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Economia Capixaba

O que a Bahia e o Espírito Santo ensinam-me sobre excelência

Muitos apreenderam sobre excelência com Faria Lima, Paulista, biografias de CEOs, Silicon Valley; eu aprendi com a Bahia e o Espírito Santo


Foto: gerada por IA

Muitos buscam as suas referências do que seja excelência na Faria Lima, na Paulista, em biografias de CEOs, no Silicon Valley. Por minha vez, encontro as minhas maiores lições de liderança nos nativos do estado brasileiro que melhor soube transformar Felicidade e Arte em commodities valiosas: a Bahia. Somadas àquelas que me dizem que sem Estrutura e Disciplina, a excelência pode ser fugaz: o Espírito Santo.

Durante a faculdade de Letras (inglês e português), tornei-me um fã viciado e devoto da Maria Bethânia. Após 60 anos de uma carreira consolidada e premiada, Bethânia prova que não é apenas a maior cantora e intérprete viva no Brasil, capaz de unir música, teatro e literatura de modo singular. É a encarnação absoluta do rigor que todo produto ou serviço de excelência exige.

Há, na figura daquela mulher aparentemente frágil, de beleza não padrão, uma métrica de excelência silenciosa que nenhuma business school consegue ensinar: o mero talento sem verdade intrínseca, e muita disciplina, é apenas vapor. Em Bethânia não habita o acaso. O palco é o seu altar.

Na geometria precisa dos seus movimentos, há uma exigência natural de silêncio para se ouvir uma autoridade. Ela não precisa pedir atenção a ninguém, pois comanda o foco com suavidade hipnótica.

Esta minha deferência por quem cumpra a sua liturgia de se propor a fazer bem não é apenas estética, mas quase genética. A música nunca foi para mim um passatempo; foi, na verdade, a minha primeira gramática.

Sou orgulhosamente filho de mãe capixaba e de pai baiano. Nasci num lar culturalmente híbrido, numa Bahia que poucas pessoas conhecem. Mesmo vindo do litoral, sou herdeiro do Sertão profundo e erudito.

Pelo lado paterno, carrego no sangue a estranheza de uma estética desidratada do Planalto de Vitória da Conquista. Dos meus parentes músicos Elomar (Figueira de Mello) e Xangai (Eugênio Avelino Ferraz), cresci a ouvir as “óperas da caatinga”, onde o canto medieval ibérico e provençal cruzaram a dureza da terra que foi tomada dos povos mogoiós e camacãs pelos nossos ancestrais, bandeirantes e capitães-donatários portugueses, ainda nos anos 1750.

Uma história muito triste esta da formação do nosso Brasil. Mas foi dali, deste ambiente improvável, que extraí a lição que tradição não é âncora, mas uma raiz sedenta; e de que beleza brota até da aridez.

A Bahia e esses músicos ensinaram-me que a Palavra tanto pode ter o peso de uma sentença, como também a leveza de uma poesia ou de um canto.

Já pelo lado materno, a banda sonora era outra bem diferente, herdada dos meus avós ítalo-capixabas: o som da “fisarmonica” (acordeão). Aquele instrumento, que respira chorando para tocar, ensinou-me que o trabalho árduo e a melancolia podem dançar juntos.

Ainda hoje guardo das minhas memórias de criança o som daquelas canções cantadas no dialeto do pré-alpino do Veneto, ou “el talian”, como foi denominado no Espírito Santo e no Sul do Brasil.

Fui forjado no meio do cruzamento improvável das vozes de dois nordestes: o do Brasil e o da Itália. Em comum? Ambos cultuam o belo.

A minha alma foi educada por vozes ancestrais, que me ensinaram que autoridade não se impõe. Ela é conquistada através de densidade, de beleza, de persistência e de devoção ao próprio ofício.

Aprendi, antes mesmo de saber o que era um planejamento, uma meta ou uma estratégia, que toda beleza exige Estrutura. Não há, para mim, fronteira entre o que ouço, leio, estudo, vejo e aquilo que construo.

Para se ter repertório, é preciso ter base. E solidez basilar é construída ao longo da vida, a partir do que se escolhe ler, do que se opta por estudar, ouvir e ver. Por isso, busco filtrar muito os meus inputs e as minhas fontes.

Dizem por aí que “o capixaba trabalha muito bem, mas é professor de anti-marketing” (risos). Também escuto que “baiano já nasce artista”, que “baiano não nasce, e sim ‘estreia’”. Mas a verdade é que todo ofício, por menos ou mais recompensado pecuniariamente que seja, é sempre feito sobre um palco. O teu trabalho é a tua vitrine, quer aceites isto ou não.

Em 1933, Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, escreveu em Poesia:

“Para ser grande, sê inteiro:

nada teu exagera ou exclui.

todo em cada coisa.

Põe quanto és no mínimo que fazes.

Assim, em cada lago, a lua toda brilha, porque alta vive.”

A grandeza e o sucesso exigem Inteireza. É a busca eterna pela nota exata, sem dissonância. É procurar por aquela palavra que sobra ou que falta. É ter como alvo o coração do outro.

Num mundo de “Carreiras Líquidas”, extrapolando aqui Zygmunt Bauman, escolhe tu aquela explosão de criatividade, leveza e sorriso (BA) mas não te curves à conveniência do efêmero e do imediato. Pode ruir. Exibe, pois, persistência, ordem, disciplina e mais organização (ES). Desta forma, serás perene.

Afinal, “baiano não morre . . . sai de cena”.

Folha Vitória

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