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Economia

Cuidar de si não é luxo: é a base que sustenta tudo

Existe uma culpa antiga associada ao descanso. Em uma cultura que confunde valor com exaustão, parar para cuidar da própria saúde soa como fraqueza ou vaidade. Quem desacelera teme parece


Existe uma culpa antiga associada ao descanso. Em uma cultura que confunde valor com exaustão, parar para cuidar da própria saúde soa como fraqueza ou vaidade. Quem desacelera teme parecer menos comprometido. O resultado é uma multidão de profissionais que tratam o próprio esgotamento como troféu. Ocorre que essa lógica cobra um preço, e ele já aparece nos números.

O Brasil ocupa a segunda posição mundial em casos de esgotamento profissional, segundo a International Stress Management Association. Os afastamentos por burnout reconhecidos pelo INSS cresceram 493% entre 2021 e 2024, conforme o Ministério da Previdência Social, saltando de 823 para 4.880 registros. Apenas no primeiro semestre, já foram 3.494 novos casos. Por trás de cada estatística há um profissional que adiou o cuidado consigo até o corpo impor a conta que a agenda ignorava.

O custo não para no indivíduo. A Organização Mundial da Saúde estima que transtornos mentais ligados ao trabalho retiram cerca de 12 bilhões de dias úteis por ano da economia global, perda avaliada em torno de um trilhão de dólares. Empresas perdem talento, produtividade e memória institucional. O profissional esgotado não rende mais, rende pior, comete erros e contamina a equipe. Aquilo que parecia dedicação extrema revela-se desperdício de capital humano. Descanso, sob essa ótica, não é o oposto do trabalho. É a manutenção que o torna sustentável.

Ayn Rand, em A Virtude do Egoísmo, sustentou que cuidar da própria vida é um dever moral, não uma concessão. Para a autora, o indivíduo que se preserva não rouba nada de ninguém. Ao contrário, só quem está inteiro tem o que oferecer. A ideia desmonta a falsa virtude do sacrifício ilimitado. Negligenciar a si mesmo em nome dos outros não é generosidade, e sim uma forma silenciosa de autodestruição que termina por prejudicar todos ao redor.

Convém, então, devolver ao autocuidado o lugar que a pressa lhe roubou. Respeitar os próprios limites é exercício de responsabilidade, porque ninguém constrói nada duradouro sobre uma estrutura prestes a ruir. Cuidar de si não rivaliza com a ambição, antes a sustenta. Ao final, a gratidão pela própria existência se expressa em uma atitude ao mesmo tempo simples e essencial: preservar a própria integridade antes de ampliar continuamente aquilo que se entrega ao mundo.

Folha Vitoria

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