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A vida está funcionando. Mas você está vivendo?

Entre cobranças e responsabilidades, muitas mulheres sentem culpa ao priorizar seus desejos, enquanto até o autocuidado se transforma em obrigação

Por Redação em 29/10/2026 às 13:00:13

Recentemente, fui convidada para uma roda de conversa sobre o bem-estar feminino na Escola Americana de Vitória. Levei à discussão algo que observo na clínica: a dificuldade de muitas mulheres para reconhecer os próprios desejos sem experimentar culpa. Aprendemos a cuidar de tudo e de todos.

Quando chega a nossa vez, até o descanso parece precisar de autorização. Foi a partir dessa conversa que pensei em como uma vida bem administrada pode ser confundida com uma vida bem vivida.

Pensei nas mulheres que trabalham, criam filhos, administram a casa, acompanham o envelhecimento dos pais e procuram preservar o casamento, as amizades e algum tempo para si. Independentemente do que escolham, sentem-se em dívida. Se trabalham demais, deveriam estar mais presentes em casa. Se ficam com os filhos, deveriam investir na carreira. Toda escolha parece exigir uma justificativa; nenhuma parece autorizá-las a ficar em paz.

As exigências sociais dirigidas às mulheres continuam enormes, e a divisão desigual das responsabilidades domésticas não desapareceu porque passamos a discuti-la. Mas a cobrança pode persistir onde já existe alguma divisão. Há mulheres com parceiros presentes e redes de apoio que não conseguem descansar sem culpa.

Freud descreveu o supereu, instância psíquica ligada aos ideais e às exigências morais, que pode nos submeter a cobranças implacáveis. Quando finalmente paramos, a cobrança continua: poderíamos ter feito mais. As pressões sociais podem se tornar tão nossas que seguimos obedecendo a elas mesmo quando ninguém está exigindo nada.

Essa lógica alcançou até o autocuidado. Conhecemos a importância do sono, da atividade física e da alimentação para a saúde. O acesso a essas informações ampliou nossas possibilidades de cuidado.

O problema começa quando aquilo que deveria orientar escolhas passa a fiscalizar a vida inteira. Acordar cedo, meditar, treinar, monitorar o sono. A lista parece razoável até percebermos que o descanso também ganhou metas. Conseguimos acrescentar à rotina uma obrigação curiosa: recuperar as energias com o mesmo rigor com que as gastamos.

Faltar à academia provoca culpa, uma refeição fora do planejado exige compensação e até as férias precisam demonstrar algum aproveitamento. A disciplina ajuda a cuidar da saúde; o sofrimento aparece quando já não podemos nos afastar dela sem sentir que fracassamos. Prazer e saúde podem caminhar juntos, mas não são equivalentes.

Um café demorado com uma amiga, um mergulho no mar ou uma tarde sem compromissos não precisam melhorar nenhum indicador para ter valor. Há experiências que se justificam pela satisfação de vivê-las, embora tenhamos adquirido o hábito de pedir a quase tudo alguma utilidade.

As redes sociais oferecem modelos para esse aperfeiçoamento sem descanso. Acompanhamos mulheres que trabalham, treinam, educam os filhos com paciência e preservam uma aparência impecável. Sabemos que vemos recortes, mas comparamos os bastidores da nossa vida com a vitrine alheia.

Na clínica, essa lógica aparece em mulheres que alcançam objetivos e logo encontram novos motivos de insatisfação. A conquista mal chega a ser vivida antes de dar lugar à próxima exigência. Passamos tanto tempo tentando corresponder a um ideal que deixamos de investigar se desejamos a vida que ele promete.

Também podemos nos acostumar ao mal-estar. O cansaço, a tensão e a insatisfação permanecem por tanto tempo que parecem parte da personalidade ou uma consequência inevitável da vida adulta. A mulher continua trabalhando, resolvendo problemas e cumprindo compromissos.

Quando alguém pergunta como está, responde que está bem. Afinal, conseguiu fazer tudo. Aos poucos, a capacidade de cumprir tarefas ocupa o lugar da pergunta sobre como ela se sente. Confundimos estar bem com estar dando conta de tudo.

Uma pessoa pode cumprir suas obrigações e, ainda assim, sofrer. Pode ser admirada pela disposição enquanto vive exausta. Existe uma crueldade nessa dinâmica: a capacidade de suportar uma rotina excessiva costuma ser recompensada com mais responsabilidades. A competência se transforma em disponibilidade ilimitada. Elogiamos quem resolve tudo, recorremos sempre à mesma pessoa e estranhamos quando ela diz que não pode.

O limite, que deveria fazer parte da relação, começa a ser interpretado como uma falha de quem sempre esteve disponível.

Alterações persistentes no sono, dificuldades de concentração, irritabilidade e tensões musculares merecem avaliação, porque podem ter diferentes causas. Não basta atribuir tudo ao estresse, assim como continuar produzindo não demonstra que esteja tudo bem. Ainda assim, usamos a agenda cumprida para desmentir o próprio cansaço. Adiamos a consulta, encurtamos o descanso e esperamos as férias. Há sempre algo urgente o bastante para justificar que o cuidado fique para depois.

Nem sempre é possível interromper a rotina. Há contas, filhos, pais envelhecendo e responsabilidades que não podem ser abandonadas. Seria injusto dizer que toda mulher sobrecarregada está assim porque não aprendeu a estabelecer limites.

As possibilidades de escolha são desiguais, e uma divisão efetiva do trabalho exige a participação de outras pessoas. Isso não impede que examinemos o que nos prende ao lugar de quem resolve tudo. Às vezes, delegar significa aceitar que alguém fará de outro jeito. Em outras, significa enfrentar o desconforto de não ser necessária o tempo inteiro.

Essa mudança não se resolve acrescentando uma atividade prazerosa à agenda. Até a recomendação de se colocar em primeiro lugar pode virar mais uma medida do que não conseguimos fazer direito. Há perdas em qualquer escolha, e abrir mão de alguma coisa nem sempre traz alívio imediato.

Podemos sentir culpa ao recusar uma demanda sem que essa culpa prove que fizemos algo errado. Reconhecer um desejo também pode exigir suportar a decepção de alguém, inclusive a nossa com a mulher que imaginávamos conseguir ser.

Porque existe uma diferença entre dar conta da vida e estar presente nela. E de que adianta cumprir tão bem todas as expectativas se, no meio delas, acabamos nos tornando ausentes da nossa própria história?

Fonte: Folha Vitória

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