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Tratar deformidades faciais na infância pode melhorar a respiração e o sono; entenda

Entenda como o tratamento na infância pode favorecer a respiração, melhorar o sono e reduzir fatores anatômicos ligados à apneia

Por Redação em 02/08/2026 às 09:01:05
Foto: Freepik

Foto: Freepik

Quando pensamos em Ortodontia, normalmente lembramos de dentes alinhados e de um sorriso bonito. No entanto, as pesquisas científicas dos últimos anos mostram que a atuação do ortodontista vai muito além da estética.

O desenvolvimento adequado dos ossos da face durante a infância pode influenciar diretamente a respiração, a qualidade do sono e até reduzir fatores anatômicos associados à apneia obstrutiva do sono na vida adulta.

Os distúrbios respiratórios do sono, especialmente a apneia obstrutiva do sono, são caracterizados por episódios repetidos de obstrução da passagem do ar durante o sono. Em adultos, a doença está relacionada ao aumento do risco de hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, diabetes, acidentes de trânsito e redução da qualidade de vida.

Nas crianças, as manifestações costumam ser diferentes:

Dificuldade de concentração;

Durante muitos anos acreditou-se que esses problemas eram provocados apenas pelo aumento das amígdalas ou pelo excesso de peso. Hoje, entretanto, já existe um consenso de que o formato da face e o desenvolvimento dos ossos da maxila e da mandíbula também exercem papel importante na respiração durante o sono.

Crianças com palato estreito, mordida cruzada, maxila pouco desenvolvida ou mandíbula posicionada mais para trás podem apresentar uma via aérea superior naturalmente mais estreita, aumentando a predisposição ao colapso dessa região durante o sono.

Por que a infância é a melhor fase para intervir?

É justamente nesse ponto que a Ortodontia preventiva e interceptativa ganha importância. A infância representa uma fase única do desenvolvimento, em que os ossos ainda estão em crescimento e respondem muito melhor aos estímulos ortopédicos. Aproveitar essa janela de oportunidade permite corrigir alterações esqueléticas de forma menos invasiva e com resultados que dificilmente seriam alcançados após o término do crescimento facial.

Um aspecto importante é que essa oportunidade tem prazo para acontecer. Após o término do crescimento facial, a capacidade de modificar a posição dos ossos por meio de aparelhos ortopédicos praticamente desaparece. Assim, discrepâncias esqueléticas moderadas ou graves que poderiam ter sido tratadas durante a infância muitas vezes passam a exigir, na vida adulta, um tratamento combinado entre Ortodontia e cirurgia ortognática para reposicionar a maxila, a mandíbula ou ambas.

Embora a cirurgia ortognática seja um procedimento seguro e altamente previsível quando bem indicada, ela é muito mais complexa e invasiva do que os tratamentos realizados durante a fase de crescimento. Isso reforça a importância do diagnóstico precoce, permitindo que muitas crianças sejam tratadas de forma mais simples, aproveitando o potencial natural de crescimento e reduzindo a necessidade de intervenções cirúrgicas no futuro.

Tratamentos que favorecem a respiração

Entre os tratamentos mais estudados está a expansão rápida da maxila. Quando o céu da boca é muito estreito, o ortodontista pode utilizar aparelhos expansores capazes de aumentar a largura da maxila. Além de corrigir mordidas cruzadas, esse procedimento amplia a cavidade nasal, reduz a resistência à passagem do ar e favorece a respiração pelo nariz.

Revisões sistemáticas e metanálises demonstram que, em crianças selecionadas, essa intervenção pode melhorar significativamente os índices respiratórios durante o sono e aumentar o volume das vias aéreas superiores.

Outro exemplo são os aparelhos ortopédicos utilizados para estimular a posição mais anterior da mandíbula em crianças com retrognatia, condição em que a mandíbula está posicionada mais para trás. Diversos estudos mostram que esse tratamento pode aumentar o espaço disponível para a língua e ampliar o calibre da via aérea faríngea. Embora isso não signifique que a criança estará protegida contra a apneia no futuro, contribui para reduzir um dos importantes fatores anatômicos relacionados à doença.

A importância da abordagem multidisciplinar

Também merece atenção a respiração predominantemente pela boca. Seja causada por alergias, aumento das adenoides, hipertrofia das amígdalas ou obstruções nasais, ela pode modificar o padrão de crescimento facial ao longo dos anos. O resultado costuma ser uma face mais alongada, palato estreito, mordidas alteradas e redução do espaço disponível para a língua. Por isso, o tratamento raramente depende apenas do ortodontista.

A participação do otorrinolaringologista, do pediatra, do fonoaudiólogo e, em alguns casos, do especialista em medicina do sono é fundamental para restabelecer uma respiração nasal adequada e favorecer um desenvolvimento facial saudável.

Ortodontia é muito mais do que estética

É importante destacar que nenhum aparelho ortodôntico é capaz de impedir, sozinho, que uma pessoa desenvolva apneia obstrutiva do sono na vida adulta. A doença possui origem multifatorial e também sofre influência da genética, da obesidade, do envelhecimento e dos hábitos de vida.

Entretanto, as evidências científicas atuais mostram de forma consistente que corrigir precocemente determinadas discrepâncias esqueléticas pode favorecer o desenvolvimento das vias aéreas superiores, melhorar a função respiratória durante a infância e reduzir fatores anatômicos que aumentam o risco de apneia ao longo da vida.

Essa mudança de visão transformou a Ortodontia moderna. Hoje, o objetivo não é apenas alinhar dentes, mas promover crescimento facial equilibrado, mastigação adequada, respiração nasal eficiente e um sono de melhor qualidade.

Afinal, investir na saúde da face durante a infância significa oferecer benefícios que acompanham o indivíduo por toda a vida. Em muitos casos, um diagnóstico precoce pode representar não apenas um sorriso mais bonito, mas também uma infância mais saudável e um adulto com melhor qualidade de vida.

Fonte: Folha Vitória

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