Rosana Alves é coordenadora do curso de Medicina da FAESA. Foto: Divulgação
Rosana Alves, médica, pós-doutora em Ensino na Saúde, doutora em Pesquisa Clínica, mestre e especialista em Pediatria, especialista em Gestão Acadêmica de Medicina e MBA em Gestão de Saúde Digital. É coordenadora do curso de Medicina da FAESA.
Sheila Cristina de Souza Cruz, enfermeira, doutora e mestre em Saúde Coletiva, especialista em Transformação Digital na Saúde e graduada em Gestão de Tecnologia da Informação. É professora do curso de Medicina da FAESA.
A transformação digital vem modificando a organização do trabalho na Medicina, impulsionada pela expansão da telemedicina, das plataformas digitais e da inteligência artificial. Nesse contexto, surge o desafio de definir quais atividades podem ser realizadas remotamente e quais ainda exigem presença física. Assim, o trabalho híbrido não representa apenas a substituição do presencial pelo remoto, mas uma nova forma de organizar as atividades conforme suas características e necessidades.
Os estudos sobre o trabalho híbrido destacam as dimensões espaciais, temporais, digitais e sociais, considerando a natureza das tarefas realizadas. Na Medicina, essa perspectiva permite pensar em uma combinação estratégica entre atividades presenciais e remotas, de acordo com as necessidades do cuidado.
Na Medicina, atividades como teleconsultas, acompanhamento e discussão de casos podem ser realizadas remotamente, ampliando as possibilidades de atuação profissional por meio da telemedicina. Dessa forma, a questão central não deveria ser “presencial ou remoto?”, mas “qual modalidade é mais adequada para determinada necessidade de cuidado?”. O trabalho híbrido na Medicina tende, portanto, a depender da natureza da atividade e das condições clínicas do paciente.
A adoção da telemedicina vai além da disponibilidade de plataformas digitais. Estudos mostram que fatores como facilidade de uso, qualificação profissional, segurança, privacidade e organização influenciam a incorporação dessas tecnologias à prática médica. Assim, o trabalho híbrido exige não apenas infraestrutura, mas também mudanças culturais e profissionais.
Essa transformação também alcança a formação médica. Pesquisas indicam que a telemedicina e as consultas remotas ampliam as possibilidades de ensino, por meio de simulações, atendimentos a distância e experiências educacionais mediadas por tecnologias digitais. Nesse cenário, torna-se fundamental preparar os estudantes para as particularidades da assistência remota, desenvolvendo competências em comunicação digital, telemedicina, avaliação crítica das tecnologias e uso responsável da inteligência artificial.
O trabalho híbrido, portanto, não deve ser compreendido como o fim do trabalho presencial na Medicina. Tampouco parece adequado tratá-lo apenas como uma solução temporária herdada do período pandêmico. A tendência é que diferentes modalidades de trabalho coexistam e sejam utilizadas de acordo com a atividade, o contexto e a necessidade do paciente. Uma consulta de acompanhamento pode ser realizada remotamente em determinadas circunstâncias, enquanto um exame físico ou um procedimento poderá exigir a presença do médico. Da mesma forma, uma reunião de equipe pode ocorrer virtualmente, enquanto determinadas atividades práticas de formação médica continuarão dependendo do contato presencial.
Nesse sentido, o futuro do trabalho médico parece estar menos relacionado à escolha entre “presencial” e “remoto” e mais à construção de um modelo híbrido, flexível e orientado pelas necessidades do cuidado. A tecnologia não elimina a necessidade da presença humana; ela redefine quando, onde e para quais atividades essa presença é necessária. O desafio para a Medicina será encontrar o equilíbrio entre inovação tecnológica, qualidade assistencial, segurança do paciente, ética profissional e valorização das relações humanas.
Assim, diante da pergunta: tendência, transição ou fim de um ciclo?, o trabalho híbrido na Medicina parece representar, sobretudo, uma transição para uma nova organização do trabalho médico. O futuro não aponta para o desaparecimento do atendimento presencial, mas para a integração estratégica entre práticas presenciais e remotas. Mais do que escolher entre estar “presencial” ou “a distância”, o desafio será definir qual modalidade é mais adequada a cada atividade e às necessidades de cada paciente. Nesse cenário, a tecnologia não substitui a presença humana: ela transforma a forma como, quando e onde o cuidado é realizado.
Fonte: Folha Vitória