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A geração da ansiedade: por que nunca estivemos tão cansados?

Afastamentos por transtornos mentais mais que dobraram em dez anos no Brasil; especialistas apontam sobrecarga, pressão por produtividade e mudanças no estilo de vida

Por Redação em 14/09/2026 às 17:00:17
Quase 203 mil brasileiros foram afastados do trabalho em 2014 em razão de episódios depressivos, transtornos de ansiedade, reações a estresse grave e outras questões relacionadas à saúde mental. / Cré

Quase 203 mil brasileiros foram afastados do trabalho em 2014 em razão de episódios depressivos, transtornos de ansiedade, reações a estresse grave e outras questões relacionadas à saúde mental. / Cré

A sensação de que 24 horas já não são suficientes para dar conta de trabalho, casa, família, estudos e vida pessoal deixou de ser apenas uma reclamação cotidiana. Os números mostram que o impacto dessa rotina também aparece na saúde. Dados do Ministério da Previdência Social apontam que quase 203 mil brasileiros foram afastados do trabalho em 2014 em razão de episódios depressivos, transtornos de ansiedade, reações a estresse grave e outras questões relacionadas à saúde mental.

Dez anos depois, em 2024, o número mais que dobrou e ultrapassou 440 mil afastamentos por transtornos mentais. Foi o maior resultado da série histórica. Em 2025, foram registrados 546.254 afastamentos por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, crescimento de 15,66% em relação ao ano anterior.

No Espírito Santo, a tendência também aparece nas notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho. Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), foram registrados 129 casos em 2024. Em 2025, o número chegou a 170, alta de 31,7%. Até 30 de abril de 2026, já eram 54 notificações. Entre os diagnósticos mais recorrentes estão a ansiedade generalizada, com 59 registros, e a síndrome de burnout, com 41 casos.

A sobrecarga que afeta corpo e mente

Para Nayara Souza, de 37 anos, a rotina que reúne maternidade, casamento, trabalho, estudos e cuidados com a casa chegou a um ponto em que o corpo começou a cobrar a conta. Cabeleireira e dona de um salão, ela também cursa Biomedicina e é mãe de Vitor, de dois anos

A decisão de não colocar o filho na creche até os três anos fez com que ela reduzisse o ritmo de trabalho para ficar mais tempo com a criança. Ao mesmo tempo, passou a assumir outras demandas da casa. O resultado foi uma rotina em que, segundo ela, as 24 horas do dia pareciam insuficientes.

Chega no final do dia, eu estou acabada, bem exausta mesmo e, realmente, 24 horas para mim é pouco

Nayara Souza, cabeleireira.

A sobrecarga também se manifestou fisicamente. Nayara conta que passou a sentir falta de ar e chegou a ter uma sensação semelhante à dor de um infarto, acreditando que estava morrendo. Ela também percebeu um comportamento compulsivo relacionado às compras. Foi quando decidiu procurar ajuda médica.

“Quando eu vi que isso estava se tornando um exagero, aí eu procurei ajuda médica”, conta. Com acompanhamento profissional e medicação para ansiedade, ela começou a reorganizar a rotina e a própria percepção sobre as prioridades.

“Eu consigo centralizar meus pensamentos. Primeiro eu também tenho que cuidar de mim, da minha atividade física, estar bem comigo, corpo e mente, para depois cuidar das clientes, do meu filho, do meu marido e da minha casa”, afirma.

A rotina continua intensa. Hoje, o tempo reservado para cuidar de si começa ainda de madrugada. Nayara acorda às 4h30 para ir à academia e conta que essa mudança ajudou a reduzir o nervosismo. A dor que antes confundia com um possível infarto e a compulsividade por compras desapareceram. A multiplicidade de tarefas, no entanto, continua fazendo parte da vida.

Sinais de alerta e prevenção

Para a médica e professora do curso de Medicina da FAESA, Roberta Petrocchi, o aumento dos transtornos mentais precisa ser observado também a partir das mudanças no estilo de vida. A pandemia, segundo ela, funcionou como um agravante de um processo que já vinha acontecendo.

Isso era algo que vinha aumentando, mas a pandemia deu esse boom, porque foi um trauma, não deixa de ter sido um grande trauma social, e também veio com muitas mudanças no estilo de vida desde então

Roberta Petrocchi, professora do curso de medicina da Faesa.

Roberta destaca que o ambiente profissional é apenas uma parte desse cenário. Relações de trabalho, tipo de liderança, pressão, competição, deslocamento, trânsito e alimentação também podem influenciar a saúde mental.

Ela explica que o organismo possui uma resposta natural ao estresse, conhecida como resposta de luta ou fuga. Nesse processo, há liberação de substâncias como adrenalina e cortisol. O problema aparece quando essa resposta permanece ativada de maneira crônica.

“Quando a gente começa a ficar com ela elevada de forma cronificada, a gente começa a evoluir para alguns transtornos do guarda-chuva das síndromes ansiosas”, afirma. Nesse grupo estão transtornos como ansiedade generalizada, fobia social e burnout. A condição também pode se relacionar ao desenvolvimento de síndromes depressivas.

Os sinais de que o organismo não está bem nem sempre aparecem primeiro na mente. Segundo Roberta, a comunicação entre corpo e mente ocorre continuamente e pode se manifestar em diferentes sistemas. Problemas gastrointestinais, alterações de apetite, queda de cabelo, dermatites, tensões musculares, enxaquecas e pequenas contrações musculares estão entre os sinais que podem aparecer associados ao estresse.

“Antes da gente chegar até mesmo a um diagnóstico físico, tem alguns sinais. É muito comum o paciente chegar no consultório: ‘Ai, doutora, meu olho está tremendo, meu lábio está tremendo”, relata.

A médica também chama atenção para alterações metabólicas relacionadas ao estresse crônico e reforça a importância de procurar ajuda quando os sintomas começam a interferir na rotina.

Para ela, prevenção passa pelo autoconhecimento e por mudanças no estilo de vida. Sono de qualidade, alimentação balanceada, conexão social, controle do consumo de substâncias e das telas fazem parte desse cuidado. Psicoterapia e, quando necessária, terapia medicamentosa também integram o tratamento.

“Autoconhecimento é promoção de saúde”, resume. Roberta também destaca a importância de aprender a administrar o estresse. “Estresse não é vilão, mas o estresse exacerbado, ele sim vira um vilão”, complementa.

O impacto social na saúde mental

A professora do curso de Psicologia, Lorena Schettino, amplia a discussão para além das escolhas individuais. Para ela, a sensação permanente de insuficiência está relacionada a um contexto social que valoriza cada vez mais a produtividade.

Essa rotina muito acelerada, que a maioria dos brasileiros vive atualmente, faz parte de todo um contexto social que vai priorizar muito essa produtividade. Então essa ideia de que a gente tem que estar sempre produzindo mais, essa ideia de que a gente sempre tem que ter mais e fazer mais coisas diferentes.

Lorena Schettino, professora do curso de psicologia da Faesa.

Nesse cenário, as redes sociais podem potencializar a sensação de inadequação. A comparação ocorre com pessoas que parecem viajar mais, conquistar mais, ter mais bens ou viver experiências melhores, sem que se considere que aquilo publicado representa apenas uma parte da realidade.

“Então a gente acaba comparando os nossos bastidores com o palco das outras pessoas”, afirma Lorena.

Para a psicóloga, porém, as redes sociais não explicam sozinhas o crescimento dos problemas de saúde mental. O cenário envolve uma combinação de fatores, como sobrecarga de trabalho, condições precárias de sobrevivência e dificuldade de acesso aos serviços de saúde mental.

Os próprios dados da Sesa mostram que os casos notificados no Espírito Santo estão concentrados principalmente na população adulta em idade economicamente ativa. A faixa de 40 a 49 anos reúne o maior número de notificações, seguida pelo grupo de 30 a 39 anos.

Os registros também apresentam predominância do sexo feminino em todas as faixas etárias analisadas. Em relação ao vínculo de trabalho, a maior parte das notificações envolve trabalhadores formais, especialmente empregados regidos pela CLT e servidores públicos.

Lorena pondera ainda que parte do aumento pode estar relacionada ao fato de a sociedade falar mais sobre saúde mental do que no passado. “Não é que as pessoas de antigamente não sofriam. Elas sofriam, mas não tinha ainda um nome para aquilo que elas sofriam”, explica.

A partir desse cenário, estabelecer limites passa a ser uma ferramenta de cuidado. Em vez de seguir parâmetros externos de sucesso, a orientação é identificar o que de fato é prioridade e direcionar energia para objetivos que façam sentido para cada pessoa.

“Por mais que você consiga alcançar, parece que nunca vai ser o suficiente. Porque se aquilo não está alinhado com o que é realmente importante e relevante na sua vida, a gente entra ali num caminho que é muito complicado de você se manter saudável nessa busca”, afirma.

Para a professora, cuidar da saúde mental deve ocupar o mesmo espaço que outros cuidados básicos com o corpo. Alimentação adequada, sono, atividade física, uma rotina de trabalho viável e acesso aos profissionais de saúde fazem parte de um cuidado integrado. “Cuidar da mente hoje acabou não sendo mais um tabu. É saúde”, conclui.

Fonte: Folha Vitória

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