*Texto de Fernanda Zandonadi
Neste 7 de Setembro, o conceito de independência pode ganhar um outro significado dentro de casa. Quando falamos em dinheiro, ele representa a possibilidade de fazer escolhas sem depender exclusivamente do próximo salário ou recorrer a dívidas diante de um imprevisto.
E guardar entre 10% e 20% da renda por mês pode ser um bom ponto de partida para quem deseja construir a independência financeira. O valor, no entanto, deve caber no orçamento e ser mantido com regularidade. Por exemplo, quem recebe R$ 3 mil reservaria de R$ 300 a R$ 600 por mês. Para uma renda de R$ 5 mil, a faixa ficaria entre R$ 500 e R$ 1 mil.
Mas, segundo Thaísa Durso, especialista em Finanças Pessoais da Rico, não existe uma quantia única que funcione para todas as pessoas. O cálculo depende da renda, das despesas e do padrão de vida que se deseja manter no futuro.
“Como referência, poupar entre 10% e 20% da renda costuma ser um bom ponto de partida, mas o fator mais importante é a consistência. Guardar um percentual menor de forma recorrente produz resultados melhores do que estabelecer uma meta muito ambiciosa e abandoná-la após alguns meses”, afirma.
A mesma opinião é compartilhada por Felipe Storch, economista-chefe do Ibef-ES.
“Não existe um percentual único, pois a capacidade de poupança depende da renda, das despesas familiares e da fase de vida. Guardar 10% da renda líquida pode ser uma boa referência inicial, enquanto uma taxa entre 15% e 20% permite avançar mais rapidamente. Entretanto, para quem ainda não consegue chegar a esses percentuais, o mais importante é começar com um valor possível e criar regularidade”, afirma.
Para Storch, uma pessoa pode iniciar guardando 2%, 5% ou mesmo um valor fixo pequeno e aumentar os aportes à medida que a renda crescer ou algumas despesas forem eliminadas. Programar o investimento para o dia do recebimento ajuda bastante, porque transforma o aporte em compromisso do orçamento, em vez de depender do que eventualmente sobrar no fim do mês.
Para Thaísa, a independência financeira resulta da combinação entre disciplina e, claro, uma boa rentabilidade. Além disso, quanto mais cedo os investimentos começam, maior pode ser o efeito dos juros compostos, mecanismo pelo qual os rendimentos acumulados também passam a gerar novos ganhos. É como fazer o próprio dinheiro trabalhar por si mesmo.
A poupança é um bom investimento?
A poupança continua entre as aplicações mais conhecidas pelos brasileiros. A popularidade está ligada à tradição, à facilidade de movimentação e à percepção de segurança. Para parte da população, os demais investimentos ainda parecem complexos ou distantes, segundo a especialista.
Com a Selic em 14% ao ano, após decisão do Comitê de Política Monetária em agosto, ela segue a regra de rendimento de 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR). Essa fórmula vale quando os juros básicos ficam acima de 8,5% ao ano, conforme o Banco Central.
A TR acrescenta, atualmente, cerca de 0,17% ao mês, o que leva o retorno da caderneta para aproximadamente 0,67% ao mês ou 8,3% ao ano. Mesmo sem cobrança de Imposto de Renda (IR) para pessoas físicas, essa forma de investimento aproveita apenas parte dos juros disponíveis na economia.
Uma simulação apresentada pela Rico mostra que R$ 10 mil aplicados durante um ano renderiam aproximadamente R$ 835 na poupança. Em um CDB que pague 100% do CDI, o ganho líquido ficaria próximo de R$ 1.146, já descontado o IR. A diferença supera R$ 300 no período. Vale lembrar que os valores são estimativas e podem variar conforme as taxas e as condições do investimento.
A segurança também não é exclusiva da poupança. A caderneta e os CDBs elegíveis podem ter cobertura do chamado Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O limite ordinário é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição ou grupo financeiro, observadas as demais regras do FGC.
“Ou seja, o dinheiro está protegido nos dois casos, mas não necessariamente trabalhando com a mesma eficiência. Por isso, o principal desafio não é apenas encontrar investimentos mais rentáveis, mas entender que segurança e diversificação podem caminhar juntas. Ainda assim, hábitos financeiros tendem a mudar mais lentamente do que as condições de mercado”, explica.
Um erro frequente, segundo Felipe Stoch, é trocar a poupança por produtos que a pessoa não compreende apenas porque prometem maior rentabilidade. “Retorno maior normalmente vem acompanhado de algum risco, prazo ou limitação de liquidez”, alerta.
Quando a poupança ainda faz sentido
A poupança não deve ser totalmente descartada, já que ainda pode atender a quem busca simplicidade absoluta ou está começando a organizar a vida financeira. No entanto, quando o objetivo é acumular patrimônio ou preservar o poder de compra ao longo dos anos, Thaísa recomenda comparar a caderneta com outras opções.
“O investidor deve considerar não apenas a segurança do produto, mas também sua eficiência em fazer o dinheiro trabalhar a seu favor”, explica.
Mas é preciso planejamento e definição sobre a finalidade do dinheiro antes de retirar os recursos da poupança ou escolher uma nova aplicação. O primeiro objetivo recomendado é a formação de uma reserva destinada a despesas inesperadas, como desemprego, problemas de saúde e reparos urgentes da casa ou do carro.
Como esses recursos podem ser necessários a qualquer momento, eles devem permanecer em aplicações de baixo risco e com liquidez diária, ou seja, precisou do dinheiro, ele está disponível. O investidor também precisa verificar o prazo de resgate, os custos, a tributação e as condições oferecidas por cada instituição.
Entre as alternativas para o perfil conservador estão o Tesouro Selic, os CDBs com liquidez diária e os fundos de renda fixa compatíveis com os objetivos do investidor. O Tesouro Direto apresenta o Tesouro Selic como uma opção voltada à reserva de emergência. Fundos, por sua vez, podem ter taxas de administração e não contam com a cobertura do FGC.
Vale lembrar que a maior rentabilidade anunciada não deve ser o único critério. Uma aplicação com prazo longo ou sem possibilidade de retirada imediata pode não servir para o dinheiro reservado aos imprevistos.
“O investimento ideal não é necessariamente o que oferece a maior rentabilidade, mas aquele que está alinhado ao perfil do investidor e aos seus objetivos financeiros”, ressalta Durso.
Felipe Stoch explica que o primeiro passo é calcular quanto a pessoa precisa para manter suas despesas essenciais por alguns meses, considerando moradia, alimentação, saúde, transporte e pagamento de dívidas.
“Para trabalhadores com renda estável, uma referência razoável é acumular entre três e seis meses dessas despesas. Para autônomos, empresários ou pessoas com renda variável, é mais prudente buscar uma reserva equivalente a seis a doze meses”, orienta.
E qual a melhor opção de investimento para a reserva de emergência?
“Esse dinheiro deve ficar em aplicações de baixo risco, liquidez diária e fácil resgate. Entre as alternativas estão CDBs com liquidez diária e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, fundos simples de renda fixa com taxas baixas e o Tesouro Selic. O Tesouro Direto classifica o Tesouro Selic como adequado à reserva de emergência, embora o resgate antecipado seja feito pelo preço de mercado e dependa das regras e dos horários de liquidação. Por isso, pode ser interessante manter uma pequena parcela com disponibilidade imediata na própria instituição financeira e o restante em uma aplicação líquida”, destaca Storch.
Cinco passos para começar
Para transformar o mês da Independência em um ponto de partida, Thaísa Durso recomenda fazer um diagnóstico das receitas, despesas e dívidas, organizar um orçamento que possa ser cumprido e eliminar ou renegociar débitos com juros elevados. Com tudo organizado, é hora de formar a reserva de emergência e estabelecer um valor mensal para investir.
O processo não exige uma grande quantia inicial. Quem ainda não consegue guardar 10% da renda pode começar com um percentual menor e aumentá-lo à medida que reorganiza o orçamento. O principal erro, diz a especialista, é esperar sobrar dinheiro para investir ou definir uma meta incompatível com a realidade.
“O conceito de independência financeira tem muito mais relação com liberdade de escolha do que com riqueza. Pequenas decisões tomadas hoje podem produzir diferenças relevantes ao longo de décadas”, afirma.
Folha Vitoria