A colheita da safra 2026 de gengibre teve início nesta semana no Espírito Santo, com o lançamento oficial em Santa Maria de Jetibá, na região serrana. O estado é responsável por cerca de 75% de toda a produção brasileira da raiz e por 59% das exportações nacionais, posição construída ao longo de décadas por famílias da Serra que transformaram o gengibre num dos quatro principais produtos do agronegócio capixaba em geração de divisas, ao lado do café, da celulose e da pimenta-do-reino.
Em 2025, o ES produziu 83,7 mil toneladas e exportou 28,5 mil toneladas, chegando a 50 países e faturando US$ 40,4 milhões. Os números de volume foram positivos, crescimento de 8% em relação a 2024. Mas a receita caiu 10,8%. O estado exportou mais e ganhou menos. Essa é a tensão que o produtor carrega para a safra 2026: volume crescendo, preço pressionado.
A dinâmica do mercado global explica em parte esse movimento. A China é o maior produtor de gengibre do mundo e dita o ritmo do abastecimento global. Quando a oferta chinesa cresce (como ocorreu em 2025) os preços no mercado europeu e americano recuam. Os Países Baixos, principal porta de entrada do gengibre capixaba na Europa, funcionam como hub de redistribuição para o continente.
Quando há excesso de produto chinês no mercado, o gengibre brasileiro perde espaço de preço, mesmo que mantenha vantagem em qualidade. Em 2022, essa dinâmica chegou ao extremo: houve excesso de oferta global, faltaram contêineres, o preço caiu e cerca de 40% da produção capixaba ficou embaixo da terra.
O cenário de 2026 é mais equilibrado. A análise do mercado global de março aponta que a Europa enfrenta baixa disponibilidade de gengibre brasileiro no período de transição entre safras e os embarques marítimos regulares do ES para o continente devem se retomar a partir de junho. Os Países Baixos seguem com escassez pontual, o que sustenta preços mais firmes apesar das preocupações com a qualidade do produto chinês que chega ao mercado europeu.
Para o produtor capixaba, essa janela entre o fim da safra anterior e o início dos embarques da nova colheita é historicamente o melhor momento de preço.
O Acordo Mercosul-UE, em vigor desde 1º de maio, adiciona uma perspectiva de médio prazo relevante para a cadeia. O gengibre está classificado na categoria zero do tratado, o que significa tarifa zerada já no primeiro ano, sem período de transição. As tarifas que incidiam sobre a raiz capixaba ao entrar no mercado europeu caem de imediato, reduzindo o custo de acesso e aumentando a competitividade frente a fornecedores de fora do bloco.
A Europa importa gengibre de China, Peru, Tailândia e Brasil e o produtor capixaba passa agora a competir com vantagem comercial que os concorrentes asiáticos não têm.
O governo do ES anunciou junto ao início da safra um investimento de R$ 1,2 milhão em pesquisa e inovação para a cadeia produtiva do gengibre em 2026, com foco em controle biológico de pragas, produção de bioinsumos e novas variedades registradas no Mapa.
Os projetos foram desenhados para unir pesquisa e extensão nas áreas mais críticas para o mercado internacional com qualidade, sustentabilidade e segurança fitossanitária. O mercado europeu está mudando suas preferências em direção a produtos com certificação ética e práticas agrícolas transparentes. O produtor capixaba que antecipa essas exigências chega ao mercado europeu com vantagem dupla: comercial pelo acordo e qualitativa pela certificação.
O gengibre capixaba tem um diferencial que o mercado global reconhece: Santa Leopoldina, Santa Maria de Jetibá e Domingos Martins respondem por cerca de 90% da área cultivada no estado e produzem uma raiz com características organolépticas valorizadas especialmente no mercado premium europeu e americano.
A produtividade média de 60,5 toneladas por hectare está acima da média chinesa, que gira em torno de 34 toneladas por hectare. Qualidade e produtividade estão do lado capixaba. O que faltava era a condição comercial para competir em igualdade de condições no principal mercado comprador. Com o acordo, essa condição chegou.
Para o produtor que começa a colher agora, a safra 2026 abre com um contexto melhor do que o de 2025. O mercado europeu está com disponibilidade limitada, os embarques se retomam em junho e a tarifa zerou. O desafio segue sendo o mesmo de sempre: converter qualidade em preço e preço em resultado no caixa da propriedade.
Folha Vitoria