A maternidade costuma ser associada ao cuidado, acolhimento e dedicação integral aos filhos. Mas, por trás da rotina intensa enfrentada por milhões de mulheres, cresce um problema silencioso: a sobrecarga materna e seus impactos na saúde física, emocional e hormonal.
Entre jornadas duplas, noites maldormidas, trabalho, responsabilidades domésticas e a pressão constante para dar conta de tudo, muitas mães acabam negligenciando o próprio corpo. Segundo a ginecologista e obstetra do Bluzz Saúde, Anna Bimbato, os efeitos desse acúmulo podem ser profundos e progressivos.
A sobrecarga materna vai muito além do cansaço do dia a dia. Na prática, ela mantém o corpo em um estado constante de alerta. Isso se manifesta como fadiga persistente, dores musculares, queda da imunidade, alterações de peso e distúrbios do sono. Muitas mulheres entram em um ‘modo sobrevivência’, em que seguem funcionando, mas com o corpo já dando sinais claros de desgaste.
Anna Bimbato, ginecologista e obstetra
Estresse crônico interfere nos hormônios
Do ponto de vista ginecológico, o impacto do estresse contínuo também atinge diretamente o equilíbrio hormonal feminino. De acordo com Anna Bimbato, o aumento constante do cortisol, que é o hormônio ligado ao estresse, interfere na produção de estrogênio e progesterona.
Os sinais aparecem de diferentes formas: queda de cabelo, piora da pele, diminuição da libido, irregularidade menstrual, dificuldade para engravidar e sensação constante de cansaço.
“O corpo fala o tempo todo, mas muitas mulheres acabam normalizando esses sinais”, alerta.
A especialista destaca ainda que a sobrecarga emocional e mental tem reflexos diretos no ciclo menstrual e na saúde reprodutiva. Alterações como atraso menstrual, ausência de menstruação, TPM mais intensa, cólicas mais fortes e ovulação irregular podem indicar que o organismo está em desequilíbrio.
“Em casos mais prolongados, pode ocorrer anovulação, o que interfere na fertilidade. Não é apenas uma questão emocional. Existe uma resposta fisiológica clara do organismo”, afirma.
Falta de acompanhamento médico aumenta riscos
Outro problema recorrente é o adiamento de consultas e exames de rotina. Muitas mães priorizam os cuidados com os filhos e deixam a própria saúde em segundo plano, comportamento que pode atrasar diagnósticos importantes.
Segundo a ginecologista, a ausência de acompanhamento médico reduz as chances de identificar precocemente doenças ginecológicas.
Quando a mulher se coloca constantemente em último lugar, ela pode perder oportunidades importantes de diagnóstico precoce. Isso inclui doenças ginecológicas, alterações hormonais, anemia, disfunções da tireoide e o rastreio de câncer de colo do útero e de mama.
Anna Bimbato, ginecologista e obstetra
Entre os principais sinais de que a sobrecarga materna já está comprometendo a saúde da mulher estão:
alterações no sono e no apetite;
perda de interesse por atividades que antes davam prazer;
ciclos menstruais irregulares;
A médica destaca que o puerpério é um dos períodos mais críticos da maternidade devido à combinação entre privação de sono, alterações hormonais e adaptação emocional. A primeira infância dos filhos também costuma exigir elevado desgaste físico e mental, principalmente quando a mulher não possui rede de apoio.
“No entanto, mais do que a fase em si, o que define o impacto é o acúmulo de responsabilidades e a ausência de suporte”, explica.
Pequenas mudanças ajudam no autocuidado
Mesmo em meio à rotina intensa, algumas atitudes podem ajudar as mães a preservarem a própria saúde. Entre as orientações da especialista estão:
priorizar consultas médicas;
dividir responsabilidades;
tentar manter uma rotina mínima de sono;
fazer pequenas pausas ao longo do dia;
incluir algum tipo de movimento na rotina.
“O cuidado precisa caber na rotina real. Pedir ajuda é estratégia, não fraqueza. E cuidar de você não é egoísmo é o que sustenta tudo”, orienta Anna Bimbato.
Folha Vitória