A mais brasileira das bebidas também pode ser considerada a mais capixaba de todas. E o Espírito Santo tem motivos para comemorar este 13 de setembro, Dia Nacional da Cachaça. O Estado tem a maior presença territorial de estabelecimentos ligados à elaboração de cachaça no país.
Dos 78 municípios capixabas, 41 possuem ao menos um empreendimento registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A atividade alcança 52,6% das cidades, segundo o Anuário da Cachaça 2026, que reúne dados referentes a 2025.
Se, no passado, a cachaça enfrentava preconceito e raramente ocupava espaço entre as bebidas consideradas nobres, hoje a história é diferente. O mercado passou a valorizar processos artesanais, envelhecimento em diferentes madeiras, garrafas exclusivas e produtos destinados a consumidores que buscam maior qualidade.
Cana fresca é aposta de alambique para preservar a qualidade da cachaça
Entre os estabelecimentos que ajudam a construir esse cenário está o Alambique Princesa Isabel, na Fazenda Tupã, em Linhares. O projeto começou em 2005, ganhou uma unidade produtiva em 2011 e passou outros cinco anos em processo de regularização. A formalização da marca e o início da produção ocorreram em 2016.
Desde os primeiros passos, o fundador, Adão Cellia, pretendia produzir uma cachaça reconhecida pela qualidade e colocar o destilado brasileiro em pé de igualdade com bebidas de alto padrão fabricadas em outros países. O nome Princesa Isabel presta uma homenagem à esposa do fundador, Isabel.
O gestor operacional do alambique, Afonso Takemoto, explica que os objetivos definidos por Cellia orientaram as decisões tomadas pela empresa, inclusive a escolha de cultivar a própria matéria-prima.
Uma boa cachaça exige cana-de-açúcar fresca, colhida no mesmo dia. Por isso, a Princesa Isabel sempre trabalhou com matéria-prima de cultivo próprio.
Afonso Takemoto, gestor operacional do Alambique Princesa Isabel
Segundo ele, o tempo gasto no transporte e no armazenamento pode provocar a perda de componentes importantes para a produção. O controle começa na lavoura e segue por todas as etapas, da colheita à destilação.
Premiações colocam cachaça capixaba no radar nacional e internacional
Assim, o investimento em qualidade rendeu premiações e reconhecimentos no Espírito Santo, em concursos nacionais e no exterior.
Entre os reconhecimentos conquistados está o prêmio New Spirits Duplo Ouro, concedido à cachaça Princesa Isabel Nebbiolo no concurso organizado pela Expocachaça. A bebida foi a única cachaça a receber a distinção máxima da competição e, com o resultado, alcançou o reconhecimento de melhor cachaça do Brasil na edição de 2026.
A marca também ampliou a presença comercial e se tornou, segundo Takemoto, a primeira cachaça capixaba comercializada em todos os Estados brasileiros. Ela também alcançou o segmento de bebidas de alto padrão em São Paulo.
Hoje, a empresa também vende para os Estados Unidos, onde possui regularização junto à agência sanitária norte-americana, a FDA, e para países europeus, com presença mais relevante na Inglaterra e na Itália. Agora, trabalha na etapa final de homologação de produtos para entrar na China.
Expansão dobra área de cana e transforma capacidade de produção
O Alambique Princesa Isabel concluiu em 2026 um plano de expansão iniciado no ano anterior. A empresa investiu aproximadamente R$ 3 milhões na ampliação da lavoura e na modernização da unidade produtiva.
Assim, o projeto dobrou a área destinada ao cultivo de cana-de-açúcar. Além disso, a fábrica recebeu novos equipamentos, entre eles uma moenda e um alambique, e ampliou a capacidade dos tanques de fermentação.
Com as mudanças, a capacidade anual de produção passou de 38 mil para 72 mil litros, crescimento de aproximadamente 89,5%. “A nova capacidade não deve permanecer ociosa por muito tempo. Já estamos nos mercados americano e europeu e avançamos no processo de homologação para a China”, afirma Takemoto.
A ampliação ocorre depois de a empresa alcançar seus maiores faturamentos em 2024 e 2025. Em 2026, contudo, o cenário passou a exigir mais cautela. A marca adotou projeções conservadoras e decidiu preservar reservas para enfrentar possíveis turbulências nos próximos anos.
Reforma tributária preocupa produtores de cachaça no Espírito Santo
Entre as principais preocupações do alambique estão os efeitos da reforma tributária. Takemoto afirma que a empresa precisa decidir qual regime adotará sem conhecer todas as alíquotas que incidirão sobre a atividade.
Outro ponto de atenção é o Imposto Seletivo, popularmente conhecido como “imposto do pecado”, previsto para produtos que podem ser prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. Para o gestor, a cobrança pode atingir com força um setor formado por muitos pequenos produtores.
“A cachaça faz parte do patrimônio cultural e histórico brasileiro. Uma tributação seletiva muito elevada pode levar produtores a fechar as portas ou migrar para a informalidade”, avalia.
O endividamento das famílias e das empresas também entrou no radar da destilaria, pois pode reduzir o consumo ou mudar as escolhas dos compradores. Mesmo diante dessas incertezas, Takemoto afirma que a empresa mantém os planos de crescimento apoiados na produção própria, na qualidade e na abertura de mercados internacionais.
ES tem uma cachaçaria para cada 48 mil habitantes, aponta levantamento
A aposta no futuro é acompanhada por outros empresários do setor. O Espírito Santo possui 85 estabelecimentos cadastrados no Mapa. O número inclui produtores, padronizadores, envasadores e atacadistas que mantêm instalações, equipamentos e capacidade técnica para trabalhar com a bebida. Além da presença da atividade em boa parte do território capixaba, o Estado reúne centenas de produtos e marcas.
O Espírito Santo também ocupa a segunda posição nacional na chamada densidade cachaceira. O Estado possui um estabelecimento registrado para cada 48.260 habitantes. Apenas Minas Gerais apresenta uma proporção maior, com uma unidade para cada 37.806 moradores.
São Roque do Canaã se destaca como o principal polo capixaba. O município reúne 13 estabelecimentos, equivalentes a 15,3% do total registrado no Espírito Santo. Dessa forma, ocupa a sexta posição entre as cidades brasileiras com maior número de empreendimentos do setor.
O município também aparece entre os 22 com maior densidade cachaceira do país. São Roque do Canaã possui um estabelecimento para cada 867 habitantes e ocupa o décimo lugar no ranking nacional. É a única cidade capixaba presente na lista.
De Aracruz para o mundo: a história de uma cachaça que nasceu por insistência
Se São Roque do Canaã é o berço da cachaça no Espírito Santo, outros municípios também abraçaram a produção e ajudaram a levar a bebida capixaba para além das fronteiras brasileiras. Em Aracruz, uma história iniciada com inexperiência e um alambique parado por duas décadas deu origem à Dose Clássica.
A trajetória começou em 1980, quando o empresário Ralphe Ferreira Junior, hoje com 64 anos, comprou um alambique de aço inoxidável para produzir a própria cachaça. Sem conhecimento técnico, colocou o caldo de cana diretamente no destilador. Do outro lado, saiu apenas vapor.
Depois de instalar uma serpentina, conseguiu extrair um líquido, mas o resultado ainda estava distante da bebida que pretendia fabricar. Foi então que descobriu que o caldo precisava passar pela fermentação antes de chegar ao alambique.
“Eu nunca tinha feito cachaça, mas tinha vontade de investir na produção. Pensava que era uma coisa fácil e simples, mas vi que dava muito trabalho e exigia muito conhecimento técnico. Por isso, desisti”, conta Ferreira Junior.
O projeto também encontrou resistência. Técnicos visitaram a propriedade no distrito de Santa Cruz, em Aracruz, e avaliaram que o local não produziria uma cachaça de qualidade.
Até meu pai falou para eu esquecer esse negócio. Disse que era melhor comprar a melhor cachaça do mundo, porque fazer uma daria muito trabalho. Mas, como todo bom filho é teimoso, falei que um dia ainda faria.
Ralphe Ferreira Junior, criador da Dose Clássica
Cachaça produzida em Aracruz ganha ouro e título de melhor do mundo
O alambique permaneceu parado durante 20 anos. A história começou a mudar quando um caseiro afirmou que sabia fabricar a bebida e despertou novamente o interesse do empresário. Ferreira Junior comprou fermento, preparou o caldo de cana e retomou a destilação.
Convencido de que finalmente havia produzido sua primeira cachaça, chamou alguns amigos para experimentar o resultado. A degustação, no entanto, não saiu como o planejado.
“Quando cheguei com o garrafão, só ouvia: ‘Que coisa horrível, Ralphe!’”, recorda, aos risos.
Apesar da nova tentativa frustrada, Ferreira Junior decidiu continuar. Os erros mostraram que a produção exigia técnica, estudo e controle de cada etapa.
O empresário aprimorou a fermentação, a destilação e a padronização das receitas. Além disso, o filho, Rodolpho, também passou a participar da fabricação. A produção artesanal ganhou consistência e transformou o antigo projeto em uma marca reconhecida pela qualidade.
As premiações vieram como resultado dessa trajetória. A Dose Clássica conquistou o Duplo Ouro no Concurso Internacional de Bruxelas. Em 2025, a versão Cristal recebeu o Gran Ouro e o título de melhor cachaça da América Latina no Catad’Or World Spirits Awards, no Chile. Já em 2026, a Blend Nº 2 by Nelson Duarte ganhou medalha de ouro e foi eleita a melhor cachaça do mundo no World Drinks Awards, em Londres.
O blend vencedor foi desenvolvido com a orientação do master blender Nelson Duarte. Segundo ele, a fabricação quase manual e o cuidado para manter o mesmo padrão nas receitas estão entre os diferenciais da Dose Clássica.
“Dessa forma, a bebida já sai naturalmente na graduação correta, sem a utilização de água para fazer a diluição. São esses detalhes que fazem a diferença no momento da avaliação”, explica Duarte.
Hoje, Ferreira Junior avalia que o mercado atravessa um bom momento para as cachaças de qualidade. A Dose Clássica planeja ampliar em pelo menos 25% a produção, aumentar o plantio de cana e expandir a presença em São Paulo.
Atualmente, o negócio mantém oito colaboradores e começou a oferecer visitas monitoradas ao alambique. “Queremos que o turista conheça de perto o processo de produção da cachaça, desde o cultivo da cana até a bebida pronta”, afirma.
ES tem 261 cachaças registradas e aposta na diversidade para ganhar mercado
A história da cachaça em terras capixabas é robusta. Os estabelecimentos do Espírito Santo possuem 261 cachaças registradas no Mapa, com média de 3,1 produtos por unidade. Além disso, o Estado ocupa a décima posição nacional em quantidade de registros.
A diversidade encontrada nesses registros aparece na estratégia de empresas que trocaram a produção em grande escala pela criação de pequenos lotes.
Uma delas é a Cachaçaria Santa Terezinha, negócio familiar que transformou a variedade de madeiras, barris e rótulos em um dos principais diferenciais da produção.
Cachaçaria de Marechal Floriano atravessa quatro gerações da família Menegatti
A história da Cachaçaria Santa Terezinha começou em Marechal Floriano. A ideia do negócio surgiu em 1913 com Artêmio Menegatti e o filho Antônio Menegatti. A família, no entanto, considera 1943 como o início oficial da atividade, por ser o ano a partir do qual possui registros que comprovam o funcionamento da empresa.
Atualmente, a cachaçaria está sob a gestão de Adwalter Menegatti e do filho Igor Menegatti, representante da quarta geração da família. Formado em Engenharia Civil e Engenharia de Produção, técnico em Química e mestre em Engenharia Ambiental, Igor atua como diretor de produção, diretor comercial e responsável técnico.
A trajetória da Santa Terezinha apresenta duas fases distintas. Na primeira, conduzida por Antônio, a empresa fabricava grandes volumes e mantinha caminhões para distribuir a bebida em diferentes regiões do país. Após a morte dele, Adwalter assumiu o negócio e mudou o modelo de produção.
Meu pai modificou totalmente o formato. A empresa deixou de vender grandes quantidades e começou a agregar qualidade. Passamos a criar pequenos lotes, personalizações e uma garrafa própria.
Adwalter Menegatti, dono da Cachaçaria Santa Terezinha
Cachaçaria aposta em artistas capixabas para diferenciar seus rótulos
Um dos marcos dessa transformação ocorreu em 1998, quando a cachaçaria lançou a Série Artes. Segundo Menegatti, a garrafa estilizada representou uma novidade para um mercado no qual muitas empresas ainda utilizavam embalagens originalmente destinadas à cerveja.
O primeiro rótulo da série leva a assinatura do artista capixaba Hélio Coelho. A proposta de unir bebida e arte permaneceu nos lançamentos seguintes. Atualmente, todos os rótulos da empresa são assinados por artistas do Espírito Santo.
“A Série Artes marcou o começo da forma como trabalhamos hoje. Ela trouxe uma apresentação diferente, mas preservou um líquido produzido em alambique de cobre, com fermentação em madeira e levedura natural”, afirma.
A linha que começou com uma garrafa passou a reunir entre 60 e 70 rótulos de cachaça. De acordo com Menegatti, a Santa Terezinha possui a maior variedade de rótulos produzidos por uma única destilaria no Brasil. A empresa também fabrica gim, vodca, licores, aperitivos e vermutes.
Cachaçaria do ES usa madeiras e barris de uísque para criar novos sabores
A diversidade nasce principalmente do envelhecimento das bebidas. A cachaçaria trabalha com pequenos volumes armazenados em diferentes tipos de barris. Entre as madeiras brasileiras utilizadas estão roxinho, jatobá, amendoim, sassafrás, jequitibá, amburana, jaqueira e garapa.
Além disso, a produção utiliza carvalho americano e francês, tanto em barris novos quanto em recipientes que antes armazenavam outras bebidas. A lista inclui barris usados na maturação de bourbons, uísques turfados, vinho do Porto e Xerez.
“Investimos em pequenas quantidades de barris, mas mantemos uma variedade muito grande. É daí que vem a multiplicidade de rótulos”, explica Menegatti.
A empresa mantém três unidades de operação. A produção de cachaça ocorre em Marechal Floriano. Vila Velha concentra o envase, o envelhecimento e a fabricação das demais bebidas. Já a loja própria funciona no Hortomercado, em Vitória, com venda direta ao consumidor.
Menos quantidade, mais qualidade: como o consumo de cachaça está mudando
Na avaliação de Menegatti, o mercado de bebidas atravessa uma mudança de comportamento. “As pessoas não querem mais consumir tanta quantidade. Elas procuram mais qualidade. É beber menos e beber melhor”, resume.
A mudança beneficia negócios voltados aos pequenos lotes e às bebidas diferenciadas. “A nossa intenção, portanto, não é voltar à produção em grande escala. Queremos diversificar ainda mais, desenvolver produtos diferentes e continuar criando novos rótulos”, diz Menegatti.
Apesar das oportunidades, a fabricação irregular ainda representa um entrave para as empresas legalizadas. “A ilegalidade atrapalha o mercado como um todo. Muitas cachaças não possuem registro e não atendem às condições sanitárias mínimas”, alerta.
Número de cachaçarias cresce no Brasil, mas produção recua em 2025
O Mapa contabilizou 1.538 estabelecimentos elaboradores de cachaça no Brasil em 2025, alta de 21,5% na comparação com o ano anterior. O setor também chegou a 8.379 produtos e 11.131 marcas registradas.
O Sudeste concentra 961 estabelecimentos, equivalentes a 62,5% do total brasileiro. A região ganhou 133 registros em um ano, avanço de 16,1%.
Apesar do aumento no número de estabelecimentos e produtos regularizados, a produção declarada caiu no país. O volume chegou a 234,5 milhões de litros em 2025, redução de 15,77% em relação a 2024.
O Sudeste permaneceu na liderança, com 150,4 milhões de litros. A região respondeu por 64,13% da produção nacional, embora tenha registrado queda de 12,37% no período.
As exportações seguiram o movimento contrário. O Brasil enviou 7,96 milhões de litros de cachaça para 76 países em 2025, crescimento de 19,4%. As vendas movimentaram US$ 17,07 milhões, alta de 17,4%.
Folha Vitoria