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Um tabuleiro de alianças e rupturas

Hartung, Casagrande, Ferraço, Pazolini, Malta e Salomão: as idas e vindas de cada um O post Um tabuleiro de alianças e rupturas apareceu primeiro em Século Diário.


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Hartung, Casagrande, Ferraço, Pazolini, Malta e Salomão: as idas e vindas de cada um

A política capixaba vive um momento decisivo. Desde 2003, o poder estadual tem sido disputado principalmente entre Paulo Hartung (PSD) e Renato Casagrande (PSB), em ciclos de alternância que marcaram a história recente do Espírito Santo. Agora, em 2026, dois novos protagonistas — Ricardo Ferraço (MDB) e Lorenzo Pazolini (Republicanos) — ampliam a complexidade do cenário. Um quinto ator, Magno Malta, senador e líder histórico do PL, surge como articulador da extrema direita. E um sexto nome, Helder Salomão, deputado federal pelo PT, reforça o campo progressista e pode ser peça-chave em alianças contra a direita radicalizada. Todos já tiveram aproximações e afastamentos entre si. Alguns mais, outros menos, mas em algum momento se abraçaram e se distanciaram.

Paulo Hartung governou o Espírito Santo em três mandatos (2003–2010 e 2015–2018). Seu estilo foi marcado pela austeridade fiscal. Em 2015, ao reassumir o governo, acusou Casagrande de ter deixado o Estado “quebrado” e implementou cortes severos. Dados oficiais mostram que os investimentos em infraestrutura foram de apenas R$ 812 milhões em quatro anos, um valor considerado baixo para as necessidades do Estado. Hartung ganhou reconhecimento nacional como gestor rigoroso, mas localmente foi criticado por “paralisar” obras e serviços. O episódio mais emblemático de sua última gestão foi a greve da Polícia Militar em 2017, que mergulhou o Espírito Santo em caos, com saques, violência e mais de 200 mortes registradas. A condução rígida da crise corroeu a popularidade dele e abriu espaço para o retorno de Casagrande.

Renato Casagrande, eleito em 2010 com apoio de Hartung, rompeu com o ex-aliado e se tornou seu principal adversário. No primeiro mandato (2011–2014), buscou ampliar investimentos, mas foi derrotado em 2014 pelo retorno de Hartung. Voltou em 2019 e foi reeleito em 2022. Tem um estilo mais conciliador, com foco em obras e políticas sociais. Até 2025, a gestão dele investiu R$ 12,3 bilhões em infraestrutura, quinze vezes mais que Hartung no último mandato. Tempos e momentos diferentes. Mas Casagrande enfrentou a maior crise sanitária da história: a pandemia da Covid-19. O Espírito Santo registrou mais de 18 mil mortes, e o Governo precisou ampliar leitos, comprar respiradores e coordenar campanhas de vacinação. Apesar das críticas por medidas restritivas, o Estado foi considerado referência nacional em transparência de dados. E teve que enfrentar um Governo federal, comandado por Jair Bolsonaro, que pouco ou quase nada fez para enfrentar a pandemia. Ao contrário, incitou a população para medidas contrárias ao que indicavam médicos e cientistas autorizados.

Ricardo Ferraço foi vice-governador de Hartung (2007–2010), mas rompeu com o ex-aliado ao criticar sua gestão de 2015–2018, acusando-o de “paralisar o Estado”. Desde então, aproximou-se de Casagrande e consolidou-se como adversário direto de Hartung. Antes, porém, quando ainda era vice de Hartung, tinha certeza de ser o indicado para o Governo, em 2010. Mas foi preterido por PH na reta final, em desfavor de Casagrande, que era senador, numa articulação que acabou por levá-lo a disputar e ganhar uma das vagas ao Senado. Magno Malta ficou com a outra. A manobra de PH nunca foi digerida por Ferraço. Já Casagrande teve uma vitória acachapante para o Governo, conquistando mais de 82% dos votos.

Hoje, Ferraço aparece como um dos nomes mais competitivos nas pesquisas de 2026. Tem a estratégia de se apresentar como alternativa de centro, capaz de unir forças contra a radicalização política. Faz o perfil “contra ideologias”, mas tem feito movimentos à direita – e mais à direita, como uma visita a um Clube de Tiro em Vila Velha. Mas isso também não é assim uma surpresa. Afinal, voltando um pouco no tempo, quando ainda senador, em 2017, foi relator da Reforma Trabalhista. Apresentou um conteúdo claramente lesivo aos trabalhadores. Conduziu os trabalhos de forma autoritária e impositiva, vergando-se aos interesses do então presidente Michel Temer. O embate direto que se apresenta para ele hoje é com o ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, que emergiu como liderança da direita capixaba.

A aproximação de Pazolini com o PL de Magno Malta rendeu ao ex-prefeito de Vitória a possibilidade de uma candidatura competitiva ao Governo estadual, associando-se à extrema direita e correntes evangélicas mais conservadoras. Por outro lado, viu desfazer-se a aliança primeva com o PSD. O antigo alcaide chegou a ser elogiado publicamente por Hartung, que enalteceu a simpatia pela gestão à frente da capital capixaba. No entanto, o abraço dado ao PL fez com que Hartung batesse em retirada, levando consigo o PSD, comandado no Estado por Renzo Vasconscellos, prefeito de Colatina (noroeste) que agora busca um candidato ao Executivo pra chamar de seu. Uma mudança de rota em direção a Ferraço ainda não pode ser dada como favas contadas. Pelo menos, por enquanto.

Magno Malta: o articulador da extrema direita

Magno Malta, senador e líder histórico do PL, é hoje o principal articulador da extrema direita no Espírito Santo. Sua aliança com Pazolini selada no sábado (18), no encontro regional do PL, traduziu-se com o apoio primeiro à candidatura da filha Maguinha Malta ao Senado. Uma segunda exigência foi o “aborto definitivo” de qualquer ensaio que colocasse Paulo Hartung na disputa por uma vaga ao Senado. Isso reforça a ruptura histórica entre os dois e a recusa de Malta em dividir protagonismo com Hartung. Com Casagrande, Malta nunca teve proximidade. O ex-governador representa o campo de centro-esquerda, distante do espectro ideológico conservador. Mas sempre manteve a linha “amigo de todos”.

Com Ferraço, também não há histórico de uma parceria com Magno. Mas com Theodorico Ferraço, pai de Ricardo, prefeito de Cachoeiro de Itapemirim (sul do Estado) – e um dos políticos mais populares da história do Espírito Santo -, pode-se falar em afinidade ideológica e ajuda indireta, vez que, quando o atual senador do PL era vereador em Cachoeiro, defendendo a bandeira do PTB, fazia oposição ao então prefeito Roberto Valadão (PMDB), desafeto identificado de Theodorico. Essa tradicional passagem de bastão entre os membros do clã faz sentido para os Ferraço, os Malta e os Bolsonaro.

Helder Salomão, deputado federal pelo PT, já esteve próximo de Casagrande em diversas votações e articulações, especialmente em pautas sociais e de infraestrutura. Em 2018 e 2022, o PT apoiou a candidatura de Casagrande ao Governo, reforçando a aliança entre ambos. Com Hartung, a relação foi mais distante e marcada por divergências, já que o ex-governador sempre se posicionou em campo oposto ao PT. Hoje, Helder representa o campo progressista e pode ser peça-chave em uma frente ampla contra a extrema direita. A presença dele fortalece a possibilidade de uma coligação que una Casagrande, Ferraço e setores da esquerda para conter Pazolini e Malta, pensando em um segundo turno, analisando as pesquisas de momento. Mas nada impede que Helder venha a ser essa peça de confronto com a direita em um segundo turno, caso consiga, em trabalho hercúleo, unir a chamada esquerda, “furar a bolha”, como já aventou, e angariar votos fora do quadrado canhoto.

Aliás, o que pouca gente se recorda, e os destros que lembram fazem questão de esconder no mais profundo, é que o partido de Magno Malta, hoje o maior representante do conservadorismo capixaba, já esteve remando na mesma canoa do PT. O vice-presidente eleito com Lula, no primeiro e no segundo mandato (2003-2010), foi o empresário mineiro José Alencar, representante do antigo PL na estreia e depois do PR, em uma aliança estratégica.

O futuro dos capixabas está nas mãos desses seis protagonistas, na capacidade deles de administrar divergências e construir alianças. Se Hartung e Casagrande se unirem, será um movimento emblemático: antigos rivais se juntando para preservar o centro democrático diante da ascensão da extrema direita. Se Ferraço conseguir se consolidar, pode ser o nome capaz de articular uma frente ampla, incluindo Helder Salomão e setores progressistas. Se Pazolini avançar com Malta, o Espírito Santo viverá uma guinada inédita na história recente, com a extrema direita organizada disputando o poder estadual. E uma última hipótese, já aventada anteriormente, se Helder entrar no jogo, vai ter que brigar muito pra rebocar com ele todos os que estão fora da bolha.

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