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LinkedIn: quando uma IA escreve e outra lê o seu perfil

A Inteligência Artificial já atua dos dois lados do recrutamento

Por Redação em 27/09/2026 às 09:00:20
Imagem gerada por IA

Imagem gerada por IA

No mês passado, escrevi nesta coluna sobre candidatos eliminados por sistemas de recrutamento antes de conseguirem falar com alguém. Terminei recomendando o LinkedIn e as redes de contatos como alternativas às candidaturas lançadas em plataformas automatizadas, as chamadas RHTechs. A recomendação permanece válida, mas hoje exige uma ressalva, já que o próprio LinkedIn passou a usar Inteligência Artificial também do lado de quem procura profissionais.

A rede é muito útil para descobrir quem trabalha numa empresa, acompanhar pessoas de uma área, procurar vagas e estabelecer contatos que dificilmente surgiriam fora dali. Em 10 de setembro, a comunidade oficial do LinkedIn já informava que o Hiring Assistant estava disponível em português. A Central de Ajuda lista hoje o português entre os sete idiomas aceitos e informa que a liberação do recurso ocorre de forma gradual.

Alguns assinantes Premium também dispõem de assistência de escrita para o título, a seção “Sobre” e as experiências profissionais. Na descrição de uma experiência, o recurso pode ser acionado depois de pelo menos 20 palavras.

A mesma rede oferece IA para quem se apresenta e para quem procura profissionais.

Quando IA avalia textos de IA

Um estudo publicado na EAAMO de 2025 examinou um risco desse encontro. Os pesquisadores compararam currículos escritos humanamente a versões produzidas por diferentes IAs e depois também utilizaram outras IAs como avaliadoras.

Mesmo controlando a qualidade do conteúdo, encontraram o chamado “viés de autopreferência”. Em simulações envolvendo 24 profissões, candidatos que utilizaram a mesma IA empregada na avaliação tiveram entre 23% e 60% mais probabilidade de chegar à pré-seleção do que candidatos igualmente qualificados com currículos escritos por humanos.

O estudo não analisou o LinkedIn, e seria errado concluir que escrever um perfil com o ChatGPT ofereça vantagens no Hiring Assistant.

A própria documentação do LinkedIn não permite atribuir cada etapa do Hiring Assistant a um único tipo de IA com segurança. Na lista de LLMs desse documento, a empresa informa que a entrada dos requisitos e a busca utilizam a OpenAI, enquanto o resumo dos candidatos fica a cargo de um modelo interno.

O diagrama de fluxo do mesmo documento, porém, mostra modelos da OpenAI, acessados pelo Azure, e modelos do próprio LinkedIn combinados nos quatro subagentes do sistema. A empresa ressalva ainda que esse diagrama representa apenas o fluxo em inglês americano. Para o funcionamento em português, a arquitetura não é detalhada publicamente.

A autopreferência, caso ocorra ali, dependeria da etapa e do modelo usados em cada tarefa. Não encontrei nos materiais públicos consultados um teste específico para o fenômeno descrito pelo estudo de 2025.

Segundo o LinkedIn, cada IA passa por avaliações de justiça e viés. Quando surgem sinais de problema, a equipe investiga e pode treinar novamente o LLM ou reduzir o seu uso. É um controle interno descrito pela própria empresa, sem resultados de auditoria independente publicados nessa documentação.

Palavras-chave ainda contam

A busca semântica não tornou inúteis as palavras-chave. O Recrutador continua a permitir filtros e buscas booleanas (técnica que usa palavras-chave combinadas com E, OU, NÃO para refinar, restringir ou ampliar os resultados), inclusive sem assistência de IA, ao mesmo tempo que acrescenta recursos capazes de interpretar qualificações em linguagem natural.

Para quem preenche o perfil, isso muda sobretudo a forma de usar essas palavras. Faz sentido escolher termos que correspondam ao trabalho realizado e às competências desenvolvidas. Repeti-los em excesso tende a acrescentar pouco. O próprio LinkedIn informa que adicionar mais palavras-chave não melhora automaticamente a posição nos resultados e alerta que perfis excessivamente otimizados podem ser afetados pelos sistemas de detecção de spam.

A IA pode ajudar quem trabalha noutra língua ou tem dificuldade para organizar por escrito a própria trajetória profissional. Uma ferramenta pode tornar a descrição mais clara sem acrescentar competências ou resultados que nunca existiram.

Quem aparece ao recrutador

O LinkedIn afirma que o Hiring Assistant não elimina candidatos nem toma decisões de contratação. O recrutador continua responsável por decidir quem avança no processo.

Antes dessa decisão, o sistema participa da seleção do que o recrutador verá. Faz buscas e analisa candidatos para entregar uma lista curta resumida de acordo com os critérios definidos para a vaga. A própria empresa apresenta o produto como capaz de encontrar profissionais que poderiam passar despercebidos numa busca convencional.

Isso também corrige uma imprecisão da minha coluna de agosto. Naquele texto, escrevi que o candidato deveria pedir revisão de qualquer decisão tomada por algoritmo. O art. 20 da LGPD é mais restrito. O direito de revisão vale para decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado de dados pessoais e que afetem os interesses do titular.

Se o controlador se recusar a fornecer informações sobre os critérios utilizados alegando segredo comercial ou industrial, o § 2º permite que a Agência Nacional de Proteção de Dados realize auditoria para verificar aspectos discriminatórios no tratamento automatizado. A lei não diz que um eventual viés de autopreferência entre modelos se enquadraria necessariamente nessa hipótese.

O custo de se opor ao tratamento

Há uma informação pouco divulgada que interessa diretamente ao candidato. Onde a legislação assegura esse direito, o LinkedIn permite que o membro se oponha ao uso dos seus dados pelos agentes de IA destinados ao recrutamento.

A empresa também informa o efeito dessa escolha. Quem se opõe ao tratamento pode aparecer em posição inferior nas buscas dos recrutadores, o que pode afetar as oportunidades apresentadas pela plataforma. O perfil ainda poderá surgir em pesquisas que não utilizem esses agentes, e a pessoa continuará a poder candidatar-se normalmente às vagas publicadas no LinkedIn.

Há ainda dados que o candidato não vê no próprio perfil. O Hiring Assistant pode considerar anotações de recrutamento feitas pelo cliente. A documentação técnica informa que essas notas não são compartilhadas diretamente com os membros e orienta quem quiser acessá-las a pedi-las à organização que utiliza o produto.

Essas informações ampliam a discussão para além do uso de IA na redação de um perfil. O LinkedIn também utiliza sistemas automatizados para identificar quais profissionais correspondem melhor aos critérios definidos pelos recrutadores e organizar a forma como lhes são apresentados.

Para o candidato, vale manter o perfil fiel ao trabalho realizado e usar a IA quando ela ajudar a explicá-lo melhor. Parte dessas informações poderá ser interpretada e ordenada por sistemas antes de chegar ao recrutador.

Pode parecer complicado, mas vale a pena entender o sério funcionamento do LinkedIn e nele investir. Ainda é a rede social mais inteligente, e é nele que o dinheiro está.

Fonte: Folha Vitoria

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