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O dólar como proteção, não especulação

Por muito tempo, ter dólares na carteira foi sinônimo de riqueza excessiva ou paranoia econômic. Não é mais

Por Redação em 19/08/2026 às 13:00:34
Foto: Magnific

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*Artigo escrito por Erika Carvalho Almeida, Private Banker e Membro do Comitê Qualificado de Conteúdo de Economia e Finanças do Ibef-ES.

Por muito tempo, ter dólares na carteira foi sinônimo de riqueza excessiva ou paranoia econômica. Não é mais. Em 1994, um brasileiro que convertesse R$ 1.000 em dólares receberia cerca de US$ 1.000, a paridade era quase perfeita. Três décadas depois, o mesmo real compra menos de US$ 0,18. A moeda perdeu mais de 80% do seu valor frente ao dólar em termos nominais. Não foi um evento. Foi uma tendência.

Apesar disso, a maioria dos brasileiros ainda mantém 100% do seu patrimônio exposto a uma única moeda, num único país, sujeito a um único conjunto de riscos fiscais, políticos e macroeconômicos. Do ponto de vista da teoria moderna de portfólio formalizada por Harry Markowitz em 1952 e que rendeu o Nobel de Economia, essa concentração é, tecnicamente, um erro evitável.

Durante anos, a barreira de entrada para o mercado internacional era real. Abrir uma conta no exterior exigia burocracia, valores mínimos elevados e acesso a private banks. Esse cenário mudou de forma silenciosa, mas profunda.

Hoje, plataformas reguladas permitem que um investidor pessoa física transfira recursos ao exterior com câmbio competitivo, invista em ETFs e fundos money market americanos com frações do que se exigia antes — e faça isso dentro de um arcabouço regulatório claro, supervisionado pelo Banco Central.

Fundos como o Vanguard Federal Money Market (VMFXX), com patrimônio superior a US$ 300 bilhões, ou o Schwab Value Advantage (SWVXX), oferecem rendimento em dólar com liquidez diária e volatilidade próxima de zero. Não são produtos exóticos. São equivalentes ao CDI, mas denominados em outra moeda.

Existe uma falta de entendimento frequente entre dolarizar patrimônio e especular com câmbio. Quem compra dólar esperando valorização imediata está fazendo uma aposta direcional — e pode perder. Quem aloca uma parcela estrutural em ativos internacionais como parte de uma estratégia de longo prazo está fazendo outra coisa: reduzindo a correlação da carteira com o risco Brasil.

Um estudo da consultoria Morningstar mostrou que carteiras com entre 20% e 30% de alocação internacional apresentaram menor volatilidade e retorno ajustado ao risco superior ao longo de períodos de dez anos, especialmente em economias emergentes com histórico de instabilidade cambial. O Brasil se encaixa precisamente nesse perfil.

Os dados mostram que o real é uma das moedas mais voláteis entre os países do G20. A taxa de câmbio oscilou mais de 40% apenas entre 2019 e 2021. Em momentos de crise — 2002, 2008, 2015, 2020 —, o dólar funcionou como amortecedor para quem tinha exposição internacional. Não por acaso, family offices raramente mantêm menos de 20% dos portfólios em ativos dolarizados.

Atualmente, com a Selic em patamar elevado, o custo de oportunidade de sair do CDI é real. Mas o argumento da dolarização não compete com a renda fixa local — ele a complementa. Uma carteira bem estruturada pode manter 60% a 70% em liquidez e renda fixa brasileira e ainda reservar uma fatia estratégica para o exterior, sem abrir mão de rentabilidade e ganhando em diversificação. A dolarização deixou de ser um privilégio. Virou, simplesmente, boa gestão.

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.

Fonte: Folha Vitoria

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