Na quinta-feira, as mensagens começaram a chegar. “Raigna, você viu? O FDA aprovou testosterona para mulher!”
Paciente, amiga, colega, médico repostando nos stories. Todo mundo com a mesma
Amy Swan tem 55 anos, é designer gráfica perto de Boston. Em março, tentou aviar a primeira receita de testosterona da vida dela. Levou semanas para achar uma farmácia que conseguisse atender a receita e fracionar a dose. Nas palavras dela: horas da minha vida perdidas só para conseguir isso.
O gel na bisnaga dela é aprovado para homens. Ela usa uma fração da dose masculina, prescrita fora da indicação aprovada.
Não existe produto feminino aprovado nos Estados Unidos, nem no Brasil. No mundo inteiro, só a Austrália tem, desde 2020.
A notícia não era uma aprovação.
E o contrário é mais importante.
Preciso dizer isso agora, porque muda o peso do que vem a seguir.
Eu manipulo testosterona transdérmica para mulher há muitos anos. Não vou fingir que não tenho interesse no assunto.
É justamente por isso que eu sei exatamente onde está o problema, e por que o FDA ainda não conseguiu resolvê-lo.
O que aconteceu de fato na quinta
Em 17 de setembro de 2026, o FDA realizou um encontro público de um dia inteiro, chamado “Uso de Testosterona em Mulheres na Menopausa”. A consulta pública ficará aberta para comentários até 19 de outubro de 2026.
A frase oficial da agência foi esta: não existe terapia de testosterona aprovada pelo FDA para mulheres, apesar de anos de uso fora da indicação.
Para homens, a história é outra: existem produtos aprovados há décadas, e em 2025 o FDA até removeu a tarja de risco cardiovascular dos géis masculinos.
Agora, a agência pediu aos fabricantes que apresentem estudos capazes de sustentar uma aprovação futura. E o porta-voz foi direto: os usos atuais não foram avaliados pela agência quanto a segurança, eficácia ou dose.
Centenas de mulheres enviaram comentários públicos relatando melhora de libido e de energia.
Mas relato não é aprovação.
O número que explica o caos
Enquanto o FDA debatia, as prescrições de testosterona para mulheres nos Estados Unidos dispararam.
Uma análise da Truveta feita para a Reuters, acompanhando os dados de janeiro de 2023 a julho de 2026, encontrou um salto de 146%, quase o triplo.
E as farmácias começaram a recusar.
Porque a receita pede uma fração de um produto feito para homem, e o farmacêutico não tem como garantir a dose.
A CNN reportou que mulheres estão dividindo gel masculino em casa, muitas vezes em doses muito maiores do que as que buscam.
Uma das maiores farmácias online dos Estados Unidos se recusou a aviar receita que exigia que a própria paciente ajustasse a quantidade.
Em 2004, a Procter & Gamble chegou ao FDA com o Intrinsa, um adesivo de testosterona desenvolvido especificamente para mulheres com desejo sexual reduzido após menopausa cirúrgica.
O painel consultivo da agência considerou o produto eficaz. E mesmo assim votou, por unanimidade, contra a aprovação: faltavam dados de segurança de longo prazo, principalmente sobre risco cardiovascular.
A Europa aprovou o Intrinsa em 2006. A empresa tentou ampliar a indicação para a menopausa natural. A reguladora europeia recusou por dados insuficientes.
Em 2012, com vendas baixas, o produto saiu do mercado.
Em 2011, a BioSante chegou com o LibiGel, um gel a 1%. Foi eficaz no estudo menor. Falhou no estudo de larga escala: o placebo melhorou quase tanto quanto a droga.
Duas tentativas. Dois fracassos.
Um por segurança, um por eficácia.
Ao todo, o FDA analisou testosterona para mulher quatro vezes ao longo dessas duas décadas, e nunca aprovou.
O único país do mundo com testosterona aprovada para mulher é a Austrália. O AndroFeme, um creme a 1%, foi aprovado pela agência reguladora australiana em novembro de 2020.
Por que a indústria não insistiu mais?
Parte da resposta está na química: a testosterona é um hormônio natural, não patenteável. Produto sem patente exclusiva atrai pouco investimento.
Ninguém gasta centenas de milhões num estudo de larga escala para um produto que o concorrente pode copiar no dia seguinte.
O que a ciência sustenta, e o que não sustenta
Antes de falar do Brasil, é preciso ser honesta sobre o que está provado.
A indicação de testosterona para mulheres com o melhor respaldo científico é uma só: o desejo sexual reduzido na pós-menopausa, por via transdérmica, na dose de cerca de um décimo da masculina.
Já escrevi aqui sobre o climatério e sobre o que começa a mudar nos hormônios muito antes da menopausa.
O consenso global assinado por 11 sociedades científicas, incluindo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia, confirma isso.
Para os outros usos que viralizam nas redes, energia, massa muscular, humor, disposição, os sinais existem, mas ainda falta o estudo grande com resultado clínico.
E é honesto dizer: a diretora do centro de saúde da mulher da Mayo Clinic afirmou que não há evidência de que a testosterona melhore massa muscular, densidade óssea ou humor na mulher.
O que o marketing promete não é o que os dados mostram.
E aqui está o nó: as sociedades médicas do mundo inteiro dizem que, na falta de produto feminino aprovado, se use o masculino em fração.
É exatamente essa fração que a farmácia americana não consegue garantir.
A solução que o Brasil tem e o mundo não
Em 2022, a FEBRASGO publicou um posicionamento oficial sobre testosterona em mulheres.
A frase é direta: os produtos de testosterona aprovados para homens são fortemente desaconselhados para mulheres no climatério.
O motivo: os níveis femininos são cerca de 10% dos masculinos, e o risco de dose alta demais, com efeitos adversos, alguns irreversíveis, é real.
E aí a FEBRASGO nomeia a alternativa, com todas as letras: como alternativa, testosterona a 1% em creme ou gel de alta absorção, preparada em farmácias de manipulação para uso transdérmico, tem sido prescrita.
A maior sociedade médica de ginecologia do Brasil, nomeando a manipulação como caminho.
Enquanto a mulher de Boston divide gel de homem na pia do banheiro, a mulher de Vitória sai da farmácia com a fórmula na dose dela.
Porque aqui a farmácia compra a testosterona como matéria-prima, com laudo de qualidade. Escolhe o veículo transdérmico adequado, seja o gel alcoólico, que é o mesmo tipo de base dos géis masculinos de referência, seja uma base de alta permeação.
E prepara a concentração exata que o médico prescreveu, na dose de mulher.
Fracionar dose, adaptar via, adaptar a forma do medicamento: isso é rotina diária aqui, para dezenas de medicamentos, sob norma da Anvisa desde o ano 2000.
As resoluções de 2000 e de 2007 definem as boas práticas de manipulação no Brasil, com controle de qualidade, farmacêutico responsável técnico e rastreabilidade de cada lote.
Nos Estados Unidos, a manipulação de hormônios existe, mas opera num ambiente hostil. O FDA já tentou restringir hormônios manipulados em 2008 e em 2018, e em dezembro de 2025 voltou a discutir colocar a testosterona numa lista de manipulação restrita.
Lá, o gel manipulado custa cerca de três vezes mais que o comercial masculino, quase nenhum plano de saúde cobre testosterona para mulher, e as grandes farmácias simplesmente recusam.
Não é que nos Estados Unidos não exista manipulação.
É que no Brasil ela é integrada, regulada, acessível e cotidiana de um jeito que não se repete em nenhum outro lugar do mundo.
A crítica honesta, porque ela existe: um relatório da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, de 2020, apontou variabilidade de qualidade e falta de padronização nos manipulados de lá.
Por isso a sua defesa, aqui, é a mesma que eu já expliquei na minha coluna sobre testosterona feminina: pedir o laudo do insumo, conferir se há farmacêutico responsável técnico, checar se a farmácia tem equipamento para homogeneizar o gel e um dispensador que entrega a mesma dose a cada aplicação.
A dose: o número que o mundo ainda erra
Até o único produto aprovado no planeta pode ser alto demais para algumas mulheres.
O adesivo Intrinsa, considerado eficaz pelo próprio painel do FDA em 2004, entregava 0,3 miligrama de testosterona por dia.
O creme australiano entrega 5 miligramas.
Um estudo de farmacocinética publicado em 2014 mostrou que essa dose de 5 miligramas leva a testosterona de mulheres na pós-menopausa para acima da faixa da mulher jovem.
A faixa eficaz documentada vai de 0,3 a 5 miligramas por dia, e o único produto aprovado no mundo está no teto dessa faixa.
Para muitas mulheres, a dose certa é bem menor.
E só a manipulação chega lá, porque só ela faz a dose sob medida.
E tem a confusão de unidade que ainda acontece no consultório: 1 miligrama por grama de gel não é 1%. É 0,1%.
A conta é direta: 10 miligramas por grama é que equivalem a 1%.
Quem confunde as duas notações multiplica a dose por dez.
Se a sua receita traz 2%, 3% ou 5%, vale confirmar com um profissional que domine a conversão.
Não para mudar nada por conta própria.
Para ter clareza do que está sendo reposto no seu corpo.
A prova de que a ciência vai atrás do que o Brasil já faz
Em fevereiro de 2026, uma universidade americana registrou um ensaio clínico duplo-cego, controlado por placebo, para testar um gel transdérmico de testosterona manipulado e padronizado em mulheres na perimenopausa e na pós-menopausa.
O motivo declarado pelos próprios pesquisadores: suprir a falta de opções aprovadas pelo FDA.
Ou seja: o que a universidade americana vai testar para preencher o vazio regulatório de lá é a fórmula magistral.
Exatamente o que o Brasil faz há décadas.
Quatro freios, porque honestidade é a régua da casa.
Não significa que a manipulação provou o que a indústria não provou. A evidência de eficácia é a mesma, e aponta para uma indicação sólida: o desejo sexual na pós-menopausa.
O que a manipulação resolve é a dose e a via, não a prova clínica.
Não significa que qualquer farmácia faz bem. A transdérmica precisa ser bem feita, como já expliquei: testosterona isomolecular, micronizada, dispersão homogênea no gel e embalagem dosadora.
Não significa chip. O implante subcutâneo é outra conversa, com outra regulação e outros riscos, que eu já tratei na minha coluna sobre testosterona feminina. O próprio documento do FDA critica os implantes por gerarem níveis altos demais.
E não significa que a mulher decide sozinha.
A indicação é médica, o diagnóstico é clínico, e o exame de sangue não define deficiência na mulher.
O médico é o condutor, e é imprescindível.
A bisnaga que rodou nas redes na quinta-feira não era uma vitória.
Era a prova de um vazio de vinte anos, que o FDA admitiu em público em 17 de setembro de 2026.
E enquanto eles abrem consulta, convocam fabricantes e registram ensaios com gel manipulado, eu sigo fazendo, na minha bancada, o que faço há décadas: a dose dela, não a dele.
Testosterona não é hormônio de homem.
E dose é conta individual, medida, feita para cada mulher.
Quem estuda pouco prescreve muito.
Quem estuda muito prescreve pouco.
FDA. Public Meeting: Testosterone Use in Menopausal Women. 17 de setembro de 2026.
CNN. Reportagem sobre prescrições de testosterona para mulheres nos Estados Unidos. 17 de setembro de 2026.
DAVIS, Susan R. et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2019.
NÁCUL, Andrea Prestes et al. Use of androgens at different stages of life: climacterium. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 2022.
Folha Vitória