O voo direto entre a Argentina e o Aeroporto de Vitória está mais perto de sair do papel. Um voo teste deve ser anunciado nos próximos dias e a expectativa é que a operação ocorra no segundo semestre deste ano. Ainda não há martelo batido, porém o Espírito Santo começa a construir, pela primeira vez de forma mais organizada, o caminho comercial que pode colocar o Estado na prateleira internacional de pacotes turísticos.
A possível rota não nasce apenas de uma negociação aérea. Ela nasce de uma estratégia de venda. O Sebrae Espírito Santo, a Embratur, o Governo do Estado, a Fecomércio, o Contures bem como empresários do setor passaram a trabalhar o mercado argentino como uma fronteira real de crescimento. Pedro Rigo, superintendente do Sebrae-ES, resume o movimento: “Os argentinos estão em busca de novos destinos”.
A primeira ida à Argentina, no ano passado, ocorreu de forma quase experimental, junto com a Embratur, em uma feira de turismo. Porém, a resposta surpreendeu. Segundo Rigo, uma das operadoras, a Principios, ativou rapidamente pacotes com Vitória, Vila Velha, Guarapari e Iriri, regiões com estrutura hoteleira e receptivo organizado. “Ninguém esperava tanta rapidez”, afirmou. Ou seja, o mercado respondeu antes mesmo de o Estado completar a estrutura ideal para a operação.
Turismo capixaba em escala
Desde então, o trabalho ganhou escala. Treze agentes argentinos vieram ao Espírito Santo em um famtour, por meio da EStour (Salão Capixaba do Turismo), para conhecer o destino. Em seguida, a estratégia avançou para road shows em cidades como Neuquén, Mar del Plata, Mendoza e Buenos Aires. Foram 329 agentes ligados à Principios capacitados sobre o produto capixaba. Em agosto, a previsão é passar por mais quatro cidades e alcançar outros 300 a 350 agentes de viagens.
O peso disso? Turismo internacional não se constrói apenas com narrativas. Ele depende de operadora, agente capacitado, hotel contratado, receptivo pronto, pacote na prateleira e demanda mensurável. Por isso, a fala de Rigo é central: “Não tem conversa, companhia aérea é negócio. Se tiver desejo de turista argentino, vai ter voo”. Ou seja, o voo direto será consequência da demanda, não o contrário.
E há sinais concretos dos dois lados. Em 2025, 4.187 capixabas voaram para a Argentina, volume suficiente para encher cerca de 20 voos. Ou seja, um lado da via tem passageiros. Falta a volta. Os primeiros grupos argentinos já começaram a chegar ao Estado, com registro de turistas em Guarapari em maio. Segundo Rigo, “já tem pacotes oferecidos, já estão na prateleira”. Essa é a virada prática: o Espírito Santo deixa de vender intenção e começa a vender produto.
O impacto pode ser maior no verão de 2027, quando o Sebrae espera um movimento mais robusto. Até lá, o Estado precisa fazer o básico muito bem: qualificar atendimento, integrar roteiros, fortalecer receptivos, alinhar hotelaria e dar previsibilidade ao operador. Vitória pode funcionar como porta de entrada. Guarapari e Iriri entram com praia. Vila Velha acrescenta patrimônio, gastronomia e experiência urbana. O interior pode aparecer com observação de aves, montanhas, agroexperiências e turismo de natureza.
O Espírito Santo demorou a se enxergar como destino turístico competitivo fora de suas fronteiras tradicionais. O Estado tem praia, segurança relativa, curta distância entre atrativos, boa gastronomia, natureza e estrutura em evolução. Falta transformar esses ativos em produto internacional. Porém, esse movimento já começou.
“Para nós do Sebrae é motivo de celebração. Trabalhamos esse tema há três anos”. A frase mostra que o avanço atual não é improviso. É fruto de insistência, articulação e leitura de mercado. O Brasil continuará prioridade, mas a Argentina abriu uma janela que o Espírito Santo não pode desperdiçar.
Folha Vitoria