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Cachaça capixaba é vendida por R$ 5 mil: ES começa a transformar tradição em ativo de luxo

Exemplar da Cachaça Três Madeiras de 2015, produzida pela Santa Terezinha, fazia parte de uma reserva particular e foi vendido por R$ 5 mil. Marca quer agregar cada vez mais valor para val

Por Redação em 08/07/2026 às 05:02:24
Adwalter Menegatti prefere manter os processos artesanais para agregar mais valor às cachaças. Crédito: Edu Kopernick

Adwalter Menegatti prefere manter os processos artesanais para agregar mais valor às cachaças. Crédito: Edu Kopernick

Uma garrafa da Cachaça Três Madeiras, produzida pela Santa Terezinha, acaba de mudar de patamar. Um exemplar do lote de 2015, que fazia parte da reserva particular de um colecionador, foi vendido por R$ 5 mil. O negócio não aconteceu dentro da cachaçaria. O proprietário da marca apenas aproximou comprador e vendedor. Ainda assim, a negociação revela um movimento importante: produtos artesanais capixabas começam a ganhar valorização semelhante à observada em vinhos, uísques e destilados de colecionadores.

Mais do que uma venda, o episódio funciona como um indicador de mercado. O comprador procurava uma garrafa de baixa numeração (sim, o lote é numerado), pertencente às primeiras séries produzidas. O antigo proprietário imaginou um valor alto justamente para desencorajar a negociação. O resultado surpreendeu. O comprador aceitou pagar os R$ 5 mil e levou a peça para a coleção.

Quando um produto passa a despertar esse tipo de interesse, ele deixa de ser apenas uma bebida e passa a carregar história, exclusividade e valor patrimonial.

Ele queria uma garrafa das primeiras séries. O antigo dono pediu R$ 5 mil porque acreditava que ninguém pagaria esse valor. Para surpresa de todos, o negócio aconteceu.

Adwalter Menegatti, mestre de adega da Santa Terezinha

De produção em escala a destilado de autor

Por trás dessa trajetória está Adwalter Menegatti, um dos nomes mais respeitados da cachaça artesanal brasileira. Mestre de adega e master blender, ele representa a terceira geração da Santa Terezinha, marca criada há mais de nove décadas e que ganhou reconhecimento nacional ao entrar para a lista das melhores cachaças do Brasil. A honraria é do Guia Mapa da Cachaça, especialmente pela qualidade da fermentação e dos processos de envelhecimento.

A história da empresa também mostra uma mudança de visão de mercado. Nos anos 1990, a Santa Terezinha chegou a produzir cerca de um milhão de litros por ano e empregou dezenas de trabalhadores. A concorrência das grandes marcas reduziu as margens de rentabilidade.

Menegatti, então, fez o caminho inverso. Abandonou a escala industrial para concentrar esforços na produção artesanal. Ou seja, em pequenos lotes, com diferentes madeiras, barris importados e processos inspirados em experiências que acumulou em países produtores de destilados. Como, por exemplo, a Escócia. “Percebi que não fazia sentido disputar volume com as grandes indústrias. Preferi voltar para a essência da cachaça artesanal e produzir menos, mas com muito mais qualidade”, afirma.

Cachaça com valor agregado

Hoje, o portfólio reúne aproximadamente 60 rótulos de cachaças, além de licores e bebidas especiais. Há alguns exemplares que chegam a R$ 5 mil (como a 10 anos premium Reserva da Família), outros com valores mais em conta. A média fica entre R$ 100 e R$ 200. Porém, a Três Madeiras de 2015, que ele tem na loja, não vende. De jeito nenhum.

Cada lote nasce com características próprias, resultado da combinação entre diferentes madeiras, níveis de envelhecimento e técnicas de fermentação. Para Menegatti, a qualidade começa muito antes do barril. “A cana é importante, mas a fermentação define o produto. Uma boa levedura faz toda a diferença. É ali que nasce uma grande cachaça”, explica.

O novo projeto da Santa Terezinha aponta justamente para outra tendência que cresce no Brasil. Menegatti pretende transformar sua propriedade em Marechal Floriano em um espaço dedicado ao turismo de experiência. A proposta reúne um novo alambique, cafeteria, loja de produtos artesanais e hospedagem para visitantes interessados em conhecer todo o processo de produção da cachaça.

O projeto já recebeu incentivo do Sebrae e prevê acomodações integradas ao ambiente rural.

A ideia é que a pessoa venha, conheça o alambique, participe da produção, prove os produtos, tome um café e passe a noite aqui. A experiência vale tanto quanto a bebida.

Adwalter Menegatti, mestre de adega da Santa Terezinha

A estratégia acompanha um movimento que fortaleceu regiões produtoras de vinho e cerveja artesanal em diversos estados brasileiros. O consumidor atual compra cada vez menos apenas um produto. Ele quer conhecer a história, conversar com o produtor, entender os processos. Quer viver uma experiência. No caso da cachaça, esse modelo ainda possui enorme espaço para crescimento no Espírito Santo.

Valor agregado vale mais que volume

Menegatti também enxerga um novo momento para o mercado capixaba de destilados. Na avaliação dele, o crescimento das pequenas cachaçarias amplia a cultura da bebida de qualidade. Embora a rentabilidade dependa de produção artesanal, identidade própria e posicionamento de marca. “Quem entra nesse mercado pensando apenas em volume dificilmente encontra retorno. O consumidor quer autenticidade, história e qualidade”, avalia.

Essa leitura ajuda a explicar por que uma garrafa pode valer R$ 5 mil. O preço não está apenas no líquido. Está na raridade, na assinatura do produtor, na história do lote e no reconhecimento conquistado ao longo de décadas. É exatamente o mesmo princípio que transformou vinhos, whiskies e cafés especiais em produtos de alto valor agregado.

Se o projeto de Marechal Floriano sair do papel, a venda dessa garrafa poderá ser lembrada apenas como um símbolo do início de uma nova fase. O Espírito Santo reúne tradição, produtores qualificados e identidade para construir uma rota da cachaça. Um circuito capaz de movimentar turismo, gastronomia bem como a economia regional.

Nesse cenário, o maior patrimônio talvez não esteja dentro da garrafa, mas na experiência que ela representa. “Eu não quero crescer por crescer. Quero manter a qualidade, preservar o artesanal e entregar uma experiência que faça as pessoas voltarem”, concluiu Adwalter Menegatti.

Fonte: Folha Vitoria

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