*Artigo escrito por Niase Borjaille CEO da DEX/MINDWORKS
Falar de tecnologia na empresa deixou de ser uma conversa de TI. Hoje, se você fala de dados, está falando de estratégia. Mas a euforia com a inteligência artificial está criando uma ilusão perigosa.
Todo mundo quer um “ChatGPT interno”, mas esquece de um detalhe: a IA não conserta processo ruim.
Se o seu CRM está uma zona, se o financeiro não conversa com o comercial e se os dados do cliente estão espalhados em planilhas do Excel de 2015, a IA não vai salvar o seu dia. Ela vai apenas ler a sua sujeira e te dar uma resposta errada muito mais rápido do que um estagiário faria. É o famoso “lixo entra, lixo sai”.
Antes de falar em inteligência artificial, a pergunta certa é: sua empresa consegue confiar nos próprios dados? Se a resposta for não, pare. Você não precisa de IA ainda, precisa de governança.
E quando falo de governança, não é criar uma política de 200 páginas para engavetar. É definir regra simples: quem pode ver o quê. Você não pode simplesmente dar acesso a uma ferramenta de IA para o estagiário de marketing e deixar ele brincar com a base de clientes inadimplentes.
Outra cilada é a automação cega. Tem empresa querendo automatizar processos que nem deveriam existir. Se o fluxo de aprovação de uma compra leva duas semanas porque três gerentes precisam bater o carimbo, automatizar isso não resolve o problema. Você só vai continuar fazendo a coisa errada de forma mais veloz.
Mas onde está a oportunidade real? Principalmente fora do eixo Rio-São Paulo.
O dono de uma distribuidora no interior não precisa ter o orçamento de uma multinacional para usar analytics. Ele já tem a vantagem de conhecer o cliente pelo nome. Se ele cruzar esse “feeling” de mercado com dados bem organizados — prever demanda, ajustar estoque, automatizar a emissão de notas —, ele ganha do grande player na velocidade da decisão.
No fim do dia, a ferramenta de IA mais cara do mercado não toma decisões sozinha. Ela te dá o contexto, mas a tecla “enter” continua sendo sua. O desafio não é trocar a cabeça das pessoas por máquinas, mas usar as máquinas para deixar o time mais afiado. Se a gestão for ruim, a tecnologia só vai servir para errar mais rápido.
Fonte: Folha Vitória