Fala de Lorenzo Pazolini durante debate sobre segurança pública coloca trabalhadores e estudantes dos municípios da região metropolitana no mesmo contexto em que citou pessoas que vão à capital para cometer crimes
Durante o debate entre os candidatos ao Governo do Espírito Santo nesta terça-feira, uma fala de Lorenzo Pazolini chamou atenção pela forma como abordou a circulação de moradores da Grande Vitória. Ao responder a um questionamento de Ricardo Ferraço sobre segurança pública, Pazolini afirmou que pessoas de municípios da região passam por Vitória para trabalhar, estudar e também para cometer crimes. Ao colocar essas situações na mesma construção, a declaração abriu questionamentos sobre a maneira como moradores de Cariacica, Vila Velha, Serra, Viana e outras cidades da região metropolitana são apresentados quando o assunto é criminalidade.
A Grande Vitória, porém, funciona muito além dos limites administrativos de cada município. Todos os dias, milhares de trabalhadores e estudantes atravessam essas cidades para chegar ao emprego, à universidade, aos hospitais, ao comércio e aos serviços. O trabalhador de Cariacica que segue para Vitória, o estudante de Viana que precisa atravessar municípios para estudar, o profissional da Serra que trabalha em Vila Velha ou o morador de Vila Velha que utiliza serviços da capital fazem parte de uma mesma dinâmica econômica e social. Esse deslocamento não é uma exceção, mas uma característica da própria região metropolitana.
É evidente que criminosos também podem utilizar essa integração territorial para se deslocar, e combater organizações criminosas exige integração entre as forças de segurança, inteligência, investigação e compartilhamento de informações. Mas existe uma diferença importante entre identificar a mobilidade do crime e colocar o fluxo cotidiano de milhões de cidadãos dentro da mesma narrativa. Segurança pública deve identificar quem pratica crimes e como essas organizações atuam, não transformar o município onde uma pessoa mora em elemento de suspeição.
A declaração ganha ainda mais peso porque Pazolini está disputa pelo Governo do Espírito Santo, cargo que envolve políticas públicas para os 78 municípios capixabas. Quem pretende governar o Estado precisa compreender uma região metropolitana em que Vitória depende diariamente da força de trabalho, do consumo e da circulação de moradores de Cariacica, Vila Velha, Serra, Viana e outras cidades.
A capital não funciona isoladamente, e tratar seus vizinhos como origem de problemas sem separar claramente criminosos de trabalhadores e estudantes produz uma leitura que pode atingir justamente quem mantém essa engrenagem funcionando.
O debate sobre segurança precisa ser firme, mas também precisa ser responsável. O crime não respeita divisas municipais, mas o trabalhador também não, o estudante também não, o paciente também não e as famílias também não.
A Grande Vitória é uma região integrada, e o desafio de quem pretende governá-la é enfrentar a criminalidade sem transformar a população que circula diariamente entre seus municípios em parte do problema. É essa distinção que a fala de Pazolini deixou em aberto e que agora merece ser discutida pelos eleitores.
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