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Saúde

A dose do remédio está certa, mas será que está certa para os seus rins?

A função dos rins interfere na eliminação de diversos medicamentos. Entenda quando a dose precisa ser ajustada e como evitar riscos


Imagem: Freepik

Quando recebemos uma receita médica, é natural imaginar que existe uma dose certa para cada medicamento. Mas uma informação importante ainda é pouco conhecida pela população: a mesma dose pode ser adequada para uma pessoa e excessiva para outra, dependendo de como seus rins estão funcionando.

Na prática clínica, essa é uma situação que encontro com frequência, principalmente entre idosos e pessoas que utilizam vários medicamentos ao mesmo tempo.

Como os rins interferem na ação dos medicamentos

Os rins não servem apenas para produzir urina. Eles também participam da eliminação de diversos medicamentos e de substâncias produzidas após sua metabolização. Gosto de compará-los a uma importante via de saída do organismo. Quando a função renal diminui, essa saída fica mais lenta. O medicamento pode permanecer mais tempo no sangue e, em determinadas situações, acumular-se até atingir concentrações capazes de provocar efeitos adversos.

É por isso que alguns antibióticos, anticoagulantes, medicamentos para diabetes, anticonvulsivantes, analgésicos e várias outras drogas precisam ter suas doses ajustadas de acordo com a função dos rins. Em alguns casos, reduzimos a quantidade; em outros, aumentamos o intervalo entre as doses. Existem ainda medicamentos que podem agredir diretamente os rins e que exigem acompanhamento mais cuidadoso.

Isso não significa que essas medicações sejam ruins ou devam ser evitadas: significa que precisam ser utilizadas na pessoa certa, na dose certa e com monitoramento adequado.

Muitos medicamentos podem aumentar os riscos

Esse assunto ganha importância especial no Dia Mundial da Segurança do Paciente, celebrado em 17 de setembro. Neste ano, a campanha internacional chama atenção justamente para a segurança no cuidado das doenças crônicas. Hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares e doença renal frequentemente coexistem, fazendo com que uma mesma pessoa utilize diversos medicamentos e seja acompanhada por diferentes profissionais ao longo da vida.

Na prática clínica, um dos problemas que mais observo é justamente a fragmentação dessas informações. Um medicamento é prescrito por um profissional, outro é acrescentado posteriormente e, em algum momento, o paciente ainda inclui por conta própria um anti-inflamatório, suplemento ou medicamento vendido sem receita.

Separadamente, cada decisão pode parecer pequena. Quando reunimos tudo, porém, podem surgir interações, alterações do potássio, queda da pressão arterial, desidratação ou até injúria renal aguda.

Avaliar a função dos rins também faz parte da segurança

Por isso, conhecer a função renal é parte da segurança do tratamento. A creatinina no sangue é importante, mas não deve ser interpretada isoladamente. A partir dela e de outras informações, estimamos quanto os rins conseguem filtrar. As recomendações internacionais atuais reforçam que essa capacidade de filtração deve ser considerada na dose de medicamentos eliminados pelos rins e reavaliada sempre que a condição clínica do paciente mudar.

Há ainda uma atitude muito simples que pode evitar problemas: manter uma lista atualizada de todos os medicamentos utilizados, incluindo suplementos e produtos vendidos sem receita e apresentá-la em cada consulta. Em pessoas com doença renal, essa revisão deve ser periódica. E nenhuma medicação de uso contínuo deve ser suspensa ou ter sua dose modificada por conta própria.

Segurança medicamentosa não significa ter medo dos remédios. Pelo contrário: significa conseguir utilizar todo o benefício que eles oferecem reduzindo riscos evitáveis. Uma pergunta simples na próxima consulta pode fazer diferença: “Minha função renal permite que eu continue usando esta medicação nesta dose?” Cuidar dos rins também significa usar medicamentos de forma inteligente e segura.

Folha Vitória

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