A Dyson, conhecida por aspiradores, secadores de mãos e aparelhos para cabelos, resolveu entrar em um território inesperado: a nossa boca. E entrou fazendo barulho.
A nova Dyson CameraJet custa cerca de US$ 500 e parece saída de um filme de ficção científica. Ela tem uma pequena câmera, inteligência artificial, escovação elétrica e um sistema que identifica os espaços entre os dentes e dispara automaticamente um jato de líquido nessas regiões. As imagens ainda podem ser acompanhadas pelo celular. Dyson
É impressionante? Muito. Mas aqui começa a parte menos tecnológica — e mais importante.
Uma tecnologia impressionante não é, necessariamente, uma tecnologia necessária.
Como funciona a nova escova?
A ideia da Dyson é interessante justamente porque tenta resolver um problema real: muita gente escova os dentes, mas negligencia a limpeza entre eles. Então, em vez de tentar criar um novo hábito, a empresa incorporou essa etapa a um hábito já estabelecido. A câmera identifica os espaços interdentais e o aparelho direciona um jato de líquido enquanto a pessoa escova. Dyson
Mas isso significa que podemos finalmente aposentar o fio dental? Não tão rápido.
A própria existência de um jato direcionado não significa automaticamente que ele seja equivalente ao fio dental para todas as pessoas e todas as situações clínicas. Espaços interdentais variam, assim como posição dos dentes, presença de restaurações, implantes, próteses, aparelhos ortodônticos e, principalmente, a condição periodontal. O melhor método de higiene interdental continua dependendo de cada caso.
A tecnologia substitui o fio dental?
A Dyson apresenta resultados clínicos favoráveis para sua tecnologia, inclusive em saúde gengival, mas algumas comparações divulgadas pela própria empresa são feitas em relação à escova manual. Isso é diferente de demonstrar que o sistema substitui, com benefício equivalente ou superior, o fio dental ou outros dispositivos interdentais nas diferentes condições clínicas. Dyson
E essa distinção é importante.
Na saúde, a pergunta não deveria ser apenas “o que essa tecnologia consegue fazer?”, mas “isso melhora um desfecho importante para o paciente quando comparado ao que já fazemos?”
Câmera, inteligência artificial e 16 milhões de linhas de código são fascinantes. Mas dentes e gengivas mais saudáveis não são medidos em quantidade de tecnologia. São medidos em saúde.
O que ainda falta saber sobre a CameraJet?
Talvez a CameraJet seja o começo de uma nova maneira de fazer higiene bucal. Talvez se torne uma excelente ferramenta para determinados pacientes. E talvez seja apenas uma engenhoca extraordinariamente sofisticada para executar algo que métodos muito mais simples já fazem bem. Ainda é cedo para saber.
Por enquanto, até termos estudos científicos independentes que demonstrem uma eficiência superior e a segurança dessa escova, minha recomendação é bem menos futurista e muito mais barata: uma boa escova macia, creme dental fluoretado e limpeza interdental adequada com fio dental diariamente. Isso porque a escova limpa as superfícies dos dentes. O fio dental chega justamente onde as cerdas não conseguem chegar adequadamente: entre um dente e outro e junto à margem gengival onde a escova não chega.
Porque, em saúde, “mais tecnológico” não significa automaticamente “mais saudável”.
A escova do futuro pode até enxergar onde precisa limpar.
Mas, por enquanto, ela não aposentou o fio dental.
E talvez essa seja a parte mais interessante de toda essa história: a tecnologia pode mudar a maneira como fazemos as coisas. A ciência é que precisa mostrar se ela realmente as faz melhor.
Folha Vitória