Se você tem mais de 60 anos, provavelmente já disse — ou pelo menos pensou — que as crianças estão viciadas em celular. E pode ter razão. Durante anos, acreditamos que a grande vítima dos algoritmos era a infância.
Discutimos o tempo de tela dos adolescentes, os riscos das redes sociais e transformamos a dependência digital em um dos principais temas da saúde mental. Mas existe uma pergunta que quase ninguém fez: e você?
Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais que tinham celular para uso pessoal subiu de 66,6% em 2019 para 78,1% em 2024 — a maior alta entre as faixas etárias analisadas. Estar conectado é uma conquista, não um sintoma.
O problema é que o uso problemático do celular vem sendo associado à pior qualidade do sono, a sintomas depressivos e ao sedentarismo.
Foi no consultório que essa discussão deixou de ser estatística. Tenho recebido idosos que chegam cansados, desanimados e dormindo mal. Aos poucos, aparece um detalhe quase sempre tratado como irrelevante: o celular passou a ocupar as noites.
Dormem mais tarde, acordam mais cansados e, sem perceber, caminham menos, leem menos, encontram menos pessoas e saem menos de casa. O celular não roubou apenas horas. Foi reorganizando a rotina.
A dependência digital quase nunca começa quando alguém perde completamente o controle. Ela começa quando o excesso deixa de parecer excesso. Ninguém estranha dormir meia hora mais tarde. Depois uma hora. Depois duas. Ninguém percebe o dia em que a caminhada foi substituída pela poltrona, a conversa por vídeos curtos ou a curiosidade por uma rolagem infinita.
O problema das telas não é apenas o tempo que elas ocupam. É tudo aquilo que, sem fazer barulho, elas vão retirando da vida.
Existe uma frase que escuto com frequência no consultório: “Trabalhei a vida inteira. Agora mereço fazer o que quiser.” Concordo. A aposentadoria deveria devolver liberdade. Mas ela também pode esconder uma armadilha. Quando alguém me diz que o momento mais prazeroso do dia é passar horas diante do celular, deixo de perguntar o que há de tão atraente na tela e passo a me perguntar o que foi desaparecendo da vida para que ela ocupasse esse lugar.
Os aplicativos descobriram como explorar uma vulnerabilidade humana muito antiga: gostamos do que exige pouco e recompensa rápido. Não disputam apenas atenção. Disputam hábitos, rotina e tempo — a matéria-prima de que a vida é feita.
O que os exames não mostram
Quando o desânimo aparece, é natural procurar uma causa no corpo. Investigam-se hormônios, dosam-se vitaminas e avalia-se a necessidade de medicação. Tudo isso importa. O que não pode ficar fora dessa investigação é a rotina.
Um exame de sangue não revela quantas horas de sono foram cedidas à tela, quantos passos deixaram de ser dados ou quantos encontros foram adiados. Por isso, algumas perguntas também precisam entrar na consulta: como estão as noites? Quantas horas do dia o celular ocupa? O que ele substituiu? Há formas de adoecimento que não começam na falta de uma substância, mas no empobrecimento silencioso da vida cotidiana.
A velhice sempre exigiu cuidados capazes de sustentar a vida para além da simples ausência de doença: dormir bem, caminhar, conviver, manter a mente ativa e preservar a curiosidade. Hoje, é preciso acrescentar outro: proteger a atenção. Não se trata de demonizar o celular nem de negar a conquista que é permanecer conectado.
Trata-se de impedir que uma ferramenta criada para ampliar o mundo acabe por estreitá-lo. A nova epidemia da velhice não é a solidão. É uma forma mais silenciosa de afastamento: permanecer cercado de mensagens, vídeos e notícias e, ainda assim, cada vez mais ausente do próprio corpo, dos encontros e da vida que acontece fora da tela.
Quando o celular passa a ocupar o lugar do sono, do movimento e do desejo, já não oferece companhia — apenas torna a ausência mais suportável e, por isso mesmo, menos visível. Nenhuma fase da vida deveria ser entregue a um algoritmo. Muito menos aquela em que o tempo deixa de parecer infinito e revela, finalmente, o seu verdadeiro valor.
Fonte: Folha Vitória