Obras do Hospital Geral de Cariacica. Foto: Thiago Soares/Folha Vitória
A comerciante Alessandra de Araújo José convive com diabetes tipo 1 e está há cerca de um ano e meio tentando conseguir acompanhamento com um endocrinologista pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ela afirma que, sem conseguir retornar ao especialista para reavaliar o tratamento, passou a ajustar por conta própria a dose de insulina conforme os níveis de glicemia que mede diariamente.
O endocrinologista passa uma dosagem para um determinado período, mas depois a necessidade muda. Só que eu não consigo retornar ao especialista. Na unidade básica de saúde, consigo renovar a receita, mas não tenho uma nova avaliação para saber se aquela dosagem continua adequada.
Alessandra de Araújo José, comerciante
Na terceira reportagem da série especial que aprofunda cinco temas apontados pelos leitores como prioritários para o próximo governo do Estado, histórias como a de Alessandra representam um desafio enfrentado diariamente por milhares de usuários do SUS.
Embora o Espírito Santo tenha ampliado significativamente a oferta de consultas especializadas, exames, cirurgias e leitos hospitalares nos últimos anos, ainda existem filas para procedimentos de média e alta complexidade. O tamanho dessas filas depende da especialidade, da região onde o paciente mora e da gravidade do caso.
Em números: conforme dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), de março de 2026, 66,1% da população capixaba não possui plano de saúde. Mesmo entre aqueles que possuem convênio médico, muitos dependem de alguns serviços públicos, como exames e internações.
Quando se fala em demora para conseguir atendimento especializado, a primeira associação costuma ser o momento da consulta. Mas, na prática, o acesso depende de uma cadeia muito maior.
Antes de chegar ao hospital, o paciente normalmente passa pela Unidade Básica de Saúde, onde é avaliado e, caso necessário, encaminhado para exames, consultas especializadas ou internação. A partir desse momento, entra em funcionamento a Central Estadual de Regulação, responsável por organizar o fluxo de leitos, consultas e exames do SUS no Espírito Santo.
Segundo o secretário de Estado da Saúde, Gleikson Barbosa dos Santos, conhecido como Kim Barbosa, o processo não segue a ordem de chegada, mas critérios clínicos.
A regulação é feita em tempo real. O médico da atenção primária faz o encaminhamento e temos uma Central Estadual de Regulação composta por mais de 50 médicos que avaliam cada caso de acordo com o quadro clínico. O paciente é classificado conforme a prioridade.
Kim Barbosa, secretário de Estado da Saúde
O secretário destaca que o sistema segue um dos princípios do SUS. “Seguimos o princípio da equidade do SUS: precisamos dar mais para quem precisa de mais. É isso que a regulação faz.”
Outra situação vivida por Alessandra, envolvendo o seu filho, pode estar relacionado a esse conceito. Aos 17 anos, Rêner sofreu um acidente de scooter, em 28 de maio de 2026, e foi levado pelo Samu a um hospital com fratura no nariz, fratura de face e uma fratura fragmentada no punho.
Segundo a mãe, ele permaneceu internado, aguardando um procedimento ortopédico que não chegou a ser realizado durante aquela internação.
“Foram alguns dias aguardando no leito. Era um hospital de porta aberta, então quem sofria acidentes graves, por exemplo, tinha prioridade”, relembra Alessandra.
Cenário atual: crescimento da demanda pressiona rede pública
Apesar do modelo de atendimento por prioridade, o crescimento da demanda continua pressionando a rede pública.
Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), atualizado em julho deste ano, o Espírito Santo possui 7.135 leitos destinados ao SUS entre hospitais próprios e contratualizados.
A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que o número ideal de leitos hospitalares fique entre 3 e 5 leitos para cada grupo de mil habitantes. Considerando que a população capixaba estimada é de 4.126.854, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há, em média, 1,7 leito no sistema público para cada mil pessoas.
Quando se trata da demanda por realização de exames no Espírito Santo, de acordo com a Sesa, a fila para ressonância magnética chega a 17.045 pessoas, sendo a maior do Estado.
Aumento da demanda exige planejamento permanente
Para o professor do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Thiago Dias Sarti, o aumento das filas não pode ser analisado apenas como consequência da falta de estrutura.
Segundo ele, a demanda por serviços especializados cresce continuamente em razão do envelhecimento da população, do aumento das doenças crônicas e do surgimento de novos problemas de saúde.
“A demanda sempre cresce. A população envelhece, surgem novas doenças e novos fatores de risco. Então, o sistema vive permanentemente sob pressão. Sempre haverá necessidade de mais leitos, exames e profissionais”, explicou.
Na avaliação do pesquisador, o problema passa a ser mais grave quando o tempo de espera permite que o quadro clínico evolua.
Quando um exame demora meses ou até um ano para ser realizado, existe o risco de a doença se agravar. Em alguns casos, o paciente acaba pagando pelo procedimento, faz uma vaquinha com familiares ou chega ao atendimento especializado em uma condição pior do que quando entrou na fila.
Thiago Dias Sarti, professor do Departamento de Medicina da Ufes
Além da expansão da oferta, Sarti defende uma gestão capaz de acompanhar continuamente os encaminhamentos feitos pela atenção primária.
“Não basta agir quando a fila já explodiu. O gestor precisa monitorar permanentemente os dados para planejar a oferta de consultas, exames e procedimentos antes que o problema aconteça”, disse.
Hospitais filantrópicos concentram atendimentos de alta complexidade
Além da rede própria, a assistência especializada no Espírito Santo depende diretamente da atuação dos hospitais filantrópicos. São essas instituições que respondem pela maior parte dos atendimentos de alta complexidade realizados pelo SUS no Estado.
Segundo a presidente da Federação dos Hospitais Filantrópicos do Espírito Santo (Fehofes), Vera Mantelmacher, atualmente existem 35 hospitais filantrópicos no Estado, dos quais 33 são associados à entidade e estão distribuídos em 27 municípios.
Em 24 cidades capixabas, eles representam a única estrutura hospitalar disponível para atendimento da população.
Hoje, 51% de todas as internações realizadas no Espírito Santo acontecem nos hospitais filantrópicos. Quando falamos de alta complexidade, esse percentual sobe para 72%.
Vera Mantelmacher, presidente da Fehofes
A dirigente destaca que a rede atua como parceira do SUS, disponibilizando leitos, consultas e exames que são regulados pela Secretaria de Estado da Saúde ou pelas secretarias municipais.
“Nós colocamos à disposição do Estado a capacidade instalada de cada hospital. É por meio da regulação que esses leitos e agendas de consultas e exames são ocupados.”
Apesar da importância da rede, Vera afirma que o principal desafio continua sendo garantir sustentabilidade financeira para manter e ampliar os serviços.
“Manter um hospital envolve muito mais do que assistência. Existe toda uma estrutura de manutenção, hotelaria, equipamentos e equipes especializadas. Nosso maior desafio hoje é garantir sustentabilidade para continuar crescendo.”
Segundo ela, fortalecer a parceria entre hospitais e poder público é essencial para ampliar o acesso à população.
“Os hospitais estão se preparando para ampliar leitos e qualificar a gestão. Mas é importante que os convênios sejam atualizados e remunerados de forma sustentável para que possamos continuar expandindo os serviços.”
Atenção primária pode evitar a sobrecarga da alta complexidade
Embora ampliar a quantidade de leitos e equipamentos seja importante, é justamente por se tratar de uma linha de cuidado, que os especialistas defendem que a solução para reduzir filas começa antes da chegada do paciente ao hospital.
Para Thiago Sarti, investir na atenção primária é a estratégia mais eficiente para diminuir a demanda por consultas especializadas, exames de alta complexidade e internações.
Uma unidade de saúde bem estruturada consegue resolver mais de 90% dos problemas apresentados pelos pacientes. Quando isso acontece, menos pessoas precisam ser encaminhadas para especialistas ou hospitais.
Thiago Dias Sarti, professor do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)
Na prática, isso significa fortalecer o atendimento realizado nas unidades de saúde dos bairros, onde doenças como hipertensão, diabetes e outras condições crônicas podem ser diagnosticadas e controladas antes que evoluam para quadros mais graves.
Além disso, o secretário Kim Barbosa também cita a vacinação como uma das ferramentas para diminuir a ocupação hospitalar.
“Tomar vacina evita internações. Quando a pessoa deixa de se vacinar, aumenta o risco de desenvolver um quadro grave e precisar de um leito de UTI.”
Investimentos tentam preparar a rede para os próximos anos
Nos últimos anos, o Espírito Santo ampliou significativamente a estrutura da rede estadual de saúde.
Segundo o secretário de Saúde, o número de consultas médicas especializadas aumentou 50 vezes em um período de sete anos. “Em 2018, nós tivemos quase 20 mil consultas especializadas ofertadas. Quando comparo com o final de 2025, nós ultrapassamos 1 milhão”, afirma.
De acordo com ele, as cirurgias eletivas seguiram a mesma tendência. “Nós saímos de 40 mil cirurgias eletivas em 2018, para 2025 nós fechamos com 174 mil cirurgias eletivas a realizadas no Espírito Santo.”
Para ele, o aumento da oferta permitiu reduzir filas históricas em diferentes especialidades.
O objetivo é diminuir a fila de consultas, exames e cirurgias eletivas, sempre aumentando a oferta e qualificando o processo de regulação para reduzir o tempo de acesso ao serviço.
Kim Barbosa, secretário de Estado da Saúde
Além disso, o Estado aposta na expansão da infraestrutura para aumentar a capacidade de atendimento.
Entre os principais projetos está a construção do novo Hospital de Cariacica, que será o maior hospital público do Espírito Santo, com 408 leitos destinados à média e alta complexidade. Outro investimento é o Complexo Norte, em Linhares, que reunirá hospital, policlínica, Farmácia Cidadã, hemocentro e outros serviços em um único espaço.
Segundo Kim Barbosa, a proposta é facilitar a jornada do paciente, concentrando diferentes atendimentos no mesmo local.
“Antigamente, as pessoas vinham para a Grande Vitória para ter o seu tratamento de alta complexidade. Hoje, esse tratamento fica dentro da região. Não é apenas uma quantidade de leitos, mas a garantia de que eles sejam distribuídos de forma regionalizada, com equipe especializada, financiamento sustentável e integração da rede assistencial.”
O secretário também destaca que a expansão da cobertura do Samu ajudou a reduzir o tempo entre o atendimento inicial e a chegada ao hospital. De acordo com ele, a cobertura estadual do serviço também melhora o encaminhamento dos pacientes para hospitais especializados.
“Hoje, um paciente que sofre um infarto é levado diretamente para um hospital de referência, reduzindo o tempo de atendimento e aumentando as chances de recuperação.”
Apesar dos investimentos realizados nos últimos anos, especialistas avaliam que ampliar leitos e adquirir novos equipamentos, por si só, não elimina as filas da saúde pública.
O envelhecimento da população, o aumento das doenças crônicas e a incorporação constante de novas tecnologias fazem com que a demanda continue crescendo. Por isso, o desafio passa por combinar expansão da estrutura, fortalecimento da atenção primária, qualificação da gestão e integração entre Estado, municípios e hospitais parceiros.
Para quem está do outro lado da fila, como Alessandra e Rêner, a expectativa é que a saúde pública evolua e consiga atender às demandas de toda a população.
Para mim, o principal problema é a gestão e a organização. Estrutura e profissionais existem. O que falta é organizar para que o paciente não precise passar por tudo isso.
Alessandra de Araújo José, comerciante
Fonte: Folha Vitória