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Doação de órgãos após morte de familiares ganha memorial em hospital no ES

Famílias que, mesmo diante da perda de um parente, autorizaram a doação de órgãos e tecidos no Espírito Santo foram homenageadas em um memorial inaugurado nesta sexta-feira (25), no Ho

Por Redação em 25/09/2026 às 21:00:14

Famílias que, mesmo diante da perda de um parente, autorizaram a doação de órgãos e tecidos no Espírito Santo foram homenageadas em um memorial inaugurado nesta sexta-feira (25), no Hospital Vitória Apart Serra. A iniciativa integrou as ações do Setembro Verde e busca também incentivar uma conversa que pode ser decisiva: manifestar ainda em vida o desejo de ser doador.

O espaço pretende preservar a memória dos doadores e reconhecer familiares que precisaram tomar a decisão em um momento de luto. A cerimônia de inauguração contará com profissionais do hospital e parentes de doadores.Entre as histórias que ajudam a explicar o significado da iniciativa está a da família de Adilson. Em 2022, após a morte dele em decorrência de um câncer no intestino, as filhas Juliana e Thainara Mendes autorizaram a doação das córneas do pai.

Para elas, permitir que outras pessoas fossem beneficiadas também trouxe um novo significado à despedida.

“Meu pai sempre foi um homem muito saudável, mas entre o diagnóstico e a morte dele tivemos pouco tempo. Naquele momento de dor e sofrimento, pensar que a gente poderia cuidar de alguém e trazer algum conforto para outra família trouxe conforto para a nossa família também”, conta Thainara Mendes, de 30 anos.

A família acreditava que Adilson aprovaria a decisão.

“A gente se sente grato por, mesmo diante da dor, poder cuidar de alguém. Sabíamos que ele ficaria muito feliz e orgulhoso por estarmos ajudando outra pessoa”, afirma.

Conversa em vida pode ajudar família a decidir

A experiência de Juliana e Thainara toca em um dos principais pontos da campanha do Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos.No Brasil, a doação depende da autorização da família. Por isso, comunicar aos parentes o desejo de ser doador pode facilitar uma decisão que geralmente precisa ser tomada em um momento de forte impacto emocional.

Para Lívia Frigeri, intensivista e coordenadora médica do Hospital Vitória Apart, o desconhecimento sobre a vontade do potencial doador pode aumentar a dificuldade enfrentada pelos parentes.“Quando a família nunca conversou sobre doação, eles precisam tomar uma decisão sem saber exatamente o que o familiar gostaria. Por isso, uma conversa simples feita em vida pode fazer uma diferença enorme”, explica.

Segundo a médica, a possibilidade de ajudar outras pessoas não elimina a dor da perda, mas pode dar outro significado àquele momento.“Mesmo diante de uma perda que não pode mais ser revertida, aquela família pode possibilitar que outras pessoas tenham uma nova oportunidade.”

Como começa o processo de doação de órgãos?

Antes de qualquer possibilidade de doação, a prioridade da equipe médica é salvar a vida do paciente. Em algumas situações, porém, apesar dos esforços, uma lesão irreversível pode levar à morte encefálica.

O diagnóstico segue um protocolo rigoroso e é realizado por médicos habilitados para confirmar a perda completa, definitiva e irreversível das funções do cérebro e do tronco encefálico.

Uma das dúvidas enfrentadas pelas famílias é como uma pessoa pode ter morrido se o coração ainda apresenta batimentos.Lívia explica que aparelhos e medicamentos conseguem manter temporariamente a oxigenação e a circulação.“Por isso, morte encefálica é morte, mesmo que aparelhos mantenham temporariamente a respiração e os batimentos cardíacos”, esclarece.

Família tem a palavra final sobre doação

Depois da confirmação da morte encefálica e da avaliação da possibilidade de doação, a equipe conversa com os familiares e esclarece dúvidas sobre o procedimento.

É nesse momento que ocorre a autorização.

Segundo Andreia Pereira, presidente da comissão de doação de órgãos do Hospital Vitória Apart, para maiores de 18 anos, a autorização pode ser dada por familiares até o segundo grau de parentesco. Para menores de idade, é necessária a autorização dos pais ou do responsável legal.

No caso da família de Adilson, o acolhimento durante o processo ficou marcado na memória das filhas.“Fomos muito bem acolhidos pelo hospital. Tudo o que estávamos vivendo era um choque, algo que nunca tinha acontecido na nossa família”, recorda Thainara.

“Enquanto ele estava sendo cuidado pela doença, nós também precisávamos de cuidado. Em meio à nossa dor e sofrimento, pensar que poderíamos cuidar de alguém trouxe um significado diferente para aquele momento.”

O que acontece após a autorização?

Com o consentimento da família, são realizados exames e avaliações para identificar quais órgãos e tecidos podem ser utilizados com segurança.

A Central Estadual de Transplantes coordena o processo, enquanto equipes especializadas realizam a captação. A distribuição segue critérios do Sistema Nacional de Transplantes e considera os pacientes que aguardam por transplante.

O tempo é determinante. Órgãos sólidos precisam chegar rapidamente aos receptores porque possuem períodos limitados de viabilidade fora do organismo. Tecidos como as córneas, por outro lado, passam por procedimentos específicos de preparação e conservação.

“O tempo é muito precioso na doação”, destaca Andreia.

Um doador pode ajudar até nove pessoas

Dependendo das condições clínicas e dos órgãos e tecidos disponíveis para transplante, um único doador pode beneficiar aproximadamente oito ou nove pacientes.

Dois rins, por exemplo, podem atender duas pessoas. Duas córneas podem beneficiar outras duas. Coração, fígado e pulmões também podem ser destinados a pacientes diferentes.

“Um único doador pode beneficiar muitas vidas, aproximadamente de oito a nove pessoas”, explica Andreia.

Foi essa possibilidade que fez a família de Adilson transformar a despedida em um gesto capaz de alcançar pessoas que elas sequer conheciam.

Quatro anos depois, a história dele passa a representar também o propósito do memorial: manter viva a lembrança daqueles que partiram e reconhecer as famílias que, em meio ao luto, autorizaram a doação.

Fonte: ES HOJE

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