Um anúncio de vaga de emprego publicado por um restaurante de São Paulo viralizou nas redes sociais ao dizer que procurava pessoas capazes de fazer “o básico”. Em tom irônico, a publicação listava entre as exigências “fazer o horário [de trabalho] inteiro”, “não desaparecer no meio do expediente”, “tratar colegas e clientes como gente”, e até “trabalhar durante o horário de trabalho”.
A publicação provocou reações justamente porque listava como exigências comportamentos que, em tese, já deveriam fazer parte de qualquer relação profissional. Mas por que empresas passaram a explicitar esse tipo de requisito, mesmo que em tom de “brincadeira”? E o que está por trás das reclamações sobre dificuldade para contratar e manter trabalhadores?
O debate tem pelo menos dois lados. De um, empresários relatam mudanças no comportamento e nas expectativas dos profissionais. De outro, representantes dos trabalhadores afirmam que as próprias empresas contribuem para o problema ao oferecer condições pouco atrativas, excesso de cobrança e poucos benefícios.
Para entender esse conflito, a reportagem do Folha Vitória ouviu representantes dos setores patronal e dos trabalhadores e uma consultora de desenvolvimento organizacional.
Mudança pode ser uma questão geracional?
A dificuldade para contratar e manter profissionais é apontada pelo setor empresarial como um dos principais desafios atuais. Segundo Rodrigo Vervloet, presidente do Sindicato dos Restaurantes, Bares e Similares do Espírito Santo (Sindbares/Abrasel-ES), encontrar trabalhadores para determinadas funções tem sido uma dificuldade recorrente, assim como encontrar profissionais qualificados.
Ele afirma que o cenário não é exclusivo dos bares e restaurantes do Espírito Santo e está relacionado a transformações mais amplas no mercado de trabalho. No setor de alimentação, porém, o impacto é maior porque se trata de uma atividade intensiva em mão de obra e com uma dinâmica própria de funcionamento.
É preciso considerar também as expectativas de uma nova geração de trabalhadores e as transformações do próprio mercado. O desafio é alinhar expectativas com a realidade das empresas, modernizando as relações de trabalho e tornando o emprego formal atrativo para os dois lados.
Rodrigo Vervloet, presidente do Sindbares/Abrasel-ES
Para a consultora de desenvolvimento organizacional Roberta Kato, a necessidade de transformar pontualidade, responsabilidade e cumprimento de acordos em requisitos explícitos revela que houve uma mudança no que antes se considerava essencial.
“Quando uma empresa precisa exigir pontualidade e responsabilidade, isso mostra que aquilo que antes era pressuposto deixou de ser. Vejo mudanças entre gerações, maior conhecimento sobre direitos e novas expectativas transformando a relação de trabalho. Com a flexibilização das relações, esses códigos profissionais ficaram menos claros, e as empresas passaram a explicitar suas expectativas. Nesse contexto, até o óbvio precisa ser dito”, explica Roberta.
A especialista também aponta uma mudança na maneira como parte dos trabalhadores enxerga a própria relação com as empresas. Segundo ela, o emprego deixou de ocupar, em muitos casos, um lugar tão central na identidade das pessoas quanto ocupava no passado.
Essa mudança ajuda a entender por que comportamentos antes considerados essenciais para permanecer em uma organização podem deixar de ter o mesmo peso para parte dos profissionais.
A pandemia também faz parte desse contexto, especialmente em setores que perderam trabalhadores durante o período e tiveram profissionais migrando para outras atividades ou para a informalidade.
No setor de bares e restaurantes, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Bares, Restaurantes e Similares do Espírito Santo (Sintrabares), Paulo Nascimento, afirma que os efeitos da pandemia ainda são sentidos.
Segundo ele, cerca de metade dos trabalhadores do segmento foi dispensada durante a crise, e muitos passaram quase dois anos afastados do mercado formal.
Garçom virou ‘Uber’, cozinheiras começaram a fazer marmitas, bolos, doces em casa e não retornaram para o mercado formal. Isso foi uma das consequências da pandemia para o setor.
Paulo Nascimento, presidente do Sintrabares
Ele também contesta a ideia de que a dificuldade de contratação possa ser explicada apenas por uma mudança no comportamento dos trabalhadores. Na avaliação dele, empresas precisam observar as condições oferecidas e a forma como tratam suas equipes.
“Ninguém trabalha por esporte. Não acredito que pai ou mãe saia de casa, muitas vezes volte de madrugada, para fazer o básico. A empresa precisa oferecer um ambiente saudável, deixar o trabalhador confortável, humanizar o ambiente, ter menos rigor e mais empatia”, afirma.
Relação precisa ser via de mão dupla
Para Roberta Kato, a cobrança por comportamentos como respeito, responsabilidade e cumprimento de acordos é legítima. O problema aparece quando a empresa exige comprometimento sem avaliar se oferece condições para que ele exista.
Ela defende uma espécie de responsabilidade compartilhada: o comportamento do trabalhador também é influenciado pela cultura da organização, pela liderança e pelo ambiente profissional.
Empresa te contrata por um determinado valor para realizar determinadas entregas e você, em contrapartida, recebe o valor por isso. Quando a organização deixa de entregar o que precisa e o trabalhador também deixa de entregar, começa esse desencontro que está gerando todo esse desgaste.
Roberta Kato, consultora de desenvolvimento organizacional
Rodrigo Vervloet também defende que o setor acompanhe as mudanças na relação com o trabalho. Para ele, não se trata de atribuir a responsabilidade a apenas um dos lados, mas de investir em qualificação, desenvolvimento profissional e melhoria dos processos.
Já Paulo Nascimento aponta como caminhos para a retenção de trabalhadores uma relação mais próxima entre gestores e equipes, diálogo para identificar problemas no ambiente profissional ou na vida pessoal e benefícios capazes de aumentar a permanência, como plano de saúde.
No fim, o “básico” cobrado no anúncio viral revela uma discussão maior: a relação tradicional entre empresa e trabalhador está mudando, e parte dos conflitos surge justamente do desencontro entre o que cada lado espera dessa relação.
Folha Vitória