Nos últimos meses, uma pergunta tem aparecido cada vez mais nos meus consultórios: “Doutor, agora a cirurgia é feita por robô?”
A resposta é simples: não. Pelo menos não da maneira como muita gente imagina.
A ortopedia está passando por uma transformação tecnológica importante. Inteligência artificial, robótica, planejamento em 3D, navegação computadorizada e novas técnicas minimamente invasivas já fazem parte da realidade de importantes centros médicos. A própria Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia vem incorporando essas tecnologias à formação e à atualização dos especialistas.
Mais do que mudar os equipamentos utilizados durante uma cirurgia, essas ferramentas estão transformando a maneira como os procedimentos são planejados e executados.
A cirurgia ortopédica está entrando em uma nova era
Na minha opinião, a grande revolução não está em substituir o médico por uma máquina. Está em oferecer ao profissional ferramentas cada vez mais precisas para analisar cada caso, planejar o procedimento e tomar decisões mais seguras.
A tecnologia permite reunir uma quantidade maior de informações sobre a anatomia e as condições de cada paciente. Com isso, o planejamento cirúrgico pode ser mais individualizado e preciso.
É uma mudança importante, mas que precisa ser compreendida da maneira correta: a tecnologia é uma ferramenta dentro do tratamento, e não o tratamento em si.
Na cirurgia de joelho, por exemplo, sistemas robóticos podem utilizar exames de imagem para criar um planejamento tridimensional da articulação. Durante o procedimento, a tecnologia auxilia o cirurgião no posicionamento dos implantes e no alinhamento da articulação.
Esse tipo de recurso pode contribuir para aumentar a precisão de determinadas etapas da cirurgia. No entanto, quem interpreta as informações, define a estratégia e conduz o procedimento continua sendo o cirurgião.
A tecnologia oferece dados e recursos. A decisão médica considera também características que não aparecem simplesmente em uma imagem.
Tecnologia também avança na cirurgia da coluna
Na cirurgia da coluna, os avanços também são significativos. Tecnologias de inteligência artificial, robótica, navegação e novos implantes estão ampliando as possibilidades de tratamentos personalizados.
Em situações selecionadas, já existem alternativas desenvolvidas para preservar o movimento da coluna, além de técnicas que permitem realizar determinados procedimentos de maneira menos invasiva.
Mas a indicação continua dependendo de uma avaliação individual. O fato de uma tecnologia estar disponível não significa que ela seja necessária para todos os pacientes.
O robô não substitui o cirurgião
Existe um aspecto fundamental que muitas vezes se perde quando falamos sobre tecnologia: o robô não conversa com o paciente.
Ele não sente a dor daquela pessoa. Não conhece sua rotina, seus medos, suas expectativas ou suas limitações. Também não decide sozinho se uma cirurgia realmente é necessária.
É justamente aí que continua estando o papel essencial do ortopedista.
Eu costumo dizer que um excelente equipamento nas mãos de um profissional despreparado não transforma uma cirurgia em excelente. A tecnologia pode aumentar a precisão de determinados procedimentos, mas não substitui conhecimento, experiência, indicação correta e responsabilidade médica.
Nem todo paciente precisa de robótica
Outro ponto importante é não transformar toda novidade tecnológica em sinônimo de tratamento melhor.
Nem todo paciente precisa de cirurgia robótica. Nem toda hérnia de disco precisa de cirurgia. Nem toda dor no joelho precisa de uma prótese.
O verdadeiro avanço da medicina, para mim, está em saber quando utilizar determinada tecnologia — e, principalmente, quando não utilizá-la.
Uma ferramenta só faz sentido quando realmente acrescenta benefícios ao tratamento daquele paciente. A escolha deve partir da indicação médica e das características de cada caso, e não simplesmente da disponibilidade de uma tecnologia mais moderna.
A decisão continua sendo médica
Estamos entrando em uma fase em que o paciente terá acesso a tratamentos cada vez mais personalizados. Exames poderão ser analisados com auxílio de inteligência artificial, cirurgias poderão ser planejadas em ambientes virtuais, implantes poderão ser escolhidos com maior precisão e técnicas minimamente invasivas continuarão evoluindo.
Tudo isso representa um avanço importante. Mas nenhuma dessas tecnologias elimina a necessidade de uma avaliação médica cuidadosa.
Antes de indicar um procedimento, é preciso entender a origem do problema, avaliar os sintomas, conhecer as condições clínicas do paciente e considerar as alternativas de tratamento.
O futuro da ortopedia é a parceria entre médico e tecnologia
Como ortopedista, vejo esse momento com muito entusiasmo. A tecnologia não diminui o valor do médico. Pelo contrário: ela aumenta nossa responsabilidade.
Quanto mais ferramentas temos à disposição, maior precisa ser nossa capacidade de utilizá-las de maneira criteriosa, ética e individualizada.
O futuro da ortopedia não será homem contra máquina.
Será médico e tecnologia trabalhando juntos para que o paciente tenha menos dor, mais segurança e melhor qualidade de vida.
E, sinceramente, acredito que esse seja um futuro que vale a pena esperar — porque, em muitos aspectos, ele já chegou.
Folha Vitória