A atriz Claudia Raia, de 59 anos, passou quase dois anos convivendo com dores intensas espalhadas pelo corpo antes de descobrir a causa: a menopausa. O relato foi feito durante o evento “Menopausa Sem Tabu: Novas Narrativas Sobre Corpo e Saúde”, no Iguatemi Talks, e trouxe à tona uma condição ainda pouco conhecida: a síndrome musculoesquelética da menopausa.
“O que que é isso que eu estou sentindo? Nunca soube na minha vida que era um sintoma da menopausa. Aí eu fui fazer um simpósio em Portugal, e tinha uma médica holística, espetacular, que falou só sobre esse sintoma”, afirmou a artista.
A condição afeta músculos, articulações, tendões e ligamentos. Ela está diretamente relacionada à queda dos níveis de estrogênio que ocorre nesse período da vida da mulher.
Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 30 milhões de brasileiras vivem atualmente o climatério ou a menopausa. Já o estudo que descreveu a síndrome musculoesquelética, conduzido por Vonda J. Wright, da University of Central Florida College of Medicine (EUA), 70% das mulheresvão apresentar a condição em algum grau.
O que é a síndrome musculoesquelética da menopausa
Segundo o ortopedista e especialista em dor Lúcio Gusmão, fundador da Rede CADE, a condição não é uma doença isolada. É um conjunto de manifestações clínicas provocadas pelas alterações hormonais da menopausa.
O estrogênio tem papel fundamental na manutenção do colágeno, do tecido conjuntivo e dos mecanismos de reparo de músculos, tendões e cartilagens. O hormônio também age como anti-inflamatório natural no organismo.
Com a queda dos níveis do hormônio, aumenta a predisposição a dores articulares, rigidez muscular, tendinopatias e inflamações, que comprometem a qualidade de vida.
Os músculos, tendões e articulações também possuem receptores para o estrogênio. Por isso, há uma perda da capacidade de proteção desses tecidos, o que aumenta a sensibilidade à dor.
Ortopedista e especialista em dor Lúcio Gusmão, fundador da Rede CADE
Sintoma mais comum do que se imagina
As ondas de calor e os suores noturnos são os sinais mais associados à menopausa. Mas as dores no corpo são igualmente frequentes.
A revisão científica Menopausal arthralgia: Fact or fiction?, publicada na revista Maturitas — periódico oficial da European Menopause and Andropause Society (EMAS) —, aponta que mais da metade das mulheres apresenta artralgia durante a transição menopausal. Artralgia é o termo médico para dor nas articulações.
De acordo com Lúcio, o quadro costuma atingir joelhos, ombros, mãos e cotovelos. Quando não tratado por meses, pode evoluir para dor crônica.
Diagnóstico errado é comum
Um dos problemas mais graves é a confusão com outras doenças. Muitas mulheres recebem diagnóstico de fibromialgia ou condições reumatológicas sem que a relação com a menopausa seja investigada.
“Em muitos casos, a paciente recebe medicamentos fortíssimos para fibromialgia ou outras doenças reumatológicas sem que a verdadeira causa seja investigada”, afirmou o especialista. “Quanto mais cedo essa relação com a menopausa for reconhecida, maiores são as chances de controlar a dor e preservar a funcionalidade.”
Lúcio ressaltou ainda que a mulher brasileira vive, em média, um terço da vida no período pós-menopausa. Tratar a causa correta faz diferença significativa na qualidade de vida a longo prazo.
O que pode piorar o quadro e como tratar
Além da queda hormonal, outros fatores intensificam as dores. Sedentarismo, excesso de peso e perda de massa muscular agravam o quadro doloroso, segundo o especialista.
O tratamento costuma envolver exercícios físicos, fortalecimento muscular e controle do peso. O manejo da dor também faz parte da abordagem. Quando indicado pelo ginecologista, a terapia hormonal pode ser incluída no plano terapêutico.
Muitas mulheres acreditam que esse desconforto faz parte do envelhecimento, quando, na verdade, existe uma causa fisiológica que pode ser identificada e tratada
Ortopedista e especialista em dor Lúcio Gusmão, fundador da Rede CADE
Folha Vitória