Olheiras marcadas, pele pálida, falta de viço e aquela aparência de quem não descansou o suficiente. Esses sinais passaram a ser chamados nas redes sociais de “rosto de ferritina”, em vídeos que relacionam mudanças na aparência à falta de ferro no organismo.
O termo ganhou força no TikTok e voltou a repercutir nos últimos dias, principalmente entre mulheres que relatam cansaço, queda de cabelo e dificuldades para descobrir a origem dos sintomas. Apesar do nome convincente, “rosto de ferritina” não é uma condição reconhecida pela medicina.
A deficiência de ferro pode, de fato, provocar palidez e outros sinais visíveis. Isso não significa, porém, que seja possível descobrir se a ferritina está baixa apenas olhando para o espelho.
O que é o “rosto de ferritina”?
A expressão é usada nas redes para descrever um conjunto de características atribuídas à deficiência de ferro, como:
pele pálida ou sem viço;
aparência constante de cansaço;
queda ou afinamento dos cabelos.
O problema é que não existem critérios médicos para definir um “rosto de ferritina”. Olheiras, ressecamento e pele opaca podem aparecer por vários motivos, incluindo noites mal dormidas, desidratação, estresse, exposição ao sol, alergias, envelhecimento e alterações hormonais.
Já a palidez pode estar presente em pessoas com anemia, especialmente quando há redução da hemoglobina. Ainda assim, esse sinal isolado não permite identificar a causa do problema.
A tendência pode servir como um alerta para prestar atenção ao próprio corpo, mas não deve ser usada como uma forma de autodiagnóstico.
O que é ferritina e por que ela é importante?
A ferritina é uma proteína que ajuda a indicar como estão os estoques de ferro no organismo. A dosagem dessa substância no sangue é utilizada para investigar deficiência ou sobrecarga do mineral.
O resultado, no entanto, precisa ser interpretado junto com o histórico do paciente, os sintomas e outros exames.
Isso acontece porque processos inflamatórios e infecções podem elevar a ferritina. Em determinadas situações, portanto, o resultado pode estar normal ou alto mesmo quando a quantidade de ferro disponível não é suficiente.
Também não existe um valor que possa ser analisado da mesma maneira para todas as pessoas. Idade, sexo, gravidez, presença de inflamação e método utilizado pelo laboratório interferem na avaliação.
É possível descobrir a falta de ferro pelo rosto?
O rosto pode dar pistas, mas não confirma a deficiência.
A pele mais pálida que o habitual está entre os possíveis sinais da anemia por deficiência de ferro. O mesmo vale para a parte interna das pálpebras e para as mucosas, que podem apresentar uma coloração menos avermelhada.
Olheiras e pele sem viço, por outro lado, são sinais pouco específicos. Uma pessoa pode apresentar essas características e ter níveis adequados de ferritina. Também é possível ter deficiência de ferro sem qualquer alteração facial evidente.
Por isso, não é recomendado comparar o próprio rosto com fotografias publicadas nas redes ou iniciar um tratamento com base apenas na aparência.
Quais sintomas realmente merecem atenção?
Quando a quantidade de ferro disponível diminui, o organismo pode ter dificuldade para produzir hemoglobina, substância presente nas células vermelhas do sangue e responsável pelo transporte de oxigênio.
Entre os sintomas associados à anemia por deficiência de ferro estão:
cansaço persistente e falta de energia;
pele mais pálida que o habitual.
Algumas pessoas também relatam dificuldade de concentração, redução do rendimento físico, queda de cabelo e unhas mais frágeis. Esses sinais, assim como as alterações no rosto, também podem estar relacionados a outras condições.
A suspeita se torna mais relevante quando vários sintomas aparecem ao mesmo tempo ou persistem mesmo após mudanças na rotina de sono e alimentação.
Ferritina baixa é o mesmo que anemia?
Não. A deficiência de ferro e a anemia estão relacionadas, mas não são exatamente a mesma coisa.
As reservas de ferro podem começar a cair antes que o nível de hemoglobina seja afetado. Nesse estágio, a pessoa pode ter ferritina baixa sem apresentar anemia no hemograma.
Se a deficiência continuar, a produção de hemoglobina pode ser prejudicada e evoluir para anemia por deficiência de ferro.
Por outro lado, nem todo caso de anemia é provocado pela falta do mineral. Deficiências de outras vitaminas, doenças crônicas, alterações genéticas e perdas de sangue estão entre as possíveis causas.
É por isso que observar apenas a hemoglobina ou somente a ferritina nem sempre é suficiente para compreender o quadro.
Como o diagnóstico é feito?
A investigação costuma começar com uma avaliação dos sintomas e do histórico de saúde. O profissional pode solicitar hemograma, dosagem de ferritina e outros exames relacionados ao transporte e ao aproveitamento do ferro.
O protocolo do Ministério da Saúde considera a ferritina sérica um dos parâmetros importantes para a confirmação da deficiência. O resultado, porém, precisa ser analisado com cuidado, especialmente na presença de inflamações.
Além de identificar a falta de ferro, é necessário descobrir por que as reservas diminuíram. Entre as causas possíveis estão:
menstruação com fluxo intenso;
sangramentos gastrointestinais;
gravidez, período em que a necessidade de ferro aumenta;
alimentação com quantidade insuficiente do mineral;
dificuldade de absorção intestinal;
cirurgias que alteram a absorção de nutrientes.
Tratar apenas o resultado do exame, sem investigar a causa, pode fazer com que o problema volte ou adiar o diagnóstico de outra condição.
Tomar ferro por conta própria pode fazer mal?
A popularização do “rosto de ferritina” também incentiva a procura por suplementos e infusões de ferro. Esses tratamentos podem ser necessários em casos confirmados, mas não são indicados para qualquer pessoa que apresente cansaço ou olheiras.
A dose e a forma de reposição dependem da intensidade da deficiência, da causa e das condições de saúde do paciente. Comprimidos de ferro podem provocar náusea, dor abdominal, constipação, diarreia e escurecimento das fezes.
O uso desnecessário também pode levar ao acúmulo do mineral no organismo. Por isso, suplementos e aplicações intravenosas devem ser usados apenas com orientação profissional.
A automedicação ainda pode criar uma falsa sensação de que o problema está sendo resolvido, enquanto a causa da perda de ferro permanece sem investigação.
Quando procurar atendimento?
A avaliação médica é recomendada quando o cansaço se torna frequente, há queda importante no rendimento, falta de ar, palpitações, tontura, dores de cabeça recorrentes ou palidez perceptível.
Mulheres com menstruação muito intensa, gestantes, pessoas que passaram por cirurgia bariátrica e pacientes com doenças que prejudicam a absorção intestinal devem ter atenção especial.
Falta de ar intensa, desmaio, dor no peito ou palpitações fortes exigem atendimento imediato. Para os demais casos, uma consulta e exames laboratoriais são o caminho seguro para descobrir se existe deficiência de ferro, em vez de tentar encontrar a resposta apenas no espelho.
A dermatologista Alisangela Durhan explica quais alterações na aparência podem estar relacionadas à ferritina baixa. Os sinais isolados, porém, não confirmam deficiência de ferro, que precisa ser investigada por meio de avaliação médica e exames.
Folha Vitória