*Artigo escrito por Daniele Matos, fundadora e CEO da RHLovers
A inteligência artificial já está ajudando empresas a ganhar velocidade, reduzir tarefas operacionais e produzir mais. E é natural que parte desse ganho se transforme em novas metas, projetos e oportunidades de crescimento.
O ponto não é questionar isso. A pergunta é se estamos usando a eficiência apenas para aumentar o volume ou também para melhorar a forma como pensamos, decidimos e trabalhamos juntos.
Se a tecnologia pode liberar as pessoas para um trabalho mais estratégico, por que tantas equipes ainda encontram tão pouco espaço para conversar, pensar juntas e construir confiança?
Competências como escuta, empatia, influência, negociação e gestão de conflitos não se constroem apenas em treinamentos. Elas se desenvolvem nas conversas do dia a dia.
Uma conversa individual feita às pressas, um feedback delicado reduzido a uma mensagem ou uma decisão difícil comunicada sem contexto podem até parecer mais eficientes no curto prazo. Mas, com o tempo, enfraquecem a confiança.
Existe uma incoerência quando a empresa afirma que as pessoas estão no centro, mas organiza o trabalho de um jeito que quase não deixa espaço para relações de qualidade.
Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% dos conjuntos de habilidades utilizados hoje pelos trabalhadores devem mudar ou se tornar desatualizados até 2030.
O mesmo relatório mantém liderança e influência social entre as competências mais valorizadas e coloca empatia e escuta ativa entre as dez habilidades centrais. Isso mostra que tecnologia e capacidade humana não estão em lados opostos.
À medida que parte do trabalho técnico muda ou é automatizada, saber analisar, conversar, influenciar e tomar boas decisões ganha ainda mais peso.
Por isso, a pergunta que eu faria às lideranças não é apenas quanto tempo a IA economizou, mas o que conseguimos fazer melhor a partir desse ganho.
Se uma ferramenta reduz em duas horas a elaboração de um relatório, é natural que esse tempo seja usado em novas entregas.
Mas ele também pode ajudar o profissional a analisar melhor o negócio, conversar com o cliente, revisar uma decisão ou desenvolver alguém da equipe.
A transformação acontece quando a tecnologia não só aumenta o volume, mas melhora a qualidade do que entregamos.
Para o RH, o desafio não é apenas oferecer treinamentos sobre ferramentas de inteligência artificial ou ensinar uma sequência de comandos. É desenvolver pensamento crítico para que as pessoas entendam o que a tecnologia faz, onde ela ajuda, onde pode errar e como usá-la para melhorar o próprio trabalho.
Também é preciso olhar para a forma como o trabalho está organizado, para as metas, para os rituais de gestão e para o espaço que os líderes realmente têm para liderar.
Se um gestor nunca encontra tempo para conversar, dar feedback, desenvolver pessoas ou conduzir conflitos, talvez o problema não esteja apenas na habilidade dele. Pode estar também no modelo de trabalho que a própria organização criou.
Essa necessidade de combinar eficiência, consciência e qualidade das relações ganhou ainda mais força para mim durante as gravações de “O Despertar do Líder”.
Ao longo de uma jornada de 105 quilômetros, percebi que, quando o cansaço aumenta e o controle diminui, não é a velocidade individual que sustenta o grupo. É a capacidade de perceber o outro, pedir ajuda, ajustar o passo e entender que ninguém atravessa uma jornada assim sozinho.
No trabalho, muitas vezes esquecemos disso: equipes não são apenas um conjunto de entregas. São relações de confiança das quais o resultado também depende.
Não precisamos escolher entre produtividade e conexão. A tecnologia pode ajudar as empresas a entregar mais e, ao mesmo tempo, melhorar a forma como o trabalho acontece.
As organizações mais preparadas para o próximo ciclo serão aquelas que usarem a inteligência artificial para reduzir tarefas de baixo valor, abrir espaço para novas entregas e melhorar decisões, conversas e relações.
No fim, produtividade não é apenas fazer mais em menos tempo. É gerar mais valor sem enfraquecer as pessoas e as relações que tornam esse resultado possível.
Folha Vitória