços do peso de volta em um ano quando a medicação é suspensa sem manejo do terreno metabólico.

A queda de cabelo acontece em cerca de 3,9% dos usuários, pelo mecanismo de eflúvio telógeno associado ao emagrecimento rápido.

A Anvisa mandou incluir em bula, em junho de 2025, o risco de NAION, uma perda súbita de visão por comprometimento do nervo óptico. É raro, mas existe e precisa ser conhecido.

Pancreatite aguda apareceu em cerca de 0,2% dos usuários nos ensaios, contra menos de 0,1% no placebo. E os efeitos no estômago e no intestino são a principal causa de abandono do tratamento.

E há a pergunta sem resposta: nenhuma pessoa saudável foi acompanhada por 10 anos em dose baixa. A segurança de longo prazo em quem não tem doença é desconhecida.

Volto às duas mulheres do início.

A que parou porque “emagreceu pouco” talvez não soubesse que a caneta podia estar fazendo algo mais profundo do que a balança mostrava.

A que quer “um pouquinho para desinflamar” precisa de outra pergunta: Eu tenho a indicação para a qual isso foi provado? Ou estou apostando em plausibilidade biológica sem prova?

A pergunta não é “a caneta faz bem ou faz mal”. É outra: Para o que a ciência já provou que ela faz, eu tenho a indicação? E para o que ela ainda não provou, eu sei que estou apostando?

Leve esta coluna para a consulta. Pergunte ao seu médico: Qual é a minha indicação específica? Qual o resultado que você espera para mim? O que está provado no meu caso e o que é hipótese? Como vamos proteger a massa muscular? Qual o plano se eu precisar parar?

Eu não vendo nada disso. O que eu vendo é a verdade, e ela é de graça aqui!

Médico é condutor. Autor da sua saúde é você.

Lincoff A.M. et al. (2023). Semaglutide and cardiovascular outcomes in obesity without diabetes (SELECT). New England Journal of Medicine, 389:2221-2232. DOI 10.1056/NEJMoa2307563. (17.604 participantes; 20% de redução de eventos cardiovasculares maiores)

Colhoun H.M. et al. (2024). Long term kidney outcomes of semaglutide in obesity and cardiovascular disease in the SELECT trial. Nature Medicine. (desfecho renal composto: 1,8% vs 2,2%; HR 0,78)

Deanfield J. et al. (2025). Semaglutide and cardiovascular outcomes by baseline and change in adiposity: análise pré especificada do SELECT. The Lancet. (cerca de um terço do efeito explicado pela redução de adiposidade)

Perkovic V. et al. (2024). Effects of semaglutide on chronic kidney disease in patients with type 2 diabetes (FLOW). New England Journal of Medicine. DOI 10.1056/NEJMoa2403347.

Sanyal A.J. et al. (2025). Semaglutide in metabolic dysfunction associated steatohepatitis (ESSENCE). New England Journal of Medicine. DOI 10.1056/NEJMoa2413258.

Kosiborod M.N. et al. (2023). Semaglutide in patients with heart failure with preserved ejection fraction and obesity (STEP HFpEF). New England Journal of Medicine, 389:1069-1084.

Bliddal H. et al. (2024). Once weekly semaglutide in persons with obesity and knee osteoarthritis (STEP 9). New England Journal of Medicine. DOI 10.1056/NEJMoa2403664.

Marso S.P. et al. (2016). Liraglutide and cardiovascular outcomes in type 2 diabetes (LEADER). New England Journal of Medicine, 375:311-322.

Malhotra A. et al. (2024). Tirzepatide for the treatment of obstructive sleep apnea and obesity (SURMOUNT OSA). New England Journal of Medicine. DOI 10.1056/NEJMoa2404881.

Packer M. et al. (2024). Tirzepatide for heart failure with preserved ejection fraction and obesity (SUMMIT). New England Journal of Medicine, 392:427-437.

Jastreboff A.M. et al. (2023). Triple hormone receptor agonist retatrutide for obesity: a phase 2 trial. New England Journal of Medicine, 389:514-526.

Journal of Clinical Investigation (novembro de 2025). Anti inflammatory actions of GLP 1 based therapies beyond metabolic benefits. PMC12578379.

Hendershot C.S. et al. (2025). Once weekly semaglutide in adults with alcohol use disorder: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. DOI 10.1001/jamapsychiatry.2024.4789.

Feldman H.H. et al. (2026). Efficacy and safety of oral semaglutide 14 mg (flexible dose) in early stage symptomatic Alzheimer’s disease (evoke and evoke+): two phase 3, randomised, placebo controlled trials. The Lancet, publicado em 19 de março de 2026. DOI 10.1016/S0140-6736(26)00459-9. PubMed 41865758. (3.808 participantes; sem redução da progressão da doença)

Cedars Sinai (agosto de 2026). Microdosing semaglutide: does it work? Nota institucional.

Revisão em dermatologia (2026). Agonistas de GLP 1 em lipedema: hipótese sem ensaio clínico. Dermatologic Surgery.

Anvisa (junho de 2025). Inclusão em bula do risco de NAION associado à semaglutida.

Fonte: Folha Vitória

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