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A Copa do Mundo costuma transformar a rotina dos brasileiros muito antes de a bola rolar. Em 2026, embora a competição seja disputada em três países — Estados Unidos, Canadá e México — e envolva diferentes fusos horários, o principal impacto para os torcedores brasileiros pode não estar na diferença de horário entre as sedes, mas nas mudanças provocadas na rotina diária.
Assistir às partidas, acompanhar análises esportivas, participar de debates nas redes sociais e prolongar as comemorações após os jogos pode levar muita gente a adiar o horário de dormir repetidamente. O resultado é uma mudança gradual na rotina de descanso, capaz de afetar o bem-estar físico e mental mesmo sem viagens internacionais ou mudanças bruscas de fuso.
Segundo a médica do sono Jéssica Polese, o organismo funciona a partir de um relógio biológico que depende da regularidade dos horários de sono para manter seu equilíbrio.
O sono não é regulado apenas pelo cansaço. Nosso organismo segue um ritmo biológico que depende da regularidade dos horários de dormir e acordar. Quando começamos a adiar constantemente o momento de dormir para acompanhar jogos, comentários, programas esportivos ou encontros com amigos, esse sistema pode sofrer alterações
Jéssica Polese,médica do sono
O problema, segundo a especialista, não está em uma noite isolada de exceção, mas na repetição desse comportamento ao longo da competição.
“Uma única noite de sono reduzido dificilmente causará consequências importantes para uma pessoa saudável. O que observamos é que, durante grandes eventos esportivos, muitas pessoas passam a dormir menos por vários dias consecutivos. Isso pode gerar sonolência durante o dia, irritabilidade, dificuldade de concentração e queda de rendimento nas atividades diárias”, afirma.
Quando a vida social passa a interferir no horário habitual de descanso, os especialistas chamam esse fenômeno de “jet lag social”. Diferentemente do jet lag provocado por viagens entre fusos horários, ele ocorre quando compromissos de lazer fazem com que a pessoa durma e acorde em horários diferentes daqueles aos quais seu organismo está acostumado.
A situação se torna ainda mais desafiadora para quem precisa acordar cedo para trabalhar, estudar ou cumprir outras responsabilidades. Nesses casos, a redução do tempo de sono pode se acumular ao longo dos dias, dificultando a recuperação do organismo.
“O organismo não consegue simplesmente compensar o sono perdido de forma imediata. Muitas pessoas tentam recuperar essas horas dormindo mais nos finais de semana ou em horários alternativos, mas isso nem sempre resolve completamente os efeitos da privação de sono”, destaca a médica.
Além do cansaço, a restrição do sono pode comprometer funções importantes, como memória, atenção, raciocínio e controle emocional. Estudos também demonstram que noites mal dormidas podem enfraquecer mecanismos de defesa do organismo e aumentar a sensação de fadiga ao longo do dia.
Como acompanhar a Copa sem prejudicar o sono
A boa notícia é que não é necessário abrir mão dos jogos para preservar a saúde. Algumas medidas simples podem ajudar a reduzir os impactos da mudança de rotina:
Manter horários de sono o mais regulares possível;
Evitar excesso de café, energéticos e outras bebidas estimulantes no período noturno;
Reduzir o uso de telas após o término das partidas;
Priorizar ambientes escuros e silenciosos na hora de dormir;
Tentar preservar o número habitual de horas de sono ao longo da semana.
Não é preciso abrir mão da Copa do Mundo. O mais importante é buscar equilíbrio. O sono tem papel fundamental na recuperação física, na saúde mental e no funcionamento adequado do organismo. Aproveitar os jogos sem descuidar do descanso é a melhor estratégia para atravessar o torneio com disposição.
Jéssica Polese,médica do sono
Fonte: Folha Vitória