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‘Filha de aluguel’: Motorista de app cria serviço para quem precisa de companhia

Uma publicitária e motorista de aplicativo de Vitória encontrou uma maneira diferente de transformar as histórias que ouvia durante as corridas em uma nova oportunidade de trabalho. Aos 4


Foto: Divulgação Companhia para consultas, compras e até um café Luciana faz questão de explicar que não é cuidadora de idosos. O trabalho consiste em acompanhar a pessoa e oferecer suporte durante um

Uma publicitária e motorista de aplicativo de Vitória encontrou uma maneira diferente de transformar as histórias que ouvia durante as corridas em uma nova oportunidade de trabalho. Aos 49 anos, Luciana Moulin criou há cerca de dois meses um serviço que chama de “filha de aluguel”, oferecendo companhia e ajuda prática para pessoas que precisam de alguém ao lado em determinadas situações.

Apesar do nome, o serviço não é exclusivo para idosos e também não funciona como cuidadoria. A proposta é acompanhar pessoas de qualquer idade que, por algum motivo, precisam de companhia para realizar uma atividade, ir a algum lugar ou cumprir uma tarefa.

Luciana é publicitária e trabalha com planejamento de redes sociais. Em conversa com o Sim Notícias, ela contou que, com o avanço da inteligência artificial, a pequena empresa que mantém passou a ter dificuldades para gerar renda suficiente para pagar as contas. Foi então que começou a trabalhar como motorista de aplicativo.

Durante as corridas, ela passou a prestar atenção nas histórias dos passageiros e percebeu que muitas pessoas precisavam de alguém para acompanhá-las em situações do dia a dia.

Em um dos casos, uma passageira contou que havia precisado remarcar um exame pela segunda vez porque o filho não conseguia liberação do trabalho para acompanhá-la.

Em outra viagem, uma mulher relatou que a mãe idosa precisaria viajar de trem para Minas Gerais. A filha teria que mudar a própria rotina para levá-la bem cedo até a estação e também estava preocupada em deixar a mãe pegar uma corrida de aplicativo sozinha, principalmente porque ela estaria com muitas bagagens.

Ao ouvir relatos como esses com frequência, Luciana percebeu que existia uma demanda que ia muito além do transporte.

E não eram apenas os idosos que precisavam de ajuda. Ela conta que também começou a atender pessoas mais jovens, como estudantes que vieram do interior para morar em Vitória, não têm familiares na cidade e precisam de acompanhante para determinados exames.

Em alguns desses casos, o paciente precisa tomar uma medicação que pode deixá-lo sonolento, tornando necessária a presença de outra pessoa.

A ideia de oferecer o serviço surgiu depois que uma amiga contou a Luciana sobre um motorista de aplicativo de São Paulo que fazia algo parecido. Ela pesquisou e descobriu que serviços de companhia são mais comuns em países como Japão e Estados Unidos, especialmente no Japão, onde há muitas pessoas idosas e também pessoas de diferentes idades que vivem sozinhas.

Foi então que decidiu tentar.

Luciana colocou um cartaz no banco do carro, onde continuava trabalhando como motorista de aplicativo. Os passageiros começaram a perguntar o que era aquele serviço e, aos poucos, os primeiros clientes apareceram.

Companhia para consultas, compras e até um café

Luciana faz questão de explicar que não é cuidadora de idosos. O trabalho consiste em acompanhar a pessoa e oferecer suporte durante uma atividade, mas não envolve cuidar de pacientes ou transportar pessoas enfermas.

“É um serviço para uma pessoa de qualquer idade que por algum motivo precisa ter um acompanhante. Ou pq ela precisa de uma companhia para tomar um café, ou porque é obrigatório ter um acompanhante como exames médicos. E existe milhares de motivos para essas pessoas me contratarem. Às vezes familiares não podem se ausentar do trabalho para as acompanhar, ou mora sozinho e não tem ninguém para dar um suporte em determinada situação. E às vezes são pessoas que não querem incomodar ninguém, são pessoas independentes, que não gostam de incomodar. Não é cuidador, é um serviço de companhia.”

Entre os pedidos mais comuns estão acompanhamentos para consultas e exames, compras e idas ao banco. Mas o trabalho também pode envolver levar alguém ao aeroporto ou à rodoviária, acompanhar uma pessoa em uma aula de pilates ou simplesmente fazer companhia para tomar um café.

Segundo Luciana, alguns clientes já se tornaram fixos. Eles enviam uma agenda com compromissos e ela organiza a rotina para acompanhá-los.

Ela também percebe que muitos idosos gostam da possibilidade de ter um contato de confiança para situações em que não se sentem confortáveis usando aplicativos de transporte.

Segundo os relatos que recebe, alguns têm dificuldade para mexer no celular ou para solicitar uma corrida. Outros reclamam que motoristas não têm paciência para esperar, deixam o passageiro em locais inadequados ou cancelam a corrida quando percebem que a pessoa está com muitas compras. Com o tempo, a relação com alguns clientes acabou indo além do serviço.

“Eu sou filha de aluguel e elas viraram minhas mães”, conta Luciana.

Casos inusitados e emocionantes

As situações que aparecem no dia a dia são variadas e, segundo Luciana, cada nova experiência ajuda a ampliar o número de pessoas que procuram o serviço.Uma das histórias que mais a emocionou aconteceu com uma cliente de São Paulo. A mãe delahavia perdido recentemente o marido, com quem viveu por mais de 50 anos. Ele era quem cuidava dos detalhes das viagens do casal, como fazer o check-in e despachar as bagagens.

Segundo Luciana, a mulher viajaria sozinha de avião pela primeira vez para sair do Espírito Santo e visitar a filha na capital paulista. Preocupada, a mulher procurou Luciana, mas queria evitar que a mãe sentisse que estava sendo tratada como alguém incapaz de viajar sozinha.

Luciana foi contratada para acompanhá-la até o aeroporto e ajudá-la nos procedimentos. Ela conversou com a idosa, ajudou com as bagagens, acompanhou o embarque e até insistiu para que ela comesse um sanduíche antes da viagem.

Na hora da despedida, a mulher percebeu que Luciana havia ficado ao lado dela durante todo aquele tempo por pedido da filha.

“Negociei tudo direitinho, conversei com ela, ela me contou a história toda dela e daí quando ela foi embarcar ela falou: você ficou aqui até agora só porque minha filha te pediu, né? Mas pode deixar que não vou contar pra ela não. Achei muito fofo, me emocionou e foi uma das mais diferentes que vivi até agora.”

Serviço ainda é uma renda extra

Luciana conta que o serviço começou há cerca de dois meses e se espalhou principalmente pelo boca a boca. A notícia chegou até mesmo a pessoas de fora do país. Mas, por enquanto, ela ainda não consegue viver apenas da atividade.

“Ainda não dá pra viver só disso, mas eu amo, é minha terapia.”

O valor cobrado depende do trajeto e do tempo que Luciana ficará à disposição do cliente. Ela faz uma simulação considerando o valor indicado pelo aplicativo de transporte e acrescenta uma quantia pelo período em que permanecerá acompanhando a pessoa.

Alguns clientes também já fecharam pacotes para acompanhamentos recorrentes.

Quem quiser contratar o serviço de “filha de aluguel” pode entrar em contato diretamente com Luciana pelo WhatsApp: (27) 99909-7069.

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