Aurélien Maudonet acredita que o Estado oferece oportunidades para a comercialização de energia. Crédito: Reprodução de TV
A Santa Maria Participações prepara uma nova fase de expansão no Espírito Santo. A empresa, que pertence ao grupo da Empresa Luz e Força Santa Maria, pretende dobrar ou até triplicar sua capacidade de geração de energia nos próximos cinco anos. E com investimentos em fontes hidrelétrica e solar.
O grupo também mira o mercado livre de energia, projetos de eficiência energética e soluções de armazenamento em baterias. Nesse sentido, a estratégia é para atender desde o agronegócio até grandes indústrias que chegam ao Estado.
À frente desse movimento está o novo diretor-presidente da Santa Maria Participações, Aurélien Patrick Maudonet. Com experiência em finanças, fusões, aquisições, bem como energia renovável, o executivo fala sobre os planos da companhia, o potencial energético capixaba e os desafios do setor.
Veja abaixo a entrevista completa com Aurélien Patrick Maudonet:
Como a Santa Maria está organizada e qual será sua atuação no ES?
A origem da companhia está na Empresa Luz e Força Santa Maria, fundada em Colatina há mais de 80 anos. Ou seja, temos muito orgulho desse legado. A família que controla a distribuidora também possui outro braço, chamado Santa Maria Participações.
Essa empresa tem sede em Vitória, conta com pouco mais de 150 funcionários e investe na geração de energia elétrica a partir de fontes hidrelétrica e solar. Também atua na comercialização de energia no mercado livre varejista, na prestação de serviços energéticos e na importação e distribuição de kits solares por meio da Suno. Assumi a direção da Santa Maria Participações há pouco mais de três meses.
Qual é o plano da empresa para os próximos anos?
Hoje, temos uma capacidade instalada de pouco mais de 50 megawatts-pico. Desse total, 40 megawatts vêm de fonte hidrelétrica e 10 megawatts, da fonte solar. Pretendemos dobrar ou até triplicar essa capacidade nos próximos cinco anos.
As condições de mercado são desafiadoras, principalmente por causa dos preços da energia. No entanto, quem possui capacidade de investimento e bom relacionamento com o ecossistema empresarial capixaba encontra oportunidades. O Espírito Santo ainda possui vários projetos de pequenas centrais hidrelétricas, as PCHs, e centrais geradoras hidrelétricas, as CGHs, que podem ser desenvolvidos.
Os investimentos ficarão no Noroeste do ES?
Não. Falamos do Espírito Santo inteiro. Temos uma equipe de operação e manutenção com um polo em Colatina, que atende o Norte, e outro em Conceição do Castelo, responsável pela parte sul.
A Santa Maria Participações atende todo o mercado capixaba nessa área. Também temos grandes planos para expandir as atividades de comercialização e gestão de energia. Atualmente, já possuímos uma participação significativa, com aproximadamente 30% desse mercado.
Como a empresa pretende atender o agronegócio e a indústria?
Vamos atender essas cadeias produtivas com projetos de eficiência energética. O objetivo é permitir que as empresas consumam energia de forma mais eficiente e reduzam seus custos operacionais.
Também queremos oferecer energia barata e amplamente descarbonizada por meio da geração e da comercialização. Isso poderá representar uma importante vantagem competitiva para esses setores nos próximos anos.
Que oportunidades devem ser geradas com a chegada de grandes indústrias ao ES?
Estamos atentos à montadora chinesa que vai se instalar em Aracruz, assim como ao setor de mineração. A sustentabilidade tornou-se indissociável das atividades industriais e minerais.
Essas empresas analisam suas operações também sob o ponto de vista energético. A energia é um insumo que pode faltar no futuro, mas que não pode faltar para uma indústria. Por isso, tornou-se um fator decisivo de competitividade.
Nosso objetivo é fornecer energia constante e relativamente barata. As hidrelétricas conseguem produzir durante todo o tempo. Também podemos oferecer contratos de compra e venda no mercado livre por meio da nossa comercializadora.
O que significa o conceito de “energia como serviço”?
Quando entramos no processo industrial de um cliente, podemos identificar medidas que tornem a operação mais eficiente do ponto de vista energético. A partir daí, desenvolvemos o conceito de Energy as a Service, ou energia como serviço.
A energia não constitui a atividade principal desses grandes grupos. Por isso, assumimos esse trabalho de forma integrada, desde a geração e a comercialização até os projetos de eficiência energética. Queremos desenvolver esse modelo no Espírito Santo.
Qual é o potencial econômico do Norte e do Noroeste capixaba?
Nossa história está no Noroeste. Temos bom relacionamento com os municípios da região e com grandes grupos industriais. A família controladora também construiu uma forte relação institucional no Estado.
Queremos apresentar a Santa Maria não apenas como distribuidora, mas também como fornecedora de energia e desenvolvedora de projetos de eficiência energética. Além da indústria, o agronegócio tem uma força muito importante.
Colatina e Linhares consolidam-se como polos industriais. A infraestrutura e a região portuária também possuem grande demanda por energia. Todos esses setores devem avançar nos próximos anos.
A energia solar concorre com as outras fontes?
A energia solar é complementar. Atuo na área de transição energética no Brasil há mais de 15 anos e acredito que ela será a fonte mais barata nos próximos anos.
O Brasil possui um dos maiores índices de insolação do mundo. Além disso, a fonte solar oferece muita flexibilidade. Os painéis podem ficar no solo, nos telhados ou em estacionamentos. A principal vantagem é a possibilidade de consumir a energia no mesmo lugar em que ela é produzida. Isso reduz os custos de transmissão e distribuição.
Um exemplo é o acordo da GreenYellow com o Carrefour para instalar painéis solares em mais de 50 lojas da rede varejista francesa. O projeto possui uma capacidade próxima de 40 megawatts. A loja produz e consome a energia durante o dia e recorre à rede quando não há geração solar.
Como a energia solar pode beneficiar o agronegócio?
Muitas propriedades rurais ainda utilizam geradores a diesel nos sistemas de irrigação. A energia solar pode reduzir o uso desses equipamentos e, consequentemente, diminuir as emissões de carbono.
Não podemos depender apenas da fonte solar porque ela é intermitente e não produz energia à noite. Por isso, o setor procura soluções de armazenamento, principalmente por meio de baterias. Assim, a energia produzida durante o dia pode ser utilizada no período noturno.
A Santa Maria pretende participar do leilão federal de baterias?
Vamos tentar participar. O leilão possui uma modalidade com conteúdo nacional e outra com conteúdo importado. Pretendemos viabilizar um projeto dentro da área de concessão da distribuidora, em Colatina.
Por que o armazenamento de energia é importante?
O Brasil produz, em determinados momentos, mais energia do que consome. Por isso, o sistema precisa limitar parte da geração elétrica. Isso representa um desperdício energético e financeiro.
Precisamos aproveitar melhor esse potencial com sistemas de armazenamento. Também devemos atrair investimentos industriais para o Brasil e para o Espírito Santo. Essas empresas podem aproveitar uma matriz energética amplamente descarbonizada.
Como os juros elevados afetam os investimentos da empresa?
A taxa de juros dificulta os investimentos. Quando analisamos a aplicação de vários milhões de reais em uma hidrelétrica, precisamos comparar o retorno do projeto com o rendimento que o mesmo dinheiro poderia obter no mercado financeiro.
Os juros altos limitam e até paralisam alguns investimentos. O setor ainda enfrenta desafios regulatórios, insegurança jurídica e volatilidade nos preços da energia.
No entanto, é preciso manter uma visão de longo prazo. Se analisarmos apenas um período de um a três anos, muitos projetos não fazem sentido. Em um horizonte superior a cinco anos, a situação muda.
Por que a demanda por energia deve crescer nos próximos anos?
Hoje, o Brasil possui excedente de energia em determinados períodos. No futuro, porém, a demanda deve crescer muito. A inteligência artificial, a instalação de data centers, a mineração e outras atividades econômicas exigirão grandes volumes de eletricidade.
Quem construir agora uma base instalada robusta, com capacidade para atender esses novos setores, terá uma vantagem importante. Para isso, é necessário olhar para o longo prazo.
Como preparar a rede para os eventos climáticos extremos?
Esse é um tema muito importante. Vimos problemas em São Paulo, com quedas na rede e consumidores sem energia durante longos períodos. Felizmente, isso não tem ocorrido na área da Santa Maria, que já recebeu vários prêmios de qualidade. Vale lembrar que grande parte da nossa concessão fica em áreas rurais, onde a operação é mais complexa.
Já possuímos uma base de geração sustentável, formada por fontes hidrelétrica e solar. Porém, também precisamos de uma infraestrutura mais resistente. Os eventos climáticos extremos aumentam os riscos para o sistema elétrico.
A resposta passa pelo investimento em ativos sustentáveis, redes inteligentes e centros de monitoramento. Quanto mais dados tivermos, maior será a capacidade de administrar as operações de forma eficiente. A Santa Maria investe nessas áreas.
As baterias podem aumentar a segurança do sistema?
Sem dúvida, mas elas representam apenas uma parte da solução. Também precisamos produzir energia mais perto dos centros de consumo. A energia solar tem uma vantagem justamente porque reduz a dependência das redes de transmissão e distribuição.
O setor fala hoje menos em transição energética e mais em segurança energética. Precisamos assegurar o fornecimento de energia porque, sem energia, a atividade econômica para. O Brasil possui uma vantagem nesse cenário por contar com abundância de recursos naturais.
Qual foi sua primeira impressão sobre o ES?
Estou há menos de três meses no Espírito Santo, mas fiquei impressionado com o dinamismo econômico do Estado. Isso aparece em setores como mineração, energia, alimentos e agronegócio.
Também me chamou a atenção a atuação de entidades como o Espírito Santo em Ação e o Lide. Elas mantêm um diálogo saudável com o poder público e ajudam na atração de investimentos.
O setor privado, o poder público e a sociedade dialogam em favor do Estado. O Espírito Santo pode servir como modelo de cooperação para outras unidades da Federação. Também possui capacidade para atrair investimentos internacionais.
Onde a Santa Maria Participações pretende chegar?
No prazo de um ano, quero elevar o patamar comercial e institucional da empresa. A Santa Maria é muito conhecida pela atuação da distribuidora, mas ainda precisa apresentar melhor suas outras áreas de negócio, como geração, comercialização e serviços energéticos.
Em três anos, gostaria que a empresa estivesse plenamente inserida no ecossistema capixaba e ocupasse uma posição central no setor de energia. Queremos garantir o fornecimento necessário para apoiar o desenvolvimento dos demais setores da economia do Espírito Santo.
Fonte: Folha Vitoria