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Azeites vendidos como extravirgem são reprovados pelo Mapa: o que muda para a saúde?

Análises do Mapa questionam azeites vendidos como extravirgem. Entenda as marcas citadas e as diferenças entre extravirgem, virgem e lampante.

Por Redação em 19/08/2026 às 13:00:10
Fotos: Reprodução/Mercado Livre

Fotos: Reprodução/Mercado Livre

Você provavelmente já ficou alguns minutos diante da prateleira tentando escolher um bom azeite. Entre tantas opções, o termo “extravirgem” costuma funcionar como um importante critério de qualidade. Nas últimas semanas, porém, uma análise do Ministério da Agricultura e Pecuária colocou alguns dos azeites mais conhecidos do país no centro de uma polêmica.

Amostras comercializadas como extravirgens apresentaram características compatíveis com categorias inferiores durante análises realizadas pelo laboratório oficial do Mapa. Entre os nomes citados estão Andorinha, Gallo, Borges, Gomes da Costa, Filippo Berio e Carrefour. Algumas amostras foram classificadas como azeites virgens. Já amostras das marcas Costa D’Oro e Terras de Camões receberam classificação de azeite lampante.

Antes de tirar conclusões sobre a garrafa que está na sua cozinha, porém, é importante entender exatamente o que esses resultados significam.

A análise não condena toda a marca

Talvez este seja o ponto mais importante de toda a discussão. Os resultados divulgados correspondem às amostras analisadas e não permitem concluir que todos os produtos dessas marcas apresentem o mesmo problema. Uma mesma marca pode comercializar diferentes produtos, lotes, safras e origens. Condições de transporte e armazenamento também podem interferir na qualidade do azeite.

Além disso, o próprio Mapa esclareceu que os resultados divulgados são preliminares e ainda não possuem caráter conclusivo. As empresas têm direito aos procedimentos previstos de perícia e contraprova antes da conclusão oficial. Portanto, não é correto transformar o resultado de uma amostra em uma afirmação de que determinada marca inteira vende “azeite falso”.

Também não existe, até o momento, uma lista oficial definitiva de marcas “aprovadas” nessa investigação que permita fazer esse tipo de ranking. O que podemos discutir é a classificação encontrada nas amostras analisadas e o que realmente muda nutricionalmente entre essas categorias.

Afinal, qual a diferença entre azeite extravirgem e virgem?

Tanto o azeite extravirgem quanto o virgem são obtidos diretamente das azeitonas por processos mecânicos ou físicos. Uma das diferenças está na chamada acidez livre. Para ser classificado como extravirgem, o azeite precisa apresentar acidez livre máxima de 0,8%.

Mas essa acidez não tem relação com o azeite parecer mais ou menos “ácido” quando provamos. Estamos falando da quantidade de ácidos graxos livres presentes no produto, normalmente expressa em relação ao ácido oleico. Grande parte da gordura do azeite está originalmente organizada na forma de triglicerídeos. Quando ocorre hidrólise, ácidos graxos podem se desprender dessas moléculas.

Por isso, uma acidez livre mais elevada pode indicar problemas na qualidade das azeitonas, danos sofridos pela matéria-prima ou condições inadequadas de processamento e armazenamento. E a classificação não depende apenas desse número. Características sensoriais, como a presença de determinados defeitos de aroma e sabor, também entram na avaliação.

Extravirgem é muito mais saudável?

Aqui entra uma diferença importante entre qualidade do produto e impacto nutricional. O azeite extravirgem tende a preservar maior quantidade de compostos fenólicos, substâncias com propriedades antioxidantes e biologicamente interessantes.

Estudos comparando azeites com diferentes concentrações de polifenóis encontraram algumas vantagens para aqueles com maior teor desses compostos. Uma meta-análise de ensaios clínicos encontrou pequeno aumento do HDL associado ao consumo de polifenóis do azeite, enquanto outros trabalhos observaram benefícios em marcadores relacionados à oxidação e ao perfil cardiovascular.

Isso não significa, porém, que escolher o azeite com mais polifenóis reduzirá de maneira relevante, isoladamente, o risco de infarto, AVC ou mortalidade. Na prática, o padrão alimentar completo continua sendo muito mais importante do que buscar o azeite “perfeito”. Garantir uma quantidade adequada de azeite dentro de uma alimentação equilibrada pode ser mais relevante do que pequenas diferenças no teor de polifenóis.

E o azeite lampante? Ele faz mal à saúde?

O azeite lampante não atende aos requisitos para consumo humano direto e precisa passar por refino antes de integrar produtos destinados ao consumo. A própria regulamentação permite que o lampante seja refinado e posteriormente utilizado na produção de óleos destinados à alimentação.

Isso significa que a expressão “impróprio para consumo humano direto” representa uma classificação regulatória e de qualidade. Ela não significa automaticamente que aquele azeite seja tóxico ou que consumir uma pequena quantidade provoque algum dano imediato à saúde.

Esse detalhe torna-se ainda mais relevante porque a classificação também pode envolver a avaliação sensorial do azeite. Defeitos de aroma e sabor podem fazer um produto deixar de atender aos requisitos das categorias superiores, mesmo sem a identificação de alguma substância perigosa.

O próprio Mapa afirmou que os resultados divulgados tratam dos padrões de identidade e qualidade dos produtos. Segundo o órgão, esses dados, isoladamente, não permitem concluir a existência de risco à saúde pública. É diferente, portanto, de uma análise detectar contaminantes, substâncias tóxicas ou componentes proibidos.

Isso não torna a classificação irrelevante. Se o rótulo informa uma categoria superior àquela encontrada na análise, existe uma importante questão relacionada à qualidade do produto e ao direito do consumidor.

Como escolher um bom azeite?

Na hora da compra, alguns detalhes ajudam a preservar a qualidade do produto. O primeiro é observar a embalagem. Azeites vendidos em garrafas de vidro escuro ou recipientes opacos ficam mais protegidos da luz, que acelera a oxidação e pode degradar seus compostos ao longo do tempo.

Também vale conferir a data de envase e, quando disponível, a data da colheita. Ao contrário do vinho, o azeite não melhora com o envelhecimento. De forma geral, quanto mais recente, melhor. Verificar a origem, o fabricante ou importador e as informações do rótulo também ajuda a conhecer melhor o produto que está sendo comprado.

A acidez indicada no rótulo pode trazer informações sobre o azeite, mas não deve ser utilizada sozinha para escolher o melhor produto. Um azeite com acidez de 0,2%, por exemplo, não é necessariamente nutricionalmente superior a outro com 0,5%. Ambos podem atender aos critérios de extravirgem.

O armazenamento em casa também faz diferença. Depois de aberto, o ideal é manter o azeite bem fechado, protegido da luz e distante de fontes de calor, como fogão e forno. Comprar embalagens compatíveis com a frequência de consumo também ajuda a evitar que o produto permaneça aberto por muito tempo.

O principal problema não está na nutrição

Um azeite virgem não se transforma automaticamente em um alimento ruim porque perdeu a classificação de extravirgem. As diferenças existem, especialmente na qualidade sensorial, na acidez livre e na presença de determinados compostos bioativos, como os polifenóis.

A principal questão dessa investigação está na correspondência entre aquilo que o rótulo promete e aquilo que o consumidor realmente recebe. Se uma garrafa é comercializada como azeite extravirgem, espera-se que o produto cumpra os critérios estabelecidos para essa categoria.

Por isso, a fiscalização é importante não apenas para verificar a qualidade dos alimentos disponíveis no mercado, mas também para garantir transparência ao consumidor.

Fonte: Folha Vitória

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