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Quando falamos que o cérebro é plástico, muita gente entende a ideia como: “Se eu quiser muito, posso mudar qualquer coisa em mim”. Mas não é bem assim.
Nosso cérebro possui uma capacidade chamada neuroplasticidade, que permite que ele se modifique e se reorganize em resposta às experiências, à aprendizagem e aos estímulos que recebe ao longo da vida. É graças a ela que conseguimos aprender a ler, dirigir, tocar um instrumento, desenvolver novas habilidades e criar estratégias para lidar melhor com algumas dificuldades.
Quando uma criança está aprendendo a ler, por exemplo, aquilo que inicialmente exige enorme esforço vai se tornando mais automático com a prática. O cérebro fortalece determinadas conexões e passa a realizar aquela tarefa de maneira mais eficiente. O mesmo acontece quando aprendemos um novo idioma ou treinamos uma habilidade repetidamente.
Isso mostra algo muito interessante: o cérebro não é uma estrutura pronta e imutável. Ele está em constante interação com aquilo que vivemos.
Mas existe uma diferença importante entre dizer que o cérebro pode mudar e dizer que podemos transformar qualquer característica apenas com esforço ou força de vontade.
Neuroplasticidade não é um superpoder
Nos últimos anos, a ideia de neuroplasticidade ganhou bastante espaço nas redes sociais. E, como acontece com muitos conceitos da neurociência, às vezes ela aparece de forma simplificada: “Você pode reprogramar seu cérebro”, “basta mudar seus pensamentos” ou “se você repetir algo por determinado número de dias, seu cérebro muda”.
A ciência é mais complexa — e mais interessante — do que isso.
Nosso funcionamento cerebral também é influenciado pela genética, pelo desenvolvimento, pela idade, pelas condições de saúde e pelo ambiente em que vivemos. Existem características que podem ser modificadas ou compensadas, enquanto outras fazem parte de uma condição neurobiológica que continuará presente.
Uma pessoa com TDAH, por exemplo, pode aprender estratégias para organizar melhor sua rotina, manejar distrações, planejar tarefas e controlar impulsos. O tratamento adequado também pode melhorar significativamente seu funcionamento cotidiano. Isso, porém, não significa que ela deixou de ter TDAH porque “treinou o cérebro” ou se esforçou o suficiente.
Da mesma forma, uma criança com uma dificuldade específica de aprendizagem pode avançar muito quando recebe intervenção adequada. Mas comparar seu processo com o de outra criança e concluir que ela precisa apenas “se esforçar mais” desconsidera diferenças reais na maneira como cada cérebro processa as informações.
Então, até onde podemos mudar?
Talvez a melhor maneira de compreender a neuroplasticidade seja pensar que nosso cérebro é dinâmico, mas não infinitamente maleável.
Podemos aprender, criar novas estratégias, fortalecer habilidades e encontrar caminhos diferentes para realizar determinadas tarefas. E isso pode acontecer durante toda a vida, embora a plasticidade cerebral varie conforme a idade, a região cerebral e o tipo de aprendizagem.
Reconhecer os limites individuais não significa desistir do desenvolvimento. Pelo contrário.
Quando entendemos como determinada pessoa funciona, podemos oferecer condições mais adequadas para que ela desenvolva seu potencial. Em vez de perguntar “por que ela não consegue ser diferente?”, talvez possamos perguntar: O que esse cérebro precisa para funcionar melhor?
A neuroplasticidade nos ensina que existe possibilidade de mudança. A neurociência também nos lembra que cada cérebro tem sua própria história, características e limites.
E compreender as duas coisas talvez seja muito mais transformador do que simplesmente acreditar que querer é poder.
Fonte: Folha Vitória