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“Quanto tempo vou precisar usar aparelho?” Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório de Ortodontia. E a resposta nem sempre pode ser dada com precisão no início do tratamento.
Estudos mostram que um tratamento ortodôntico completo com aparelho fixo dura, em média, cerca de 20 meses. Mas essa é apenas uma média: alguns casos terminam antes, enquanto outros podem levar dois, três anos ou até mais. Isso acontece porque o tempo de tratamento depende de uma combinação de fatores — e não apenas da quantidade de dentes que precisam ser alinhados.
O tratamento não depende somente do ortodontista
Um dos fatores mais importantes é a colaboração do paciente. Faltar às consultas, quebrar o aparelho com frequência ou não utilizar corretamente elásticos e aparelhos removíveis pode aumentar significativamente o tempo de tratamento.
Estudos que avaliaram fatores relacionados à duração do tratamento ortodôntico mostram que faltas às consultas e problemas ou quebras do aparelho estão entre as variáveis capazes de aumentar o tempo total de tratamento.
Isso acontece porque o aparelho não trabalha sozinho. Muitas etapas dependem da participação ativa do paciente. Se o ortodontista orienta o uso de elásticos durante determinado número de horas por dia, por exemplo, utilizá-los apenas ocasionalmente pode impedir que o movimento planejado aconteça na velocidade esperada.
A variável ainda mais importante da infância
Quando tratamos crianças, nem sempre o objetivo é simplesmente “colocar os dentes no lugar”. Em determinadas alterações, precisamos acompanhar e aproveitar o crescimento dos ossos da face.
E o crescimento não acontece de maneira uniforme durante toda a infância.
Existem períodos em que determinadas intervenções ortopédicas podem ser mais favoráveis. O chamado surto de crescimento puberal, por exemplo, pode ser particularmente importante em tratamentos que pretendem aproveitar o potencial de crescimento da mandíbula.
Em outras situações, entretanto, pode ser interessante intervir mais cedo. Um exemplo é a chamada Classe III, uma alteração da mordida em que os dentes inferiores ficam mais à frente do que o esperado em relação aos superiores. Em alguns casos, isso acontece porque a mandíbula, o osso de baixo, cresce mais; em outros, porque a maxila, o osso de cima, apresenta menor desenvolvimento — ou por uma combinação das duas situações. É aquele padrão que, popularmente, pode ser percebido como o “queixo mais para frente”.
Durante a infância, identificar esse tipo de alteração é especialmente importante porque, em casos selecionados, podemos aproveitar o período de crescimento para tentar melhorar a relação entre os ossos da face.
Por isso, começar um tratamento muito cedo não significa necessariamente terminar mais cedo. Estudos e revisões sistemáticas sobre tratamento ortodôntico precoce mostram que iniciar determinadas terapias antes do momento adequado pode aumentar o tempo total de acompanhamento sem necessariamente proporcionar um resultado final melhor.
Por outro lado, existem situações em que intervir cedo é importante. Mordidas cruzadas, alterações importantes no desenvolvimento das arcadas e alguns problemas esqueléticos podem se beneficiar de uma abordagem precoce.
Ou seja: não existe uma idade ideal para todos os tratamentos
Existe um momento adequado para cada problema. Às vezes, a pausa faz parte do tratamento. Essa talvez seja uma das questões que mais confundem as famílias.
Uma criança pode utilizar um aparelho durante alguns meses, alcançar o objetivo daquela primeira etapa e depois ficar um período apenas em acompanhamento. Isso não significa que o tratamento foi abandonado.
Em alguns casos, continuar movimentando dentes naquele momento não traria benefício. O ortodontista pode precisar aguardar a troca de determinados dentes ou uma nova fase do crescimento para iniciar a etapa seguinte.
É o chamado tratamento em duas fases. A primeira procura corrigir ou controlar um problema específico durante o desenvolvimento. Depois pode existir um intervalo de observação e, quando indicado, uma segunda fase é realizada para finalizar a posição dos dentes e a mordida. Casos diferentes exigem tempos diferentes.
A complexidade inicial também importa. Um pequeno desalinhamento é muito diferente de um caso que envolve dentes inclusos, grandes discrepâncias entre as arcadas, necessidade de extrações, alterações esqueléticas ou tratamentos associados à cirurgia.
Além disso, o organismo precisa de tempo para responder às forças aplicadas. A movimentação ortodôntica acontece por meio de um processo biológico de remodelação do osso ao redor dos dentes. Portanto, simplesmente aplicar mais força ou trocar o aparelho com maior frequência não significa que os dentes poderão ser movimentados de maneira segura na mesma proporção.
Então, quanto mais rápido, melhor?
Não necessariamente.
Um bom tratamento ortodôntico não deve ser avaliado apenas pelo número de meses entre a instalação e a retirada do aparelho. O objetivo é obter o melhor resultado possível, respeitando a biologia, o crescimento, a saúde dos dentes e dos tecidos que os sustentam.
Em Ortodontia, existe algo mais importante do que terminar rapidamente: começar no momento certo, realizar cada etapa quando ela realmente é necessária e contar com a colaboração do paciente durante todo o processo.
Às vezes, esperar também faz parte de tratar.
Fonte: Folha Vitória