Hélio Schneider acredita que a tecnologia pode ajudar supermercados a lidarem com a carência de mão de obra. Crédito: Reprodução de TV
O bolso do consumidor está no centro das preocupações dos supermercados capixabas. Na avaliação de Hélio Schneider, superintendente da Associação Capixaba de Supermercados (Acaps), o setor enfrenta um cenário de consumo mais restrito, concorrência intensa e necessidade de controle rigoroso dos custos. Segundo ele, a margem de resultado das empresas fica, na média nacional, entre 1,5% e 2%, o que deixa pouco espaço para falhas na gestão.
Além disso, o setor ainda enfrenta os desafios do varejo de alimentos, o fechamento dos supermercados aos domingos e os possíveis impactos de uma redução da jornada de trabalho. Para Hélio Schneider, o avanço da inteligência artificial nas lojas e a dificuldade de encontrar profissionais qualificados podem ajudar a melhorar a operação. No entanto, o atendimento humano continua essencial na relação com o consumidor.
Esses temas fazem parte do ambiente de negócios da Acaps Trade Show 2026, que acontece de 15 a 17 de setembro, no Pavilhão de Carapina. Em sua 37ª edição, a feira reúne supermercadistas, fornecedores e prestadores de serviços, com exposição de produtos, equipamentos e soluções tecnológicas, além de atividades de capacitação.
Veja abaixo a entrevista com Hélio Schneider, superintendente da Acaps:
Qual é o papel dos supermercados na economia capixaba?
O varejo de alimentos tem um papel fundamental porque movimenta a economia, gera renda e emprego e oferece uma atividade essencial para o consumidor e para a sociedade. Os resultados refletem um trabalho muito sério.
O empresário supermercadista precisa ser apaixonado pelo negócio, porque é uma das atividades mais desafiadoras da economia.
Como as dificuldades da economia aparecem na operação?
O que mais sentimos é a situação do bolso do consumidor. Essa é uma preocupação muito grande. Um dos nossos maiores desafios é a eficiência operacional. O empresário precisa cumprir seus compromissos tributários, trabalhistas, com fornecedores, parceiros e com a sociedade. Ao mesmo tempo, precisa fazer toda essa gestão e chegar ao fim do ano com resultado positivo.
Poucos sabem, mas esse resultado fica, na média nacional, entre 1,5% e 2%. É uma margem muito próxima do negativo. A gestão precisa ser muito eficiente. Caso contrário, a empresa pode ser nocauteada.
Como inflação, juros e renda pressionada afetam o setor?
Esse é um dos grandes desafios do momento. Há empresas do nosso setor com problemas sérios e resultados negativos. Felizmente, não é uma situação que observamos aqui no Estado, mas ela existe. Trabalhamos para evitar que isso aconteça. A eficiência da operação é fundamental para enfrentar esse cenário.
Como avalia o consumo das famílias em 2026?
Nossa percepção é de que o consumo está em retração. Temos uma concorrência muito forte, inclusive no Espírito Santo, mas percebemos essa restrição no bolso do consumidor. Espero que isso não avance.
É preocupante porque, quando a ponta não gera negócios, o efeito alcança toda a cadeia, desde a produção até o transporte e o consumo.
Como é a experiência de fechar supermercados aos domingos?
O consumidor quer o serviço disponível 24 horas por dia. Se pudéssemos trabalhar dessa forma para atendê-lo, trabalharíamos. Porém existem entraves. No ano passado, por meio da Fecomércio e de seus sindicatos, chegamos a um acordo de caráter experimental. Até 31 de outubro, vamos decidir se continuamos fechados aos domingos ou se voltamos a abrir.
Essa avaliação exige muita responsabilidade. O que mais queremos é atender bem o consumidor, mas precisamos considerar as condições de operação.
Que impacto uma redução da jornada de trabalho pode ter sobre os preços?
Uma mudança de 44 para 40 horas, com uma escala de cinco dias de trabalho e dois de descanso, terá impacto nos custos e, consequentemente, na formação dos preços. A preocupação é saber se o consumidor terá capacidade econômica para pagar esse preço.
Quando falo em eficiência operacional, é porque fazemos de tudo para que cada produto chegue ao caixa pelo menor preço possível, de modo que o consumidor tenha condições de comprá-lo. Se ele não consegue consumir, toda a cadeia produtiva perde. Os governos federal, estadual e municipal também perdem arrecadação.
Como a tecnologia já transforma a operação dos supermercados?
A tecnologia muda muito rapidamente. O que temos hoje pode ser diferente amanhã, e acompanhamos isso com atenção.
A inteligência artificial já está dentro dos supermercados.
Essas ferramentas fazem parte da busca por eficiência. O empresário que não se atualiza perde espaço, principalmente diante da concorrência.
Com que velocidade essas novidades chegam ao varejo capixaba?
Chegam muito rápido. As empresas estão atentas o tempo todo. Uma novidade surge no exterior e, no dia seguinte, já temos informação sobre ela. A informação é globalizada. Porém o empresário também precisa ter estrutura para acompanhar esse movimento.
A tecnologia está disponível, porém existe dificuldade para encontrar mão de obra. Precisamos de educação profissional para que o país, o Estado e os municípios cresçam. Caso contrário, ficamos para trás.
Como a tecnologia pode ajudar a enfrentar a falta de profissionais?
Já temos caixas inteligentes e ferramentas de inteligência artificial que contribuem para superar essas dificuldades. No entanto, precisamos de pessoas, sobretudo de profissionais qualificados.
O problema não é apenas a falta de mão de obra, mas a falta de qualificação. Um dos pilares da eficiência operacional é a capacitação dentro das lojas.
A Acaps tem um papel importante nisso e oferece conhecimento, informação e acesso à tecnologia para empresários de todos os portes, sejam pequenos, médios ou grandes.
Qual será o espaço do atendimento humano com o avanço da automação?
O ser humano é insubstituível, inclusive pela relação direta com o consumidor. Temos tecnologia, robôs e diversas ferramentas, no entanto o relacionamento entre as pessoas tem um valor extraordinário. O consumidor tem uma experiência quando recebe atendimento de um robô e outra quando uma pessoa preparada o atende. Isso também tem valor para o negócio.
Qual é a importância econômica da Acaps Trade Show para o setor?
A Acaps tem a obrigação de criar oportunidades para o empresário, e isso não se limita ao supermercadista. Inclui fornecedores e prestadores de serviços. Praticamente todos os setores têm alguma ligação, direta ou indireta, com o nosso.
A feira apresenta produtos e serviços de áreas como refrigeração, elétrica, construção civil e tecnologia. São empresas que mostram suas soluções a um público interessado em fazer negócios. Outro foco fundamental é a capacitação. Durante os três dias, teremos profissionais de fora e do Espírito Santo que vão compartilhar conhecimento em palestras, workshops e mesas-redondas, tanto para empresários quanto para seus colaboradores.
São oportunidades para gerar negócios, renda, emprego e prosperidade.
Que tendências devem influenciar o varejo capixaba nos próximos anos?
A tecnologia é uma delas, mas também teremos novos produtos e equipamentos. A indústria apresenta novidades em climatização, automação e instalações elétricas, entre outras áreas. O empresário precisa observar essas tendências e, principalmente, entender o que o consumidor quer da sua empresa.
O consumidor quer melhor atendimento e conveniência. O consumidor quer supermercados abertos aos domingos, por exemplo. Precisamos estar preparados para essas demandas, embora existam limitações na legislação e na estrutura de operação que dificultam atender a tudo.
Fonte: Folha Vitoria