O salário cai na conta, mas uma parte considerável já tem destino certo. Fatura do cartão, parcelas antigas, empréstimos, assinaturas, compras feitas por aplicativos e apostas online podem consumir a renda antes mesmo da metade do mês.
O problema não está necessariamente em uma despesa isolada. Ele aparece quando diferentes compromissos se acumulam e passam a disputar o mesmo dinheiro.
O Brasil chegou a 83,9 milhões de consumidores inadimplentes em julho de 2026, o maior número registrado na série histórica da Serasa. O resultado foi alcançado após 19 meses consecutivos de alta.
Para o economista e criador de conteúdo Presley Vasconcellos, a facilidade para consumir e contratar crédito pode dificultar a percepção de quanto da renda atual e futura já está comprometida.
O problema não é gastar. É perder a percepção de quanto da sua renda já foi comprometida. Quando cada decisão parece pequena, fica mais difícil enxergar o impacto que todas elas terão juntas no orçamento.
Presley Vasconcellos, economista
Parcelas pequenas podem esconder um problema grande
Dividir uma compra em dez ou 12 vezes reduz o valor que aparece na fatura daquele mês, mas não diminui o preço total do produto. A prestação continuará ocupando espaço no orçamento durante boa parte do ano.
O parcelamento não é necessariamente ruim. Ele pode ajudar a distribuir o custo de um bem durável, como uma geladeira, um computador ou outro produto necessário.
O risco aparece quando diferentes prestações se acumulam e o consumidor deixa de saber quanto da renda dos próximos meses já está comprometido.
O limite do cartão de crédito não é uma extensão do salário. Quando diferentes parcelas começam a se acumular, estamos usando uma renda que ainda nem recebemos para pagar decisões tomadas no passado.
Uma compra parcelada pode deixar o orçamento fora de controle quando o consumidor considera apenas o valor de cada prestação e ignora as demais cobranças que chegarão nos meses seguintes.
Uma parcela de R$ 50 pode parecer pequena. Porém, quando ela é somada a outras cinco, dez ou 15 compras parceladas, passa a ocupar uma fatia significativa da renda mensal.
Compras por aplicativo diminuem o tempo para pensar
O pagamento digital trouxe praticidade, mas também reduziu o intervalo entre desejar alguma coisa e efetivamente gastar.
Cartões salvos em aplicativos, Pix, notificações de promoção e compras concluídas com poucos cliques praticamente eliminam o tempo necessário para reconsiderar uma decisão.
Nas redes sociais, as ofertas aparecem misturadas a vídeos, transmissões ao vivo e publicações de influenciadores. O consumidor pode conhecer um produto e finalizar a compra no mesmo aplicativo, sem procurar outra loja ou preencher novamente os dados de pagamento.
Segundo Presley, a facilidade não representa um problema por si só. O risco está em tomar várias decisões rápidas sem avaliar como elas se somam no orçamento.
Uma estratégia é esperar algumas horas antes de concluir uma compra que não estava planejada. Remover os dados do cartão dos aplicativos também cria uma etapa adicional e pode ajudar a interromper o impulso.
Bets criam expectativa de recuperar o dinheiro
As apostas online acrescentam outro risco: a expectativa de retorno. Diferentemente de uma compra, na qual o consumidor sabe que o dinheiro foi gasto, a aposta pode ser interpretada como uma oportunidade de recuperar ou multiplicar o valor depositado.
Dados preliminares da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, fornecidos por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram que as plataformas autorizadas receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos durante 2025.
Desse total, R$ 183,7 bilhões retornaram aos usuários como prêmios e bônus sacáveis. Os R$ 36,9 bilhões restantes representaram o saldo negativo dos apostadores e se transformaram em receita bruta das empresas.
Ao longo do ano, aproximadamente 25 milhões de brasileiros registraram pelo menos uma aposta nas plataformas autorizadas pelo governo federal. A média mensal foi de 9,25 milhões de apostadores.
Os números ainda podem ser atualizados após a conclusão dos procedimentos de conferência e consolidação dos dados.
A aposta não pode ser tratada como investimento, estratégia para complementar renda ou recuperar dinheiro perdido. Quando alguém perde e aposta novamente tentando buscar aquele valor, o ciclo começa a drenar a renda da família.
A tentativa de recuperar uma perda pode provocar novos depósitos e comprometer recursos destinados à alimentação, moradia e outras necessidades.
No Espírito Santo, o vício em bets já provoca dívidas e sofrimento psicológico, segundo profissionais que acompanham pessoas afetadas pelas apostas.
Quando o salário já chega comprometido
Parcelamentos e apostas são situações diferentes, mas ajudam a revelar um mesmo problema: ter acesso ao dinheiro ou ao crédito não significa possuir renda disponível para gastar.
Um dos principais sinais de alerta aparece quando o salário chega com quase todo o destino definido. Antes mesmo das despesas daquele mês, o dinheiro já precisa pagar decisões tomadas anteriormente.
Faturas, empréstimos e parcelas reduzem a margem para alimentação, transporte, moradia e imprevistos. Quando surge uma despesa inesperada, o consumidor pode recorrer novamente ao cartão ou a um novo empréstimo.
Esse movimento cria um ciclo em que o crédito atual é usado para pagar gastos anteriores, enquanto novas despesas são transferidas para o futuro.
O crescimento simultâneo do crédito, do endividamento e dos pagamentos em atraso exige atenção à capacidade real de pagamento, como mostrou uma reportagem do Folha Vitória sobre os desafios do mercado de crédito.
Quais são os sinais de descontrole financeiro?
Estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Uma pessoa pode ter um financiamento ou compras parceladas e manter os pagamentos em dia.
O problema começa quando os compromissos deixam de caber na renda e as contas passam a atrasar.
Entre os sinais de alerta estão:
Não saber quantas parcelas ainda faltam;
Usar o cartão para pagar despesas básicas todos os meses;
Recorrer a um novo empréstimo para quitar outro;
Pagar apenas o valor mínimo da fatura;
Utilizar o cheque especial como parte do salário;
Apostar para tentar recuperar dinheiro perdido;
Adiar contas essenciais para manter compras ou apostas;
Não conseguir enfrentar um imprevisto sem recorrer ao crédito.
Também é importante observar se as compras são escondidas de familiares ou se o consumidor evita abrir a fatura por medo do valor. Esses comportamentos podem indicar que o orçamento já saiu do controle.
Como impedir que o dinheiro acabe antes do fim do mês?
O primeiro passo é reunir todos os compromissos financeiros em um único lugar. A lista precisa incluir despesas fixas, parcelas, empréstimos, assinaturas, compras recorrentes e valores destinados ao lazer.
Também é importante abrir as próximas faturas do cartão. Observar apenas a cobrança atual não mostra quanto da renda futura já foi utilizado.
Algumas medidas podem ajudar:
Some todas as parcelas que ainda serão cobradas;
Separe as despesas essenciais antes de definir quanto pode gastar;
Estabeleça um limite para compras não planejadas;
Desative notificações de promoções e remova cartões salvos;
Não utilize apostas como alternativa para completar a renda;
Procure renegociar a dívida antes de contratar um novo crédito;
Reserve, quando possível, uma parte da renda para imprevistos.
A pergunta principal deixa de ser apenas “quanto posso gastar hoje?” e passa a ser “quanto da minha renda dos próximos meses já está comprometido?”.
O objetivo não é abandonar completamente o cartão ou deixar de consumir. O crédito pode ser uma ferramenta útil quando existe planejamento e capacidade de pagamento.
O problema aparece quando os compromissos crescem mais rapidamente do que a renda e decisões aparentemente pequenas passam a consumir o salário antes do fim do mês.
Folha Vitoria