Trocar o refrigerante por água com gás virou uma estratégia comum entre pessoas que desejam reduzir o açúcar sem abandonar a sensação das bolhas. A substituição parece simples, mas também provoca dúvidas: a bebida engorda, ajuda a emagrecer ou pode ocupar o lugar da água comum?
Quando não contém açúcar, xaropes ou outros ingredientes calóricos, a água com gás não engorda e hidrata de maneira semelhante à versão sem gás. Isso não significa, porém, que provoque emagrecimento ou seja bem tolerada por todas as pessoas.
ÁGUA COM GÁS EMAGRECE OU ENGORDA?
A água com gás pura não possui calorias. Por isso, seu consumo não provoca aumento de peso diretamente.
A bebida também não tem uma propriedade capaz de fazer o organismo eliminar gordura. A perda de peso ocorre quando existe um déficit calórico, ou seja, quando a pessoa consome menos energia do que gasta ao longo do tempo.
O possível benefício aparece na substituição. Quem troca refrigerantes, sucos adoçados ou outras bebidas calóricas por água com gás reduz a ingestão de açúcar e calorias. Nesse contexto, a mudança pode colaborar com o emagrecimento, mas o efeito vem do que deixou de ser consumido.
A médica nutróloga Isolda Prado, docente e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), afirma que, de maneira geral, o consumo diário não faz mal à maioria das pessoas. Segundo ela, a água gaseificada hidrata da mesma forma que a água sem gás quando não contém açúcar ou sódio adicionado.
É importante conferir o rótulo. Água tônica, refrigerante transparente e bebidas gaseificadas saborizadas não são equivalentes à água com gás pura e podem apresentar açúcar, adoçantes, conservantes e calorias.
BOLHAS PODEM DAR SENSAÇÃO DE ESTÔMAGO CHEIO
O gás carbônico presente na bebida pode provocar uma distensão temporária do estômago. É daí que surge a sensação de estar mais cheio depois de beber um copo.
Esse efeito pode diminuir momentaneamente a vontade de comer em algumas pessoas. Entretanto, não há evidência suficiente para recomendar a água com gás como tratamento para controlar a fome ou emagrecer.
A resposta também não é igual para todos. Enquanto algumas pessoas sentem saciedade, outras apresentam apenas estufamento, arrotos ou desconforto abdominal.
Pesquisas já investigaram uma possível relação entre bebidas gaseificadas e a grelina, hormônio envolvido na regulação da fome. Os resultados disponíveis ainda não permitem afirmar que a água com gás aumente o apetite ou leve ao ganho de peso em humanos.
Por isso, não é correto anunciar a bebida como uma maneira de “enganar a fome”. A percepção de saciedade é passageira e não substitui uma alimentação adequada.
ÁGUA COM GÁS HIDRATA COMO A ÁGUA NORMAL?
Do ponto de vista da hidratação, a presença do dióxido de carbono não impede que a água seja absorvida pelo organismo. A versão gaseificada pode, portanto, contribuir para a ingestão diária de líquidos.
Para quem considera a água comum pouco atrativa, as bolhas podem facilitar o consumo. Ela também pode funcionar como transição para abandonar o refrigerante.
Ainda assim, a troca total não precisa ser incentivada como uma regra. A água sem gás continua sendo a alternativa mais simples, barata e geralmente mais confortável para beber em grandes quantidades.
A melhor escolha depende da tolerância de cada pessoa. Se a versão gaseificada facilita a hidratação e não provoca sintomas, ela pode fazer parte da rotina. Caso cause desconforto, o consumo pode ser reduzido ou alternado com água comum.
QUEM TEM REFLUXO PRECISA TER MAIS CUIDADO
As bolhas podem aumentar a sensação de estômago cheio, favorecer arrotos e provocar inchaço. Esses efeitos são passageiros para a maioria das pessoas, mas podem ser incômodos em quem apresenta sensibilidade digestiva.
O cuidado deve ser maior em casos de:
distensão abdominal frequente;
síndrome do intestino irritável;
dificuldade para tolerar bebidas gaseificadas.
A água com gás não causa automaticamente gastrite ou refluxo em todas as pessoas. No entanto, pode intensificar sintomas já existentes. A avaliação deve considerar a quantidade consumida e a reação individual.
Quem percebe azia, dor, estufamento persistente ou piora do refluxo depois de beber deve reduzir a quantidade e procurar orientação profissional se os sintomas continuarem.
BEBIDA PREJUDICA OS DENTES?
Quando o dióxido de carbono se dissolve na água, forma-se ácido carbônico. Isso faz a bebida ficar ligeiramente mais ácida do que a água sem gás.
Apesar dessa diferença, a água com gás pura apresenta potencial de erosão muito menor do que refrigerantes, energéticos e sucos ácidos. O consumo habitual, sem ficar segurando ou bochechando a bebida, tende a representar baixo risco para pessoas sem problemas dentários específicos.
A atenção deve aumentar com as versões saborizadas. Produtos com açúcar, ácido cítrico, concentrados de frutas ou outros componentes ácidos podem afetar mais o esmalte.
Para diminuir a exposição dos dentes, alguns cuidados são úteis:
evitar bochechar a bebida;
não permanecer tomando pequenos goles durante muitas horas;
preferir versões sem açúcar e sem aromatizantes ácidos;
aguardar cerca de 30 minutos antes de escovar os dentes.
Pessoas com boca seca, erosão dentária, sensibilidade ou tratamento de clareamento devem conversar com um dentista sobre a frequência de consumo.
ÁGUA COM GÁS AUMENTA A PRESSÃO?
O gás carbônico não provoca hipertensão crônica. A Sociedade Brasileira de Hipertensão esclarece que não existem evidências consistentes de que a bebida cause elevação significativa e permanente da pressão arterial na maioria das pessoas.
Estudos identificaram uma alteração pequena e passageira logo após a ingestão de água, com ou sem gás. Esse efeito estaria relacionado ao reflexo da deglutição e dura poucos minutos, sem representar o desenvolvimento de hipertensão.
O ponto que merece atenção é o teor de sódio. A quantidade varia conforme a fonte e o processo de fabricação. Muitas marcas apresentam valores baixos, mas algumas águas minerais e bebidas classificadas como soda podem conter concentrações maiores.
Pessoas com hipertensão, insuficiência cardíaca ou doença renal devem comparar os rótulos e seguir as orientações do médico responsável pelo tratamento. Também precisam diferenciar a água gaseificada pura de produtos que recebem sais e outros ingredientes.
ÁGUA COM GÁS PODE SER BEBIDA TODOS OS DIAS?
Para a maioria dos adultos saudáveis, a água com gás pura pode fazer parte da hidratação diária. Não existe uma quantidade universal estabelecida especificamente para a bebida.
O limite prático costuma ser determinado pela tolerância. Se grandes volumes provocam estufamento, arrotos ou refluxo, alternar com água sem gás pode tornar a hidratação mais confortável.
Também é necessário observar o produto escolhido. No rótulo, a lista de ingredientes deve ser curta. Açúcar, xaropes, sucos concentrados e aditivos transformam a composição e podem acrescentar calorias.
Adicionar rodelas de limão deixa a bebida mais saborosa, mas aumenta a exposição dos dentes à acidez. O uso ocasional é diferente de passar o dia inteiro tomando a mistura em pequenos goles.
Água tônica exige ainda mais atenção. Apesar da aparência semelhante, ela normalmente contém quinino e pode receber açúcar ou adoçantes. Portanto, não deve ser considerada apenas “água com bolhas”.
A água gaseificada pura não emagrece nem engorda. Seu maior benefício aparece quando torna a hidratação mais agradável ou ocupa o lugar de uma bebida açucarada. Para quem sente refluxo, gases ou desconforto, a água comum provavelmente continuará sendo a escolha mais adequada.
Fonte: Folha Vitória