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Última cartada: presidente da CNI quer canal direto com Trump para tentar barrar tarifaço

Em visita ao Estado para prestação de contas do presidente da Findes, Paulo Baraona, Ricardo Alban disse que Confederação Nacional da Indústria deve se aproximar de presidente americano

Por Redação em 09/07/2026 às 05:00:55
Ricardo Alban acredita que aproximação com presidente americano pode ser uma nova forma de abrir interlocução. Crédito: Renan Donato/FINDES

Ricardo Alban acredita que aproximação com presidente americano pode ser uma nova forma de abrir interlocução. Crédito: Renan Donato/FINDES

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Antonio Ricardo Alvarez Alban, quer abrir uma interlocução direta com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O objetivo é tentar reduzir os impactos do tarifaço que pode atingir produtos brasileiros. Nesse sentido, a entidade prepara um documento, em tom institucional, para mostrar que a medida também pode prejudicar a própria indústria americana. Isso porque muitos setores americanos dependem de insumos produzidos no Brasil.

Segundo Alban, a CNI também atua ao lado de entidades empresariais americanas para construir argumentos técnicos contra as novas tarifas. Ou seja, a estratégia mira a complementaridade entre as cadeias produtivas dos dois países. Do mesmo modo, tenta tirar o debate do campo geopolítico para levá-lo ao campo econômico. “No fim do jogo, no fim das contas, a economia sempre fala mais alto”, afirmou.

As declarações de Alban foram durante a prestação de contas do presidente da Findes, Paulo Baraona, relativa ao biênio 2024-2026. O evento foi nesta quarta (8) na sede do Sindipães em Vila Velha. Confira abaixo a entrevista dada pelo presidente da CNI com exclusividade ao Folha Vitória.

Queremos tentar uma sensibilização direta

Ricardo Alban, presidente da CNI

A CNI pretende fazer o quê em relação às novas tarifas dos EUA contra produtos brasileiros?

Nós participamos das discussões e conversei longamente com o embaixador Roberto Azevedo, que acompanhou a defesa oral. A percepção é que as discussões tiveram um perfil um pouco mais técnico, com mais perguntas e mais olhar sobre causa e efeito. Porém, a decisão final termina nos Estados Unidos. De forma realista, depois de 15 de julho, vejo como muito pouco provável uma revogação total da medida.

Qual cenário o senhor considera mais provável?

A expectativa pequena é de alguma redução. Também existe alguma possibilidade de inclusão de novas exceções. No entanto, o trabalho precisa ser muito sincero. Por isso, estamos construindo um documento junto com entidades empresariais americanas e com indústrias dos dois países que têm relações complementares.

Qual argumento a CNI pretende apresentar?

Muitos produtos brasileiros servem como insumos para a indústria americana. Se os Estados Unidos tarifarem esses produtos, podem encarecer a própria produção deles. Além disso, a medida pode aumentar a dependência dos Estados Unidos em relação a outros fornecedores, inclusive a China. Esse é um argumento importante, porque a economia americana busca competitividade.

Por isso estamos elaborando um documento pessoal ao próprio presidente. É uma última tentativa, de caráter institucional e pessoal, para que a indústria americana e a indústria brasileira possam funcionar como facilitadoras de entendimento. Queremos propor a construção de um grupo privado brasileiro e americano, capaz de ajudar nas conversas governamentais.

Por que essa interlocução direta pode funcionar?

Porque precisamos fugir um pouco das questões geopolíticas e trabalhar com pragmatismo. A economia americana precisa de competitividade, e a indústria brasileira pode contribuir nesse processo. Se mostrarmos que a tarifa também prejudica empresas americanas, abrimos espaço para uma conversa mais racional.

Cenário exige complementaridade

O senhor tem defendido a ideia de complementaridade. O que isso significa na prática?

As políticas públicas, industriais e comerciais precisam partir da complementaridade. Precisamos identificar onde existem vantagens competitivas e onde podemos estabelecer relações de ganha-ganha. O mundo revisa cadeias produtivas, logística e geopolítica. Portanto, a relação comercial não pode ser apenas circunstancial ou pontual. Ela precisa ser construtiva.

Como esse conceito aparece nas relações com outros mercados?

A Itália, por exemplo, tem vantagem competitiva em design e moda. O Brasil tem algodão e energia. Hoje, exportamos pluma de algodão, com alto custo logístico. No entanto, faz mais sentido discutir como agregar valor e exportar tecido ou produtos com maior conteúdo industrial. Esse é o tipo de complementaridade que pode aumentar a competitividade dos dois lados.

O acordo Mercosul-União Europeia pode ajudar nesse processo?

Pode, desde que o Brasil entenda suas vantagens competitivas e organize políticas de Estado. A Europa tem problemas de energia e falta de matéria-prima. O Brasil tem energia limpa, matéria-prima e potencial industrial. Se juntarmos esses elementos com tecnologia, inovação e planejamento, podemos criar cadeias mais fortes.

Como a Nova Indústria Brasil ajuda nessa direção?

Ajuda porque o Brasil voltou a ter uma política industrial. Ela é perfeita? Não. É suficiente? Também não. Mas dá um norte. O agronegócio virou orgulho nacional porque teve política agrícola por décadas, com financiamento, pesquisa, Embrapa e planejamento. A indústria também precisa desse tipo de política de Estado, com inovação, tecnologia, financiamento e continuidade.

ES pode ganhar espaço na nova indústria

Como a CNI vê o Espírito Santo hoje?

O Espírito Santo vem de uma gestão que organizou bastante o Estado ao longo dos últimos anos. Vejo um Estado com capacidade de atrair investimentos e com setores importantes, como mineração, derivados minerais, comércio exterior e logística. A retomada da Samarco, por exemplo, mostra um movimento relevante na cadeia mineral. Além disso, o setor automobilístico e a estrutura portuária colocam o Estado em posição estratégica.

O ES costuma se apresentar como um Estado logístico. Isso é suficiente para atrair mais indústria?

A logística é uma vantagem, porém o Estado precisa agregar valor.

O Espírito Santo tem uma estrutura portuária muito relevante, até maior do que a de estados com vantagens naturais mais evidentes. Mas o mundo não olha apenas para porto. Ele olha para tecnologia, inovação, energia, capacidade produtiva e políticas públicas de longo prazo.

O que falta para o ES transformar localização e portos em mais investimento industrial?

Cada estado precisa entender suas peculiaridades. O Espírito Santo tem extensão territorial menor e, por isso, precisa trabalhar ainda mais com agregação tecnológica e complementaridade. O caminho passa por identificar vantagens competitivas, conectar essas vantagens a outras regiões do Brasil e do mundo e construir políticas de Estado, não apenas políticas de governo.

Quais setores podem avançar no Espírito Santo?

O Estado tem uma base forte em rochas, mármore, granito, mineração, logística e comércio exterior. A pergunta é como beneficiar mais esses produtos, como agregar mais valor e como usar energia de forma competitiva. Também existe oportunidade em cadeias conectadas à manufatura, ao setor automotivo e a produtos que precisam de estrutura portuária eficiente.

Qual o papel da energia nessa discussão?

O Brasil tem uma das energias mais limpas do mundo e um dos menores custos de produção de energia. Ao mesmo tempo, a indústria paga uma das energias mais caras. Essa conta não fecha. Todo custo social ou política pública colocada dentro da conta de energia penaliza a competitividade industrial. Energia é a mola propulsora de qualquer transformação.

O leilão de baterias, que deve ocorrer em outubro, pode ajudar a indústria?

O Brasil precisa tratar melhor esse tema. Hoje, o país joga fora energia renovável em determinados momentos e, ao mesmo tempo, se preocupa com segurança energética nos horários de pico. Baterias, PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) e térmicas precisam entrar em uma discussão mais equilibrada. O problema não está apenas em fazer leilões, mas em definir a forma, a intensidade e a combinação correta das fontes.

Como o senhor resume as oportunidades do Espírito Santo nesse novo cenário global?

O Espírito Santo tem localização, portos, cultura exportadora e setores com base produtiva. No entanto precisa transformar essas vantagens em agregação de valor. O mundo inteiro revisa cadeias produtivas. Nesse cenário, quem tiver logística, energia competitiva, política de Estado e capacidade de inovar ganhará espaço. O Espírito Santo tem condições de participar desse movimento.

Fonte: Folha Vitoria

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