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Quando pensamos em aparelho ortodôntico, muita gente imagina adolescentes usando braquetes metálicos. Mas a Ortodontia moderna mudou bastante. Hoje sabemos que, em muitos casos, o melhor tratamento é justamente aquele que começa antes de o problema se tornar grande.
É por isso que existe o Julho Laranja, uma campanha nacional de conscientização sobre a importância da avaliação ortodôntica precoce. Criada em 2019 pela ortodontista Dra. Cibele Albergaria, com o apoio do Conselho Regional de Odontologia do Distrito Federal (CRO-DF), a campanha nasceu para combater uma ideia ainda muito comum entre os pais: a de que o tratamento ortodôntico só deve começar quando todos os dentes permanentes já nasceram.
Na realidade, muitas alterações no crescimento dos ossos da face e na mordida podem ser identificadas e tratadas muito antes, aproveitando o potencial de crescimento da criança. O lema da campanha, “Cuidados precoces, sorrisos para toda a vida”, traduz exatamente esse objetivo: conscientizar as famílias sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce das más oclusões, evitando tratamentos mais complexos no futuro.
Qual é a melhor idade para levar a criança ao ortodontista?
A recomendação da American Association of Orthodontists (AAO) é que toda criança faça sua primeira avaliação ortodôntica por volta dos 7 anos de idade.
Essa idade costuma gerar dúvidas. Afinal, muitos dentes permanentes ainda nem nasceram. Justamente por isso ela é considerada ideal.
Nessa fase, a criança apresenta uma dentição mista — com dentes de leite e permanentes convivendo na boca — e o ortodontista consegue avaliar se os ossos da face estão crescendo de maneira equilibrada, se existe falta de espaço para os dentes permanentes, alterações na mordida ou hábitos que possam comprometer o desenvolvimento da face.
É importante destacar que avaliação não significa tratamento imediato. Em muitos casos, basta acompanhar o crescimento da criança. Porém, quando existe necessidade de intervenção, agir cedo pode fazer toda a diferença.
O que a Ortodontia preventiva e interceptativa pode evitar?
A Ortodontia preventiva e interceptativa vai muito além de alinhar dentes. Ela busca orientar o crescimento dos ossos da face, corrigir alterações funcionais e eliminar fatores que favorecem problemas futuros.
Entre as situações que podem ser prevenidas ou minimizadas estão:
mordida aberta causada pelo uso prolongado de chupeta ou pela sucção do dedo;
falta de espaço para os dentes permanentes;
apinhamento dentário mais severo;
alterações no crescimento da mandíbula ou da maxila;
desgaste dos dentes provocado por uma mordida inadequada;
traumatismos em dentes anteriores muito projetados;
necessidade de extrações em alguns casos;
tratamentos ortodônticos mais longos e complexos na adolescência.
Estudos científicos mostram que o tratamento ortodôntico realizado na fase adequada do crescimento pode reduzir significativamente a necessidade de procedimentos corretivos mais complexos no futuro. Em algumas situações, a intervenção precoce diminui em até 64% a complexidade dos casos de Classe II e em até 76% dos casos de Classe III, além de proporcionar melhores condições para o desenvolvimento facial.
Hábitos também fazem diferença
Outro ponto importante é identificar hábitos que parecem inofensivos, mas que podem alterar o desenvolvimento da boca e da face.
uso prolongado de chupeta;
posicionamento inadequado da língua durante a deglutição;
algumas alterações da fala.
Quando esses hábitos persistem, podem modificar o crescimento dos ossos da face, alterar a posição dos dentes e comprometer a função mastigatória e respiratória.
Por isso, muitas vezes o tratamento envolve uma equipe multidisciplinar, formada por ortodontista, odontopediatra, fonoaudiólogo, pediatra e otorrinolaringologista.
Nem toda criança precisa usar aparelho
Esse talvez seja um dos maiores mitos sobre o Julho Laranja.
A campanha não defende que todas as crianças iniciem tratamento ortodôntico cedo.
O objetivo é identificar quais realmente precisam de intervenção e quais apenas devem ser acompanhadas durante o crescimento.
Em algumas situações, o tratamento precoce evita problemas maiores. Em outras, o momento ideal será alguns anos depois. O mais importante é que essa decisão seja tomada com base em uma avaliação clínica realizada por um ortodontista.
Uma mordida equilibrada facilita a mastigação, melhora a higiene bucal, reduz desgastes dentários, favorece a fala e contribui para uma respiração mais adequada.
Além disso, crianças com dentes muito projetados apresentam maior risco de sofrer traumatismos dentários durante brincadeiras e atividades esportivas. Alterações importantes na mordida também podem interferir na autoestima e na qualidade de vida.
A Ortodontia preventiva busca justamente aproveitar uma fase em que o organismo apresenta grande capacidade de crescimento e adaptação. Isso permite tratamentos mais simples, menos invasivos e, muitas vezes, mais eficientes do que aqueles iniciados apenas na adolescência.
Neste Julho Laranja, vale lembrar que prevenir continua sendo o melhor caminho. Uma simples consulta por volta dos 7 anos de idade pode não significar a colocação de um aparelho, mas pode representar a oportunidade de orientar o crescimento da face, evitar tratamentos mais complexos e proporcionar um sorriso saudável e funcional por toda a vida.
Fonte: Folha Vitória