Work and Trust: whisky capixaba de alto padrão promete fazer frente a grandes marcas do destilado. Crédito: Divulgação
Vinícius de Moraes dizia que o whisky é o melhor amigo do homem, ou seja, o “cachorro engarrafado”. E, aqui no ES, tem um exemplar que promete ser o amigo bem próximo de apreciadores de um bom destilado. E com a garrafa a R$ 549. É com esse preço que a capixaba Work & Trust lança seu rótulo mais sofisticado, com 11 anos de envelhecimento e uma edição limitada a apenas 289 garrafas, todas numeradas à mão. Ou seja, o lançamento coloca a marca em uma faixa de mercado dominada por tradicionais destilados importados e representa um novo passo para o segmento de bebidas de alto padrão no Estado.
Mais do que vender whisky, a empresa aposta na exclusividade, bem como na valorização da origem capixaba para conquistar consumidores dispostos a pagar mais por produtos diferenciados.
O Work & Trust 11 Anos é um single malt, categoria produzida a partir de cevada maltada em uma única destilaria. O destilado passou oito anos em barris de carvalho americano e outros três em barris que antes armazenaram vinho tinto de castas chilenas. Essa última etapa ocorreu no Espírito Santo, onde o clima tropical favorece a interação da bebida com a madeira. O resultado é um whisky com 46% de teor alcoólico, sem corantes e sem filtragem a frio. A finalização e o envase ocorreram no Alambique Princesa Isabel, no Estado.
“A gente comprou o destilado de uma empresa do Sul do país e fez o ajuste fino aqui no ES, aproveitando os equipamentos e a expertise do Alambique Princesa Isabel, em Linhares. É como se tivéssemos uma startup dentro do alambique”, explicou Afonso Takemoto, fundador da Work & Trust.
Whisky e economia capixaba
A iniciativa representa um movimento importante para a economia capixaba. O Espírito Santo já tem tradição na produção de bebidas, mas a entrada em categorias de maior valor agregado abre possibilidades de negócios que vão além do volume de vendas. Um whisky premium permite explorar margens mais elevadas, desenvolver marcas regionais e alcançar consumidores de outras partes do Brasil.
A Work & Trust, criada em 2025 por Afonso Takemoto, aposta justamente nessa estratégia. Entretanto, a escala ainda é pequena, o que torna o lançamento mais relevante como demonstração de potencial do que como expansão expressiva da produção industrial.
O que faz alguém pagar R$ 549 por um whisky capixaba?
A pergunta é inevitável: por que um apreciador gastaria mais de R$ 500 em uma garrafa produzida no Espírito Santo quando pode escolher entre marcas escocesas consagradas? A resposta que a Work & Trust oferece está na combinação entre envelhecimento, qualidade, origem, bem como exclusividade.
Takemoto explica um pouco da experiência japonesa na produção de whiskies de alto padrão. O que pode ser um exemplo para a indústria local. “Em 2010 eles produziam só para consumo local. Em 2013 inscreveram o produto deles em um concurso internacional e foram eleitos o melhor whisky do mundo naquele ano. O consumo e a demanda explodiram, mas a produção não consegue acompanhar. Eles criaram um produto de alto valor. Como nossa produção aqui é pequena, de um barril por vez (cerca de 300 garrafas) quando tivermos o resultado do concurso não teremos produto para vender”, explicou.
A empresa já conseguiu uma primeira resposta do mercado. Segundo a Work & Trust, suas quatro edições anteriores se esgotaram rapidamente, sinal de que existe demanda por rótulos brasileiros de perfil mais sofisticado.
A estratégia combina identidade regional com uma apresentação voltada ao mercado nacional. Esse posicionamento pode abrir espaço para outros produtores capixabas investirem em bebidas de maior valor agregado, em vez de competir apenas por preço.
E já existe um movimento de Takemoto com algumas cervejarias. Afinal, o malte do whisky é o mesmo da cerveja. Os processos é que precisam ser diferentes. “Já estou em contato com a Três Santas, de Santa Teresa, e com a Três Torres, de João Neiva. São algumas das melhores cervejarias do Estado. Essa conexão pode gerar bons destilados no futuro”.
O desafio agora será comprovar que o valor cobrado corresponde à experiência entregue ao consumidor. Afinal, R$ 549 é suficiente para comprar whiskies importados de marcas reconhecidas, com décadas de tradição e distribuição internacional.
A Work & Trust precisará sustentar sua proposta com avaliações independentes, consistência de qualidade e capacidade de conquistar novos compradores. Se conseguir, o Espírito Santo poderá fortalecer sua presença em um segmento no qual reputação e diferenciação são tão importantes quanto a capacidade industrial. O indicador mais relevante virá das próximas edições: saber se a demanda por whisky premium capixaba será suficiente para transformar um produto de nicho em um negócio duradouro.
Fonte: Folha Vitoria