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Quanto você deixa de ganhar por ser mulher no Espírito Santo?

Dados do Atlas das Mulheres do Espírito Santo mostram que a disparidade salarial afeta diversos setores, chegando a 68,7% na Cultura

Por Redação em 30/03/2026 às 05:00:19
Foto: Freepik

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No Espírito Santo, a desigualdade no mercado de trabalho atravessa profundamente a vida das mulheres. Dados do Atlas das Mulheres do Espírito Santo, lançado nesta quinta-feira (26), mostram que a diferença salarial e de acesso à renda entre homens e mulheres no Estado são uma realidade ainda marcante.

O estudo não só aponta a disparidade geral, mas também detalha como essa diferença se manifesta em diversas áreas profissionais, como Esporte, Ciência, Cultura e Trabalho Doméstico, onde a presença feminina é maioria, mas a valorização financeira não segue o mesmo padrão.

O Atlas destaca que, no cenário geral, a diferença salarial chega a 31,6%, índice superior à média nacional. Os dados evidenciados no estudo são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mulheres na ciência: falta de acesso a bolsas de pesquisa

No campo da ciência, a barreira financeira para as mulheres é evidenciada pela dificuldade de acesso a bolsas de fomento, revelando um abismo de investimento que prejudica a progressão na carreira acadêmica.

Um dado trazido pelo Atlas indica que 85% das mulheres pesquisadoras e docentes no Brasil não possuem bolsas de apoio do Sistema de Pesquisa Brasileiro. A dificuldade torna-se ainda mais profunda sob a perspectiva racial: apenas 2,6% das bolsas de produtividade são destinadas a mulheres negras, em contraste com os 12,3% recebidos por mulheres brancas. Os dados evidenciados no Atlas são do Ministério da Educação.

O Atlas mostrou que as mulheres são 44,8% dos pesquisadores no Brasil, mas seguem minoria em áreas como Engenharias e Ciências Exatas e ainda ocupam menos cargos de liderança na ciência. A pesquisa também destaca que a maternidade é um dos principais fatores que impactam a trajetória das mulheres na ciência.

As mulheres cientistas participantes das rodas de conversa realizadas ao longo da construção do Atlas das Mulheres relataram dificuldades em participarem de congressos e de eventos científicos, especialmente pela falta de suporte institucional às mães pesquisadoras.

A coordenadora do Atlas, Jaqueline Sanz, destacou que, na ciência, assim como em outras áreas, a falta de rede de apoio leva muitas mulheres a abrirem mão de oportunidades, o que afeta diretamente o acesso à renda e o crescimento profissional.

Na ciência, muitas mulheres acabam abrindo mão de oportunidades por falta de rede de apoio. Eu mesma já deixei de participar de cursos porque não tinha com quem deixar meus filhos. A responsabilidade do cuidado ainda recai sobre nós, e isso impacta diretamente a trajetória profissional”

De acordo com o estudo, no Espírito Santo, para tentar reverter esse quadro de subfinanciamento, o edital “Mulheres na Ciência” da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) investiu R$ 5,3 milhões em 2024 para apoiar 51 projetos coordenados por pesquisadoras capixabas.

Desigualdade no esporte e até no trabalho doméstico remunerado

No esporte, o estudo revela que as mulheres são minoria entre os beneficiários de bolsas de incentivo. Dados apresentados no Atlas mostram que, em 2023, apenas 44,2% das bolsas do Ministério do Esporte foram para mulheres, e no Espírito Santo, o programa Bolsa Atleta destinou 42,3% das bolsas a elas em 2025. Para mulheres com deficiência, a situação é ainda mais crítica, com apenas 37,2% das bolsas.

No trabalho doméstico remunerado, a situação é um reflexo claro da desvalorização do trabalho feminino. Apesar de serem a maioria absoluta nessa área, as mulheres recebem, em média, menos que os homens para as mesmas funções. Segundo o estudo, a “economia do cuidado”, que é fundamental para a sociedade, é historicamente atribuída às mulheres, resultando em salários mais baixos e pouca valorização social e econômica.

Dados do IBGE trazidos pelo Atlas mostram que o rendimento nominal médio dos homens capixabas trabalhadores domésticos era de R$ 1.133,32 e, das mulheres, de R$ 1.073,70 no Censo Demográfico de 2022.

Na cultura, homens capixabas recebem até 68,7% a mais que mulheres

O setor cultural também espelha a realidade da desigualdade de renda entre homens e mulheres. Embora as mulheres representem 43,7% dos trabalhadores na cultura no Brasil, elas ganham, em média, 30% menos que os homens. No Espírito Santo, a disparidade é ainda maior, com homens recebendo até 68,7% a mais que as mulheres no setor.

Dedicação ao trabalho doméstico

Além da diferença nos contracheques e no acesso a incentivos, o Atlas mostra que mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais aos trabalhos domésticos não remunerados em comparação com os homens. Segundo dados do IBGE destacados no Atlas, as capixabas dedicam 21,5 horas semanais, quase o dobro do tempo gasto pelos homens, que dedicam 11,9 horas.

O Atlas mostra que o desequilíbrio no acesso à renda não aparece de forma isolada. Ele se soma a outros fatores, como raça, classe social e território, ampliando as diferenças e tornando o impacto ainda mais profundo para determinados grupos – especialmente mulheres negras, que representam mais da metade da população feminina no Estado.

Estado e empresas precisam ser parte da rede de apoio às mulheres

Jaqueline analisa que a exaustão silenciosa das mulheres que conciliam carreira e cuidado é um dos principais entraves à igualdade de renda. Nesse contexto, muitas profissionais interrompem sua trajetória ou recusam promoções pela ausência de suporte institucional.

A conclusão é clara, segundo a coordenadora do Atlas: se o Estado e a iniciativa privada não assumirem sua parte na rede de apoio, a sociedade continuará perdendo profissionais de excelência porque o sistema ignora a sobrecarga doméstica feminina.

A responsabilidade do cuidado não é só das mulheres; tem que ser uma responsabilidade do Estado, da sociedade e das empresas. Se elas não tomarem atitudes, vão perder excelências, porque recai sobre nós essa responsabilidade. Muitas vezes abrimos mão de oportunidades e chances porque não temos com quem deixar os filhos. É preciso entender que, se não houver suporte, a sociedade perde profissionais qualificadas simplesmente porque o cuidado ainda é visto como uma obrigação exclusiva da mulher“, finalizou.

Atlas também mostra onde as mulheres vivem melhor no ES

O Atlas também traz o Índice de Qualidade de Vida da Mulher (IQVM-ES), que evidencia em quais cidades capixabas as mulheres vivem melhor. Ao contrário do que muitas pessoas podem imaginar, as melhores condições de vida para as mulheres capixabas não estão nos grandes centros urbanos, mas sim em pequenos municípios do Interior.

Cidades como Apiacá, Água Doce do Norte e Bom Jesus do Norte lideram o ranking estadual de bem-estar feminino. O estudo mostra que, apesar dos desafios estruturais, o Espírito Santo registrou uma melhora geral de 4,2% no índice consolidado de qualidade de vida das mulheres no período.

O Atlas ouviu cerca de 1.400 mulheres em mais de 90 rodas de conversa realizadas com 19 segmentos distintos, entre mulheres em situação de rua, trabalhadoras domésticas, mães atípicas, da ciência, da política e de comunidades tradicionais. O resultado é um livro com mais de 600 páginas.

Fonte: Folha Vitoria

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