Polarização Política (Imagem gerada por IA)
“Fica um sentimento de que existe só o bem e o mal, e o bem precisa vencer de qualquer forma.” É assim que Bia (nome fictício), 25 anos, define a polarização política no Brasil. A um mês das eleições, o país se divide. Há quem vote em um candidato mais pela rejeição ao adversário do que pela identificação com ele ou com suas propostas.
Os seres humanos são diversos, mas, há alguns anos, os brasileiros têm enxergado a política como um duelo entre o bem e o mal. A população se divide entre os que simpatizam com os ideais do ex-presidente Jair Bolsonaro, agora inelegível e com o filho Flávio como sucessor, e o presidente Lula, que concorre pela sétima vez ao Planalto, como figura de “esperança” da esquerda.
Quem vota em um não consegue compreender quem vota no outro. Famílias se veem no meio de um conflito que um dia foi apenas partidário e hoje é visto como parte do indivíduo que fez aquela escolha. É o caso de Vagner (nome fictício), de 63 anos, aposentado e de direita, enquanto a irmã e a filha são mais alinhadas à esquerda.
Não tem nenhum argumento que uma pessoa de esquerda tenha para me convencer do contrário. […] Não há a menor possibilidade nem de eu converter minha filha e minha irmã [para a direita] como das duas juntas me converterem a votar na esquerda. A esquerda é só atraso.”
Mais do que uma escolha entre candidatos, a posição política tem chegado primeiro. Érica Anita Baptista, doutora em Ciência Política (UFMG), professora do mestrado em Comunicação Digital do IDP-DF e diretora de comunicação da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel), chama o fenômeno de polarização afetiva porque, muitas vezes, ele sai da esfera política e começa a afetar as escolhas pessoais, como as cores que usam, os lugares que frequentam, onde estudam e assim por diante.
É mais do que eu não querer ter contato com opiniões diferentes, se tornou um comportamento até mesmo agressivo. A gente passou a nomear, a identificar as pessoas de acordo com o comportamento, com a roupa que ela veste, com os lugares que ela frequenta, com as músicas que ela escuta, com as pessoas que elas seguem em rede social.
Érica Anita Baptista, doutora em Ciência Política
Quando a política entra na família
Os dados da 9ª rodada da pesquisa BTG Pactual/Nexus ajudam a dimensionar o cenário: 65% dos entrevistados concordam que existe polarização política no Brasil. Entre eles, 36% afirmam estar cansados ou desconfortáveis com essa divisão.
A polarização política deixou as urnas e passou a interferir nas relações pessoais. Não é difícil encontrar relatos de familiares que romperam com familiares e amigos por causa das discussões que atravessam essas relações.
É o caso de Bruna (nome fictício). A geógrafa de 26 anos não fala com o pai por causa das diferenças de valores entre os dois. Ela conta que eles costumavam ter discussões saudáveis, mas tudo mudou quando Jair Bolsonaro se candidatou, em 2018.
“Após o bolsonarismo e após a direita ficar tão inflamada no Brasil, meu pai mudou. Ele ficou muito firme nessa questão armamentista, na questão de proteger os direitos das crianças e de liberdade na economia e de empreender. Principalmente, na cabeça dele, a esquerda quebrou o Brasil”, conta.
O rompimento definitivo veio após uma discussão em que ela afirma ter sido chamada pelo pai de “acomodada” e “interesseira”, porque, para ele, todos os esquerdistas são.
“Ele tem esse discurso de que as pessoas que acreditam no governo [Lula] são acomodadas. Nesse dia, eu estava compartilhando um momento meu, que eu tinha conquistado uma coisa com meu dinheiro, com meu trabalho, e ele inverteu completamente a situação. Desde então, a gente não conversa mais, não tem contato”, afirma.
Bruna diz que o pai ainda tenta manter contato por mensagens, mas que, segundo ela, os assuntos enviados costumam ter conteúdo político e religioso. Para ela, a relação não deve ser retomada enquanto o pai mantiver, em sua avaliação, uma postura política que considera excessiva.
Se é essa a forma que ele quer ter uma relação comigo, sendo exatamente da forma dele, do jeito que ele acredita, eu também não tenho interesse em ter uma conversa com ele.
Para Sara Louzada Casteluber, psicóloga, mestre em Hipnose Ericksoniana pelo Centro Ericksoniano do México, especialista em Teoria e Prática Junguiana e membra da Associação Brasileira de Psicologia Positiva, parte desse conflito pode ser explicado pelo fato de a política ter deixado de representar apenas uma escolha eleitoral e passado a se relacionar com a identidade e os valores de cada indivíduo.
É aí que uma divergência política pode ganhar uma dimensão pessoal. Segundo a psicóloga, quando o debate deixa de estar concentrado nas propostas e passa a atingir aquilo que uma pessoa considera como seus valores, fica mais difícil separar a escolha política de quem está fazendo essa escolha.
Se eu acredito que tal candidato fere um valor meu, é muito difícil não levar para o âmbito da pessoalidade. Mas é importante a gente conseguir também fazer essa separação, porque, senão, a gente vai continuar incidindo em cisões. Então, assim, o que é mais importante? Ver quem está certo ou continuar tecendo aquela relação familiar, na medida do possível?
Sara Louzada Casteluber, psicóloga
Quando discordar não significa romper
Foi caminho de preservar a relação apesar da divergência que Bia encontrou com a mãe. As duas têm visões diferentes sobre política, mas existe entre elas uma espécie de acordo silencioso: alguns assuntos são evitados para que a diferença não se transforme em briga.
As duas sabem que pensam diferente e evitam chegar justamente nos pontos em que a divergência é maior. A engenheira eletricista conta que elas conseguem conversar sobre assuntos mais neutros, como mudanças na economia ou questões que estão sendo discutidas no país, mas existe um limite que ambas parecem conhecer.
“A gente sabe que as coisas estão acontecendo, que existe uma certa divergência, que a gente tem opiniões um pouco diferentes, mas nunca chega a ser comentado. Então, parece que é meio que um acordo, um limite estabelecido entre a gente para não chegar naquele ponto de discussão.”
Isso não significa que as duas nunca tenham discutido. Depois da eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, Bia estava aflita com o que poderia acontecer nos quatro anos seguintes, especialmente diante de discursos que, segundo ela, atingiam diretamente minorias.
Foi nesse contexto que decidiu contar à mãe que era bissexual e que se relacionava com mulheres.
Eu não sabia o que esperar, justamente por conta do discurso que o Bolsonaro validava, as coisas que ele acreditava, os absurdos que ele falava. Eu sou bissexual, me relaciono com mulheres e não é só por mim, é por toda minoria que ele já ofendeu, que ele já ameaçou.
Ela relembra que o momento foi tenso, mas a relação não terminou ali. Para Bia, existe uma diferença entre discordar de uma visão de mundo e se deparar com aquilo que considera um limite inegociável.
A engenheira consegue conversar com a mãe porque, apesar das diferenças políticas, existe disposição para ouvir e porque a divergência entre as duas não envolve discursos racistas ou homofóbicos.
“Apesar de tudo, apesar dela não gostar de falar de política em casa ou até fora de casa que seja, quando a gente chega nesses tópicos sensíveis e das poucas vezes que a gente chega nesses tópicos em que a gente sabe que temos opinião muito diferente, a gente consegue conversar e se ouvir, mesmo que eu discorde de tudo.”
Para a psicóloga Sara, esse é um dos caminhos possíveis para conviver com as diferenças: entender que discordar não significa necessariamente romper. A divergência, segundo ela, pode ser saudável quando existe respeito pela pessoa que está do outro lado.
A gente precisa lembrar que a gente também cresce convivendo com o diferente. Porém, isso tem a ver também com os valores de cada um. […] A divergência é saudável quando ela respeita a forma do ser. Então, isso não é um ataque pessoal, isso aqui é uma forma de pensar.
Sara Louzada Casteluber, psicóloga
Mas também é preciso saber a hora de encerrar conversas e relações. Para Sara, a convivência com quem pensa diferente não significa aceitar qualquer tipo de comportamento ou permanecer em uma relação em que não há espaço para o diálogo.
“Primeiro, é preciso entender qual é o seu limite para saber quando ele está sendo ultrapassado. […] A gente pode encerrar qualquer assunto e não necessariamente ser uma fuga do assunto. ‘Aqui eu estou entrando num terreno que é perigoso para mim, que eu já entendi que não é algo que eu vou dar conta naquele momento, seja lá por qual motivo for’. E eu posso verbalizar isso para outra pessoa.”
É justamente esse tipo de escolha que aparece na relação entre Vagner e a filha e a irmã. Ele sabe que as três pessoas pensam de maneira diferente sobre política, mas prefere não transformar a divergência em uma disputa.
A estratégia, segundo ele, é simples: evitar o assunto quando percebe que não haverá acordo, por considerar que a relação familiar é mais importante do que vencer uma discussão.
A minha família é muito pequena. Então, não vale a pena brigar, por qualquer motivo que seja. Não é só por causa de política, não. Eu procuro manter a convivência o melhor possível com a minha família.
No meio dessa disputa, porém, há também quem esteja cansado de escolher lados. Uma pesquisa Ipsos-Ipec, realizada em dezembro de 2025, apontou tristeza (19%), cansaço (17%) e medo (16%) entre os principais sentimentos associados à polarização política no Brasil.
Para Érica, esses sentimentos ajudam a mostrar que a polarização afetiva ultrapassou a disputa entre candidatos e passou a fazer parte do cotidiano. Ela aparece até em discussões que, inicialmente, não têm relação direta com política.
Às vezes, a gente vê uma publicação em rede social sobre qualquer coisa, sobre uma personalidade que está enfrentando uma situação, uma doença ou um acontecimento, um evento climático em algum lugar. Quando a gente olha os comentários, sempre tem alguém falando sobre governos, falam sobre figuras políticas que são polarizadas.
Érica Anita Baptista, doutora em Ciência Política
Para ela, é justamente essa presença constante que ajuda a explicar o cansaço, a tristeza e o medo apontados pelas pesquisas. São sentimentos que aparecem não apenas pelo debate político em si, mas pelas consequências que ele pode trazer para as relações e para a forma como as pessoas se comportam.
Érica reconhece que não tem uma resposta sobre como esse comportamento pode ser revertido. A comparação entre as eleições de 2018 e 2022, segundo ela, mostrou alguma redução da rivalidade em parte da sociedade, mas a corrida eleitoral de 2026 volta a colocar o país diante de uma disputa acirrada.
O que permanece em aberto é se a agressividade será deixada de lado ou se acabará incorporada como parte da vida cotidiana.
Eu quero, sim, ter opção de escolher entre dois candidatos dentro do meu espectro político ou que tenham ideias que fazem sentido com o que eu acredito.
Fonte: Folha Vitória