Ricardo Alban acredita que aproximação com presidente americano pode ser uma nova forma de abrir interlocução. Crédito: Renan Donato/FINDES
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Antonio Ricardo Alvarez Alban, quer abrir uma interlocução direta com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O objetivo é tentar reduzir os impactos do tarifaço que pode atingir produtos brasileiros. Nesse sentido, a entidade prepara um documento, em tom institucional, para mostrar que a medida também pode prejudicar a própria indústria americana. Isso porque muitos setores americanos dependem de insumos produzidos no Brasil.
Segundo Alban, a CNI também atua ao lado de entidades empresariais americanas para construir argumentos técnicos contra as novas tarifas. Ou seja, a estratégia mira a complementaridade entre as cadeias produtivas dos dois países. Do mesmo modo, tenta tirar o debate do campo geopolítico para levá-lo ao campo econômico. “No fim do jogo, no fim das contas, a economia sempre fala mais alto”, afirmou.
As declarações de Alban foram durante a prestação de contas do presidente da Findes, Paulo Baraona, relativa ao biênio 2024-2026. O evento foi nesta quarta (8) na sede do Sindipães em Vila Velha. Confira abaixo a entrevista dada pelo presidente da CNI com exclusividade ao Folha Vitória.
Queremos tentar uma sensibilização direta
Ricardo Alban, presidente da CNI
A CNI pretende fazer o quê em relação às novas tarifas dos EUA contra produtos brasileiros?
Nós participamos das discussões e conversei longamente com o embaixador Roberto Azevedo, que acompanhou a defesa oral. A percepção é que as discussões tiveram um perfil um pouco mais técnico, com mais perguntas e mais olhar sobre causa e efeito. Porém, a decisão final termina nos Estados Unidos. De forma realista, depois de 15 de julho, vejo como muito pouco provável uma revogação total da medida.
Qual cenário o senhor considera mais provável?
A expectativa pequena é de alguma redução. Também existe alguma possibilidade de inclusão de novas exceções. No entanto, o trabalho precisa ser muito sincero. Por isso, estamos construindo um documento junto com entidades empresariais americanas e com indústrias dos dois países que têm relações complementares.
Qual argumento a CNI pretende apresentar?
Muitos produtos brasileiros servem como insumos para a indústria americana. Se os Estados Unidos tarifarem esses produtos, podem encarecer a própria produção deles. Além disso, a medida pode aumentar a dependência dos Estados Unidos em relação a outros fornecedores, inclusive a China. Esse é um argumento importante, porque a economia americana busca competitividade.
Por isso estamos elaborando um documento pessoal ao próprio presidente. É uma última tentativa, de caráter institucional e pessoal, para que a indústria americana e a indústria brasileira possam funcionar como facilitadoras de entendimento. Queremos propor a construção de um grupo privado brasileiro e americano, capaz de ajudar nas conversas governamentais.
Por que essa interlocução direta pode funcionar?
Porque precisamos fugir um pouco das questões geopolíticas e trabalhar com pragmatismo. A economia americana precisa de competitividade, e a indústria brasileira pode contribuir nesse processo. Se mostrarmos que a tarifa também prejudica empresas americanas, abrimos espaço para uma conversa mais racional.
Cenário exige complementaridade
O senhor tem defendido a ideia de complementaridade. O que isso significa na prática?
As políticas públicas, industriais e comerciais precisam partir da complementaridade. Precisamos identificar onde existem vantagens competitivas e onde podemos estabelecer relações de ganha-ganha. O mundo revisa cadeias produtivas, logística e geopolítica. Portanto, a relação comercial não pode ser apenas circunstancial ou pontual. Ela precisa ser construtiva.
Como esse conceito aparece nas relações com outros mercados?
A Itália, por exemplo, tem vantagem competitiva em design e moda. O Brasil tem algodão e energia. Hoje, exportamos pluma de algodão, com alto custo logístico. No entanto, faz mais sentido discutir como agregar valor e exportar tecido ou produtos com maior conteúdo industrial. Esse é o tipo de complementaridade que pode aumentar a competitividade dos dois lados.
O acordo Mercosul-União Europeia pode ajudar nesse processo?
Pode, desde que o Brasil entenda suas vantagens competitivas e organize políticas de Estado. A Europa tem problemas de energia e falta de matéria-prima. O Brasil tem energia limpa, matéria-prima e potencial industrial. Se juntarmos esses elementos com tecnologia, inovação e planejamento, podemos criar cadeias mais fortes.
Como a Nova Indústria Brasil ajuda nessa direção?
Ajuda porque o Brasil voltou a ter uma política industrial. Ela é perfeita? Não. É suficiente? Também não. Mas dá um norte. O agronegócio virou orgulho nacional porque teve política agrícola por décadas, com financiamento, pesquisa, Embrapa e planejamento. A indústria também precisa desse tipo de política de Estado, com inovação, tecnologia, financiamento e continuidade.
ES pode ganhar espaço na nova indústria
Como a CNI vê o Espírito Santo hoje?
O Espírito Santo vem de uma gestão que organizou bastante o Estado ao longo dos últimos anos. Vejo um Estado com capacidade de atrair investimentos e com setores importantes, como mineração, derivados minerais, comércio exterior e logística. A retomada da Samarco, por exemplo, mostra um movimento relevante na cadeia mineral. Além disso, o setor automobilístico e a estrutura portuária colocam o Estado em posição estratégica.
O ES costuma se apresentar como um Estado logístico. Isso é suficiente para atrair mais indústria?
A logística é uma vantagem, porém o Estado precisa agregar valor.
O Espírito Santo tem uma estrutura portuária muito relevante, até maior do que a de estados com vantagens naturais mais evidentes. Mas o mundo não olha apenas para porto. Ele olha para tecnologia, inovação, energia, capacidade produtiva e políticas públicas de longo prazo.
O que falta para o ES transformar localização e portos em mais investimento industrial?
Cada estado precisa entender suas peculiaridades. O Espírito Santo tem extensão territorial menor e, por isso, precisa trabalhar ainda mais com agregação tecnológica e complementaridade. O caminho passa por identificar vantagens competitivas, conectar essas vantagens a outras regiões do Brasil e do mundo e construir políticas de Estado, não apenas políticas de governo.
Quais setores podem avançar no Espírito Santo?
O Estado tem uma base forte em rochas, mármore, granito, mineração, logística e comércio exterior. A pergunta é como beneficiar mais esses produtos, como agregar mais valor e como usar energia de forma competitiva. Também existe oportunidade em cadeias conectadas à manufatura, ao setor automotivo e a produtos que precisam de estrutura portuária eficiente.
Qual o papel da energia nessa discussão?
O Brasil tem uma das energias mais limpas do mundo e um dos menores custos de produção de energia. Ao mesmo tempo, a indústria paga uma das energias mais caras. Essa conta não fecha. Todo custo social ou política pública colocada dentro da conta de energia penaliza a competitividade industrial. Energia é a mola propulsora de qualquer transformação.
O leilão de baterias, que deve ocorrer em outubro, pode ajudar a indústria?
O Brasil precisa tratar melhor esse tema. Hoje, o país joga fora energia renovável em determinados momentos e, ao mesmo tempo, se preocupa com segurança energética nos horários de pico. Baterias, PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) e térmicas precisam entrar em uma discussão mais equilibrada. O problema não está apenas em fazer leilões, mas em definir a forma, a intensidade e a combinação correta das fontes.
Como o senhor resume as oportunidades do Espírito Santo nesse novo cenário global?
O Espírito Santo tem localização, portos, cultura exportadora e setores com base produtiva. No entanto precisa transformar essas vantagens em agregação de valor. O mundo inteiro revisa cadeias produtivas. Nesse cenário, quem tiver logística, energia competitiva, política de Estado e capacidade de inovar ganhará espaço. O Espírito Santo tem condições de participar desse movimento.
Fonte: Folha Vitoria