Se eu pudesse escolher um único conselho para quem deseja emagrecer, seria este: desconfie das soluções fáceis.
Vivemos uma época em que nunca houve tanto acesso à informação sobre saúde. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil separar o que realmente é ciência do que é apenas uma promessa bem embalada para gerar curtidas e compartilhamentos.
Todos os dias surgem novos vídeos, desafios e “truques” que prometem acelerar o metabolismo, secar gordura localizada ou fazer alguém perder vários quilos em poucas semanas.
Como endocrinologista, acompanho esse movimento de perto e percebo o impacto que ele provoca na vida dos pacientes. Muitos chegam ao consultório frustrados porque tentaram de tudo. Na verdade, tentaram tudo o que a internet mandou fazer.
Os mitos mais comuns sobre perda de peso
Uma das maiores armadilhas é acreditar que existe um alimento capaz de emagrecer. De tempos em tempos, um novo protagonista ganha espaço nas redes sociais: já foi a água com limão, o vinagre de maçã, o café, o gengibre, determinados chás e tantos outros.
Embora alguns desses alimentos possam fazer parte de uma alimentação saudável, nenhum deles tem o poder de provocar emagrecimento sozinho. Se isso fosse verdade, dificilmente a obesidade teria alcançado proporções tão preocupantes no mundo inteiro.
Outro equívoco que ainda persiste é enxergar a obesidade como consequência exclusiva da falta de força de vontade. Essa talvez seja uma das ideias mais prejudiciais que ainda circulam. Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial, influenciada por fatores genéticos, hormonais, metabólicos, ambientais e emocionais.
Evidentemente, os hábitos de vida exercem um papel importante, mas reduzir um problema tão complexo à ideia de “basta fechar a boca” não encontra respaldo na ciência e ainda contribui para o preconceito enfrentado por quem convive com a doença.
Também observo uma preocupação excessiva em encontrar o culpado pelo ganho de peso. Em diferentes momentos, os carboidratos, as frutas, o glúten, o leite e até determinados horários das refeições passaram a ser tratados como grandes vilões. A alimentação, porém, é muito mais complexa do que isso. Nenhum nutriente, isoladamente, explica o sucesso ou o fracasso de um processo de emagrecimento. O que realmente faz diferença é a qualidade da alimentação como um todo, associada a um estilo de vida compatível com a realidade de cada pessoa.
Dietas radicais não são a resposta
Outro comportamento bastante comum é acreditar que quanto mais restritiva for a dieta, melhores serão os resultados. A experiência clínica mostra exatamente o contrário. Dietas extremamente rígidas costumam funcionar por pouco tempo. Elas podem provocar perda rápida de peso inicialmente, mas também aumentam as chances de abandono do tratamento e da recuperação do peso perdido. Em medicina, um tratamento só pode ser considerado eficaz quando consegue ser mantido ao longo do tempo.
Nos últimos anos, outro assunto passou a dominar as conversas: os medicamentos para tratamento da obesidade. Eles representam, sem dúvida, um dos maiores avanços da endocrinologia recente e têm transformado a vida de muitos pacientes quando bem indicados.
No entanto, também deram origem a uma nova onda de desinformação. Ainda existe quem acredite que essas medicações fazem milagres ou substituem mudanças de hábitos. Não fazem. Elas são ferramentas importantes, mas continuam dependendo de acompanhamento médico, alimentação adequada, atividade física e um plano terapêutico individualizado
Folha Vitória