Artigo escrito por Matheus Magalhães
Analista de mercado do agronegócio e sócio do Café Raízes
Li num livro de RH que metade dos trabalhadores tem medo de se tornar obsoleta. A outra metade, imagino, já se tornou e só não recebeu o e-mail.
O medo ganhou sigla, FOBO, de fear of becoming obsolete. Em inglês, porque assim vende mais palestra. É o primo de segundo grau do FOMO.
No FOMO, você tem medo de perder a festa. No FOBO, você está lá dentro, mas ninguém mais te chama para a próxima rodada. A festa já não precisa de você.
Tem redator de cinquenta e poucos anos que passou o último ano corrigindo os textos de uma máquina, e foi assim que ela aprendeu a não precisar dele.
Tem gerente que demite por um e-mail escrito por ela, com português impecável e nenhuma vergonha.
Tem filho que pede à máquina as palavras para o velório do pai, porque as dele travaram na garganta, e recebe um texto bonito sobre um homem que ela nunca conheceu.
Passamos décadas com medo de que a máquina aprendesse a pensar como a gente. Ela aprendeu. A gente, por educação, parou para não atrapalhar.
O que se perde nessa cortesia aparece pouco e custa caro. Escrever o e-mail difícil sempre foi o jeito de descobrir o que a gente tinha coragem de dizer. Procurar a palavra para o pai era um pedaço do luto.
Quando a máquina entrega a frase pronta, leva junto o trabalho de chegar até ela, e é nesse trabalho que se forma o critério de quem decide, contrata, demite e consola.
A empresa que troca o redator pela máquina economiza o salário já no primeiro mês. O problema é que o sujeito sabia quando uma pequena frase ia ofender um cliente antigo, mesmo de forma sutil. Essa conta chega depois, sem aviso e sem nota fiscal.
Pense bem, o primeiro computador que assustou o mundo ocupava uma sala inteira e não sabia escrever um bilhete.
Hoje a gente pergunta à máquina o que responder quando a pessoa amada manda um “tá tudo bem?”. Ela devolve três opções. A gente escolhe a que parece mais sincera. Nunca é.
E não me olhe como quem lê sobre o vizinho. Você já pediu a ela a mensagem de aniversário da sua mãe. Já mandou um pedido de desculpas que ela escreveu e foi perdoado por palavras que nem eram suas.
Eu também. Confiro o celular mais vezes do que gostaria, e não é para ver as horas. É para ver se alguém precisou de mim. Quando ninguém precisou, pergunto alguma coisa à máquina. Ela sempre responde.
Os gregos tinham Sísifo, condenado pelos deuses a empurrar uma pedra morro acima. A pedra chegava ao topo, rolava de volta, e ele descia atrás dela. Para sempre.
Camus pediu que o imaginássemos feliz. Eu sempre achei que a pior parte era o morro. Hoje desconfio que o pior seria acordar um dia e descobrir que alguém inventou uma máquina para empurrar a pedra.
Este texto passou por uma antes de chegar até você. Ela escreveu rápido. Não gostei. Sou chato, mandei refazer quatro vezes.
Ainda não sei qual de nós dois estava empurrando a pedra.
Folha Vitória