A Serra vai ocupar uma posição exclusiva na cadeia mundial de equipamentos para produção de petróleo em águas profundas. A francesa Vallourec anunciou a expansão de sua unidade capixaba para aplicar nos tubos usados para extrair petróleo um revestimento de tecnologia licenciada pela ExxonMobil, com início de operação previsto para o primeiro semestre de 2028. Segundo a companhia, será a única planta no mundo, fora dos Estados Unidos, com essa capacidade. Do mesmo modo, a linha já nasce com encomenda para a operação da petroleira na Guiana, embora o grupo ainda não tenha divulgado o investimento total na linha de produção capixaba.
O avanço merece atenção pelo tipo de atividade que chega ao Espírito Santo. A unidade vai incorporar os sistemas de resina Proxxima, da ExxonMobil, com tecnologia de isolamento submarino GDLX. Ou seja, para o Estado, significa acrescentar conhecimento e valor industrial a um produto destinado a projetos internacionais de alta exigência técnica.
“Esses novos contratos reforçam nossa posição estratégica como um fornecedor fundamental da ExxonMobil Guyana Limited”, afirmou Philippe Guillemot, CEO global da Vallourec, em visita à fábrica na Serra.
Diferencial está no calor
A explicação dos executivos ajuda a traduzir o anúncio. No fundo do mar, a baixa temperatura pode comprometer o escoamento do petróleo, sobretudo quando uma interrupção paralisa a operação. O novo revestimento retarda o resfriamento do conteúdo dos tubos e oferece mais tempo para restabelecer o fluxo antes que componentes se solidifiquem e provoquem obstruções. Para se ter ideia, o petróleo sai a temperaturas próximas a 50°C, enquanto a água do mar em grandes profundidades está a 3,5°C.
Além disso, sua aplicação na fábrica é mais rápida que a dos processos convencionais. Ou seja, o ganho aparece nas duas pontas: produtividade industrial e desempenho operacional.
A encomenda já contratada torna o projeto mais concreto. São cerca de 90 quilômetros de tubulações com a nova solução para atendimento à ExxonMobil na Guiana. “A nossa expectativa é de entrega no primeiro semestre de 2028”, afirmou Gustavo Pinheiro, gerente-geral da unidade da Serra.
Ter um cliente e uma entrega definidos reduz a incerteza comercial da expansão e cria uma referência para conquistar outros contratos. O desafio agora é cumprir as etapas de instalação, preparação da equipe e entrada em operação.
A escolha da Serra combina experiência acumulada e capacidade de avançar para processos mais sofisticados. A unidade começou com revestimentos anticorrosivos, incorporou soluções de isolamento térmico e agora prepara mais uma etapa dessa evolução. A aquisição da Thermotite do Brasil, em 2025, reforçou essa base industrial.
Na avaliação de André Lacerda, vice-presidente sênior da América do Sul para atividades de tubos, a nova tecnologia amplia as competências locais, bem como a relevância do Brasil na estratégia da companhia.
Experiência industrial mais posição geográfica
A geografia completa a explicação. A operação capixaba reúne acesso ao litoral, proximidade com estruturas portuárias e conexão com a produção de tubos da Vallourec em Minas Gerais. Essa combinação permite integrar fabricação, revestimento e embarque para clientes no exterior, além de atender projetos ao longo da costa brasileira.
“A ideia aqui é a gente transformar essa unidade num hub de fornecimento de tubos”, afirmou Paulo de Tarso Santos, gerente-geral de Vendas de Revestimento, ao explicar os planos para os mercados nacional e internacional.
Há uma consequência econômica que pode durar mais que a instalação dos equipamentos: a formação de profissionais. A Vallourec prevê enviar trabalhadores do Espírito Santo aos Estados Unidos para treinamento na tecnologia e preparar a equipe local para a nova operação.
Também pretende contratar serviços de manutenção e outros fornecedores capixabas. A empresa confirma a perspectiva de novos turnos e empregos, mas ainda calcula o total de vagas. O efeito sobre a economia local dependerá de quanto desse conhecimento e dessas compras permanecerá no Estado.
A Petrobras aparece como cliente potencial, com conversas em curso e necessidade de qualificação da solução. Projetos na chamada “margem equatorial” também fazem parte das perspectivas comerciais, mas não devem entrar na conta como encomendas garantidas. O contrato com a ExxonMobil já existe. Já a expansão da carteira ainda precisa acontecer.
O projeto mostra um caminho relevante para a indústria capixaba: combinar localização, experiência e formação técnica para assumir etapas mais sofisticadas das cadeias internacionais. Se a execução acompanhar o anúncio, a Serra poderá ampliar sua participação no fornecimento de soluções para a produção de petróleo dentro e fora do Brasil.
Folha Vitoria